Vamos Falar de Hóquei em Patins

«Gostava que falassem de mim como um guarda-redes que pensava o Hóquei»

Apr 27, 2020

Trabal é um nome incontornável em qualquer lista de referências entre os postes. Sinónimo de segurança e método, enquanto guarda-redes, Guillem Trabal tenta agora passar o que aprendeu aos guardiões de uma nova geração.

O confinamento deixou-o fechado na sua "terrinha", a hoquística Sant Hipolit de Voltregà, mas não o afastou do Hóquei em Patins. Pelo contrário. Depois de ter estado na organização dos World Roller Games, é parte da Associação de Clubes espanhola, Trabal é uma voz interventiva e trabalha de perto com a federação do país vizinho para uma solução quanto ao fim da presente temporada. No entanto, as decisões terão de ficar para mais à frente. "É cedo para fazer algo mais do que esperar", afirma, sem esconder que, apesar dos jogadores jogarem pelos adeptos, se tiver de ser à porta fechada "vale mais ver um jogo na TV, do que não ver jogo nenhum".

Pelo "seu" Voltregà, onde cedo - com três anos - foi para a baliza, conquistaria uma Taça CERS - ao Porto - mas, com o profissionalismo em vista, acabaria por sair em 2002 para um Lleida na altura com outras possibilidades económicas.

Esteve duas temporadas ao serviço da equipa da "risca azul", antes de dar o salto para um Reus que investia para ombrear com Barcelona e Liceo. Apesar de ser complicado sair da sombra do domínio blaugrana, o Reus ganharia tudo com Trabal na baliza. Entre os técnicos, Carlos Figueroa - que conduziria os "roginegros" ao título europeu, mudou o Hóquei quando entrou no Igualada. "Muito exigente, com uma proposta táctica que era única"... mas não dava muita importância aos guarda-redes. Alejandro Dominguez sucedeu-lhe, em altura de desinvestimento, mas levaria a equipa à conquista da OK Liga. "Ganhámos o campeonato nacional, na época que menos probabilidades tínhamos", recorda Trabal, sobre o título mais saboroso. "O campeonato nacional é o título mais difícil de ganhar, obrigando à regularidade. É o título de que sentimos mais orgulho, temos de estar 10 meses a jogar bem", assinala.

Nunca chegou nenhum convite do Barcelona e, ao contrário do que ia sendo falado em Portugal, também nunca tinha havido convite do Benfica. Ao primeiro contacto, veio para Lisboa em 2013. "Foi muito fácil aceitar a proposta", sublinha.

As diferenças da OK Liga para a I Divisão portuguesa foram claras desde cedo. "Tive de trabalhar muito mais nos jogos. É descontrole, é só pensar em marcar golos. É um hóquei espectacular", analisa.

"Nos treinos em Espanha, há muito mais trabalho táctico, no português há mais trabalho individual. Em Portugal, o treinador é muito mais um gestor de balneário, deixa mais nas mãos dos jogadores. O treinador espanhol quer mais controle", observa, tendo detectado também diferenças óbvias na formação. Em Espanha, desenvolvem-se conceitos tácticos, em Portugal "investe-se" na técnica individual. E em Espanha pensa-se muito na melhoria global do jogador, havendo o respeito de não ganhar por 30 ou 25, apesar de algumas equipas terem valor para isso. Mas já nas selecções os portugueses, se podiam ganhar por 40 ,não iam ganhar por 10. Para além da notória diferença de atenção ao Hóquei em Patins no feminino.

A última temporada no Benfica, custou a Trabal, habituado a ser dono da baliza por onde passava. Com Pedro Henriques vindo da conquista de uma Liga Europeia pelo Reus, Trabal teve poucos minutos de jogo. "Faltou sinceridade e oportunidades", aponta, frisando que, se não ia ser opção, preferia ter saído. Mas do Benfica guarda excelentes recordações, como aquele fim-de-semana em 2016, com dois títulos - Liga Europeia e Campeonato Nacional - mas só uma festa...

Já depois da saída de Guillem Trabal, Alejandro Dominguez substituiu Pedro Nunes no cargo de treinador. Sem contexto, por não ter sido treinado por Alejandro no Benfica, Trabal recusa-se a azer uma comparação do impacto na equipa. Mas, enquanto treinadores, Pedro será "um grande gestor de equipa" e Alejandro "a nível táctico, está num patamar superior, com mais recursos, mais soluções".

Do Benfica, Trabal foi para os italianos do Valdagno - onde encontrou uma realidade "meio-termo" entre Espanha e Portugal -, no caminho necessário para continuar a ser profissional. Na decisão do regresso a casa, tal já era impossível.

Abandonou, orgulhoso do seu trajecto. E orgulhoso da discussão que se gerou à volta de um stick que idealizou e que vai sendo adoptado pelos grandes guarda-redes da actualidade. Guarda-redes experientes que vão mantendo as balizas bem guardadas, tornando difícil alguém "roubar" o lugar.

Agora, vai tentando colmatar as falhas nos aspirantes a sucederem-lhe. "Os guarda-redes têm de aprender a interpretar o jogo", aponta como a grande lacuna num jogo em que urgem três medidas imediatas: a redução a 35 segundos de tempo de ataque, a redução do espaço de ataque e permitir jogar com o patim para o jogo não parar nem depender tanto de interpretações subjectivas dos árbitros.

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