A opinião de Carlos Dantas

Protagonistas silenciosos

Dec 03, 2014
Carlos Dantas

Quando as bolas paradas são cada vez mais decisivas, Carlos Dantas expõe a sua opinião sobre o que vai mal na arbitragem e sobre como se pode ajudar os árbitros em vez de complicar a tarefa destes.

Os árbitros sempre tiveram poder e com estas novas regras têm muito mais. Na minha opinião, há coisas que não lembra ao diabo. Como a situação que muitas vezes acontece, em que qualquer batimento de stick com stick é falta de equipa. Ora, o hóquei é um jogo de contacto, é natural que haja contacto de stick com stick. É natural que haja contacto e, como o hóquei é um jogo de contacto, sem isso é impossível.

No caso do basquetebol ou do andebol, os atletas podem parar no sítio onde querem mas no hóquei em patins os jogadores têm de travar ou parar e muitas vezes as rodas não ajudam. Não é assim tão instantâneo. Mesmo nos automóveis, mete-se o pé no travão e eles ainda resvalam um bocado. O hóquei é a mesma coisa. Portanto, há aqui situações que eles têm de entender. Desta forma, o hóquei está a enveredar pelo caminho do “não me toques”. Parece um jogo tipo vólei, cada um do seu lado da rede e sem nos podermos tocar... o hóquei, tal como o futebol, tem de ter contacto. E o problema que existe é a análise que os árbitros fazem em determinadas situações. Há situações completamente passíveis de não serem faltas, porque o contacto é tão ligeiro que na minha opinião não se justifica. E o que está a acontecer é que, com o acumular de faltas, os jogos começam a ser resolvidos em função das faltas das equipas, em função de ter um bom marcador ou um bom guarda-redes. O jogo não é isso. A ser assim, fazemos campeonatos de livres diretos e de penaltis. O hóquei, e qualquer desporto, não pode depender só de uma punição.

A arbitragem, cada vez mais preponderante na decisão dos jogos

A questão que tenho colocado a muitos árbitros - e à qual ninguém responde - é a seguinte: o modo de proteção da bola de um jogador português é feito pelas pernas. Ou seja, através da postura corporal e no enquadramento que o jogador dá às pernas para proteger a bola do adversário. Um jogador argentino, e estou a lembrar-me sobretudo do Mariano que era um esperto a fazer isso, em vez de fazer a protecção com as pernas, fazia com o stick. Leva a bola em linha recta, vai a conduzir a bola e, quando o adversário vem para tirar a bola com o stick, ele mete o stick dele à frente. E eu pergunto: de quem é a falta? É do Mariano ou é do jogador que bate com o stick no stick do Mariano? Ainda ninguém me soube explicar isto. Eu estou de acordo que seja falta o stick bater no stick mas isso depende muito da intencionalidade do jogador que vai tirar a bola. Não é só dar um toquezinho no stick que é falta de equipa. Isso é como os contactos. Qualquer contacto é falta de equipa? E depois, quando os jogos estão equilibrados definem-se quase sempre na marcação de livres diretos e penaltis. É o acumular de faltas de equipa – e a maior parte delas nem existe – que leva para o fim a decisão do jogo. Por isso é que eu digo que o hóquei começa a ser um desporto de “não me toques”.

Um centímetro mais à frente, fará assim tanta diferença?

Mas, se me perguntarem se estou de acordo com o que se passava antigamente, eu respondo que não. Mas isso esteve sempre na lei e depende da interpretação do árbitro. Agora, o árbitro não pode interpretar a seu bel-prazer. Tem de haver alguma intensidade no stick para tirar a bola ao adversário, tem de haver alguma intensidade a pressionar o outro em termos de contacto físico e, depois sim, é falta. Agora, por toques simples não estou de acordo.

A marcação das grandes penalidades

Há outra questão, relativamente à marcação das grandes penalidades. Nos livres directos também, mas sobretudo nas grandes penalidades.

O árbitro começa a controlar o guarda-redes, não controla o avançado, e a maior parte das vezes quem faz falta é o avançado quando ameaça.

Ora, um dos árbitros está a corrigir a posição dos jogadores no meio campo contrário, junto à área, porque não podem ultrapassar o limite da grande área... Para mim, a presença do árbitro ali nem faz sentido. Quando o limite dos jogadores era a meio campo, em que, quando o árbitro apitava, ainda tinham hipóteses de interferir, sobretudo na recarga, agora quase no “fim da rua” não têm tempo para chegar lá e interferir, sobretudo na primeira recarga. Na segunda ainda acredito mas na primeira é difícil e depende de onde a bola vai cair. Se cair logo à frente do guarda-redes é evidente que nenhum deles chega a tempo. Se a bola for para a tabela, muitas vezes também não chegam a tempo. Portanto, não devia haver grande preocupação com eles. Quantas vezes eu já vi anularem uma grande penalidade que foi golo porque o jogador meteu o pé à frente mais uns centímetros? Desvirtuam sobretudo a punição. Que interessa se ele dá um passo à frente ou atrás? Ele não está a meio campo. Está lá atrás! Do outro lado, está só um árbitro, que só olha para o guarda-redes e, na maior parte dos casos, é para punir os guarda-redes. Chama-o, fá-lo levantar, avisa-o e, na segunda vez, expulsa-o. Então e o avançado? O avançado não é visionado porquê? A maior parte das vezes é o avançado que faz falta de simulação. Eu acho que tem de haver aqui um critério. Porque é que só se pune o guarda-redes? Bem sei que quem está em falta é a equipa do guarda-redes, porque essa é que sofreu a sanção. Em alguns casos a equipa é punida com cartão azul e fica a jogar com três. A equipa é punida duas vezes. Mas só se controla o guarda-redes. Quando as coisas têm de ser vistas para os dois lados…

Azul ao guarda-redes por dupla hesitação na marcação da grande penalidade

Também não estou de acordo com o levantar do braço. O guarda-redes está à espera de ver o levantar do braço do árbitro para saber quando é que o avançado vai atirar. Para já, não pode estar à espera, porque tem cinco segundos para o fazer. Se as coisas forem ao apito, o guarda-redes não tem de estar a ver o árbitro. Porque é que o árbitro se mete sempre em posições favoráveis ao avançado e não relativamente ao guarda-redes? Quando levanta o braço e começa a contagem, quem vê é o avançado que tem o tempo todo para decidir. O guarda-redes está é a olhar para a bola, para ver para onde ela vai. Muitos avançados já fazem isto de propósito e chamam a atenção do árbitro para o guarda-redes para o enervar e o pôr na rua. E os árbitros estão a ser comidos como anjinhos! Porque os guarda-redes não têm a possibilidade de chamar a atenção do árbitro para a simulação do avançado. Se um tem o direito de alertar o árbitro, o outro também tem de ter esse direito. Mas os árbitros não atendem o guarda-redes. Isto são tudo questões que têm de ser conversadas com os árbitros e com as entidades competentes. Porque isto também prejudica os árbitros.

O árbitro levanta o braço para a marcação, com o guarda-redes focado na bola

Estamos numa fase em que qualquer árbitro pode ganhar um jogo ou pode decidir um campeonato. Porque cada vez as leis são mais sofisticadas e obrigam a uma maior concentração de um árbitro. Muitos lances que obrigam a uma interpretação diferente e a uma análise diferente e os árbitros não podem estar preocupados com isso.

Tempo de ataque

Vou dar outro exemplo fácil: os 45 segundos de ataque. Quando só havia um àrbitro ou mesmo dois, eu ainda poderia dar o benefício da dúvida. Mas agora são três. Os 45 segundos deviam ser controlados pelo árbitro da mesa, que tem uma visão perfeitamente à vontade. Ou seja, ele sabe que se a equipa tiver posse de bola no ataque, tem 45 segundos para atirar. Se a bola for à baliza e não tocar no guarda-redes, continuam a contar os 45 segundos. Se a bola for defendida pelo guarda-redes, têm novamente 45 segundos. Quem é que pode controlar isso? Há algum árbitro que possa garantir que foram 45 segundos? Não há nenhum! Isso devia ser controlado pela mesa e o árbitro da mesa, quando passavam os 45 segundos, assinalava com um sinal sonoro e os outros já sabiam. Falta para o outro lado. Não era fácil? Temos de ajudar os árbitros a serem melhores e as regras não estão a ajudá-los a ser melhores, pelo contrário, complicam-lhes a vida.

Faltas

Também estranho aquelas equipas que fazem oito faltas em cinco minutos e depois estão 20 minutos sem ver assinalada qualquer falta. É muito estranho, ou então o critério muda durante o jogo. Uma diferença de duas ou três faltas é normal, mas jogos em que uma equipa tem oito faltas e a outra uma... a minha pergunta é: “desculpem lá, mas eles não estão a disputar o mesmo jogo de hóquei?” Muitas vezes, a equipa que está a jogar à zona sofre mais faltas que a equipa que está a jogar homem-a-homem. Ora, uma equipa que joga à zona, joga na base do não-contacto porque não anda atrás do jogador. Portanto, são estas coisas que eu vejo e depois me deixam a pensar. Como é possível? Expliquem-me lá!

Uma equipa que joga a homem e é mais aguerrida, tem naturalmente que ter mais faltas. E depois vejo um jogo e digo “ou eu não percebo nada disto - com certeza não percebo - ou isto está completamente errado ou a interpretação dos árbitros está a ser mal feita”. Por princípio, uma equipa que joga à zona tem de fazer menos faltas. Pode fazer mais faltas atacantes? Pode! E também acho que as faltas atacantes estão a ser em exagero.

Falta atacante

Por exemplo, às vezes, um jogador, o “punta”, o avançado-centro do hóquei, está ali dentro da área e muitas vezes é pressionado, mas os árbitros, para não marcarem grande penalidade contra a equipa que está a fazer pressão sobre esse avançado, preferem marcar falta de equipa ao avançado.

Os árbitros não conseguem interpretar quem é que está a fazer falta. Se têm dúvida que o defesa faz falta sobre o avançado ou se é o avançado que está a fazer falta sobre o defesa, que façam golpe duplo. Nunca vão punir o defesa, que se calhar está a fazer falta; como dá muitos nas vistas, levanta muita celeuma, mais vale marcar uma falta atacante. Os árbitros pensam assim para não terem problemas.

Mas atenção, não estou a dizer que não haja faltas atacantes e penaltis bem marcados. Nem estou a duvidar de nenhum árbitro em especial, nenhum.

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