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«Os treinadores têm aquilo que merecem»

Nov 21, 2016

Impulsionada pelo saudoso Prof. João Campelo, a Associação Nacional de Treinadores de Hóquei em Patins (ANTHP) surge nas assembleias da Federação de Patinagem de Portugal representada por cinco delegados. Francisco Janelas, o presidente da associação, reflecte sobre os dilemas da mesma, sobre as questões que visam os treinadores, mas também sobre a pouca adesão destes ao movimento associativo.

Grato à FPP

Francisco Janelas não poderia ser mais elogioso para com a direcção recém - e novamente - empossada da FPP e, em particular, o presidente Fernando Claro. "O balanço que faço, como presidente da ANTHP e pessoalmente, é bom, muito positivo", começa por afirmar. "Tivemos uma ajuda imensa. Acredito que, se não fosse esta direcção da FPP e, principalmente, o presidente, senhor Fernando Claro, a ANTHP já não existia", reforça.

Sobre o trabalho da FPP no mandato que terminou, Francisco Janelas destaca a recuperação financeira. "Foi um recuperar de credibilidade financeira, um trabalho continuado que já acompanhei nos outros quatro anos, e nos anteriores e nos anteriores. Estou no hóquei há cerca de 50 anos e acompanhei todas aquelas coisas que aconteceram e que não deviam ter acontecido, foram questões financeiras muito graves", lamenta. "Esta direcção teve o mérito de recuperar, não só a credibilidade em termos do hóquei em patins português, mas também a nível financeiro. A nível de selecções, acredito mesmo que fez um excelente trabalho nestes quatro anos", elogia.

Guillem Cabestany

É fácil depreender nas palavras de Francisco Janelas que a ANTHP apoiou a lista de continuidade, única presente às eleições. "O meu apoio, a título particular, é total. A 200%!", faz questão de frisar. "Mas também posso dizer que na ANTHP, os delegados subscreveram a lista apresentada na maior parte, para aí 97-98%. A percentagem que falta, foi porque os delegados não estavam cá", refere, sem impor qualquer disciplina de voto. "O aceitar daquela lista é individual, cada delegado da ANTHP faz aquilo que realmente acha que deve fazer. Se quisesse votar contra, votava", explica.

Expectativas

Para o presidente da ANTHP, a continuidade é fundamental. "Tinha algum receio que não houvesse continuidade, porque creio que a FPP ainda não está credibilizada ao ponto do senhor Fernando Claro poder deixar um legado para o qual ele próprio - ele e a direcção, naturalmente - teve muito trabalho", detalha. "Creio que, com mais este mandato, a situação ficará estabilizada e, para mim, que gosto muito da minha modalidade e quero que ela vá para a frente, acho que é o ideal. Será o culminar de Claro no dirigismo e vai deixar isto, com certeza, com muita credibilidade e financeiramente estável", assegura.

O "arrumar da casa", conforme o próprio Francisco Janelas aponta, é o desejo para este mandato, ciente de que não tem sido, nem será uma tarefa fácil. "Isto dá muito trabalho. As pessoas pensam que não, mas dá muito trabalho, e tira as pessoas das famílias", sublinha. "Acredito que estabilizado está, mas penso que será o arrumar da casa definitivo", reitera.

Miguel Viterbo

A formação de treinadores

Entrando no particular da classe que dirige, Francisco Janelas expressa a sua preocupação para com a questão da renovação das carteiras. "Na ANTHP temos feito alguns workshops e algumas acções de formação que são necessárias para a renovação da carteira, mas isso tem sido um problema", começa por referir.

"É umas das situações que vou levantar com certeza a esta direcção da FPP: os cursos de treinador não fazem sentido nenhum", afirma, concretizando as suas críticas. "Até aqui não tínhamos nada, agora passámos a ter o primeiro, o segundo, terceiro nível... Está-se sempre a comparar tudo ao futebol, mas isto não é futebol", contesta. "Há pessoas que vão do Algarve a Coimbra, tenho colegas meus que agora foram fazer cursos a Coimbra e a Rio Maior, e alguns até vão a Beja. Gasta-se rios de dinheiro e nós não ganhamos aquilo que ganham no futebol", constata, criticando também a obrigatoriedade dos estágios. "Estágios de mil e tal horas?", questiona. "Uma pessoa do Alentejo vai fazer o estágio onde e com quem?", insiste.

Pedro Nunes

Francisco Janelas deixa mesmo um alerta. "Já o disse, e repito: em 2017 mais de 50% dos treinadores de hóquei em patins deixam de treinar", avisa. Porquê? "É esta questão da carteira. Foi um negócio do 'arco-da-velha' que o IPDJ [ndr: Instituto Português do Desporto e Juventude] arranjou. Temos de fazer cinco pontos ou dez específicos. São só 10 pontos, mas, por exemplo, uma acção dá um ponto, mas pagamos 60 a 70 euros. Não faz sentido, não há poder de compra para isso", lamenta.

Atenta aos problemas dos seus associados e dos integrantes da sua classe, a ANTHP tentará ajudar. "Vamos fazer uma ou duas acções. Os treinadores nem pagarão ou, se pagarem, pagam uma coisa mínima para cobrir despesas", anuncia. "Já fizemos uma específica de hóquei feminino, fizemos agora recentemente outra, fizemos um workshop em Santo Tirso, e vamos tentar fazer mais algumas para minimizar esta questão dos treinadores, porque tem sido uma luta terrível", afirma.

Tó Neves

A luta é difícil e muitas vezes são os próprios treinadores que não facilitam. "Por vezes, e digo-o muitas vezes, os treinadores têm aquilo que merecem. Em 1400 treinadores de hóquei em patins só pertencem à associação 140 e, desses, só 70 ou 75 é que pagam cota", escalpeliza. E a participação é diminuta. "Muito, muito pouco. Agora necessitam dos pontos, e já fazem alguma intervenção para com a associação, mas não são muitos os que se fazem sócios", lamenta, dado que a participação e o envolvimento de todos é importante.

"As pessoas têm de se consciencializar de que a participação é necessária, até para termos credibilidade para falar na assembleia da FPP. Temos de estar apoiados por trás, e esse apoio tem de ser dos treinadores. Vamos lá ver se as coisas melhoram nesse aspecto, mas temos muito poucos sócios para aquilo que é realmente o hóquei em patins", refere, voltando a apresentar números... e custos. "Existirão 1400 treinadores neste momento, alguns já não renovaram a carteira em 2016 e não renovaram, e em 2017 estou plenamente convencido que 50% deixa de treinar, porque não têm poder de compra. Muitos estão desempregados, muitos quase que pagam para treinar e fazer um curso de, por exemplo, nível 3 deve custar, em termos de deslocações, dormidas e comidas, à volta de dois mil e tal euros. É totalmente incomportável", reforça.

João Simões

Francisco Janelas expõe o problema. Mas propõe também uma possível solução. "Já propus e vou propor novamente. Aqueles cursos de treinador, como o nível 3, têm de ser feitos por exemplo de 2 a 7 de Setembro. As pessoas arranjam e conseguem negociar melhor as comidas e, sabendo os dias, podem marcar férias. São cinco dias num sítio, mas ficam com o curso tirado, não andam a fazer piscinas entre Algarve e Coimbra, de não sei onde para Coimbra ou de Lisboa para Coimbra. De 15 em 15 dias, as pessoas estão a ir lá acima para fazer testes, fazer isto, fazer aquilo, é incomportável, não dá", insiste, instigado pela revolta.

"Vamos ver se consigo ter mais algum apoio para que as coisas mudem. Porque, com tanto treinador espanhol e tanto jogador espanhol, vamos lá ver se isto consegue ir a algum lado", refere. Preocupante? "É outra situação que me preocupa, e que preocupa a Associação de Treinadores neste momento... vermos cada vez mais treinadores vindos do estrangeiro. Até aqui exportávamos treinadores, agora estamos a importar treinadores", frisa.

No Nacional da I Divisão, há dois treinadores espanhóis. Guillem Cabestany chegou em 2015 para o FC Porto e Guillem Perez assumiu esta época o comando técnico do Sporting.

O responsável pela Associação de Treinadores dá o exemplo do que aconteceu precisamente no país vizinho. "Em Espanha houve um volte-face naquilo que foi há uns anos.Nos últimos 10 anos, a Espanha tem decaído em termos de organização, tem decaído muito. A Associação de Treinadores espanhola era uma coisa fenomenal e, neste momento, não existe, acabou. Vamos ver... o que é que isto trás de melhoras para o hóquei", murmura, para de imediato contrapor um aspecto positivo.

"Uma coisa sei que melhorou: este novo acordo da federação com a TVI. Foi excelente, vem melhorar muito a imagem, é mais uma das coisas que a Federação fez bem", aborda, transportando-nos para o tema da cobertura mediática.

Guillem Perez

Contestação aos media

No final do Campeonato da Europa de Oliveira de Azeméis, a ANTHP emitiu uma carta aberta a criticar fortemente a cobertura da prova e da conquista de Portugal. "Mantenho a minha opinião, mantenho-a forte. Cometi uma gaffe, que depois também rectifiquei através dos media, porque o jornal O Jogo realmente fez capa, mas foi o único", reclama.

A carta aberta - datada de 18 de Julho e intitulada "Vergonha" - reclamava também reconhecimento das instâncias oficiais. Mas desde o dia da final (16 de Julho) que era conhecida a vontade do Presidente da República receber a comitiva, independentemente do desfecho do jogo.

"Não sei se foi a carta que despoletou tudo, porque foi desde que essa carta aberta foi colocada nos media que o professor Luís Sénica foi convidado para não sei onde, e depois do acontecimento é que começou a haver a cobertura do hóquei nas televisões, na RTP1, na SIC, em todo o lado, nos jornais...", reflecte, exigindo outra atenção.

Paulo Freitas

"Eu felizmente estive lá [ndr: na final em Oliveira de Azeméis], e depois não me agrada nada... eu também sou homem de futebol e estou num clube de futebol, sou director há 38 anos de futebol e cada coisa no seu lugar", ressalva, comparando o destaque dado ao dito "desporto rei". "Nós [Hóquei em Patins] somos campeões da Europa com todo o mérito, e foi mesmo com muito mérito, e vermos um bocadinho no Record ou n'A Bola não faz sentido nenhum. Quanto a mim, não faz, não temos sempre de ser os parentes pobre do desporto nacional, até pelo contrário...", argumenta. "Somos a modalidade que mais campeonatos do Mundo e da Europa tem... há que dar valor ao que temos", exige.

A modalidade já esteve mais enraizada na cultura portuguesa e Francisco Janelas recorda outros tempos. "Sou do tempo em que as pessoas estavam com os ouvidos colados à telefonia. Eu era muito miúdo, mas já ouvia na rádio e em Lisboa ia ao pavilhão do Sporting ver os jogos e tudo. O Hóquei em Patins, se calhar, até era mais amado que o futebol", lança, consciente das diferenças. "Futebol é futebol. A seguir era o Hóquei que tinha, e ainda hoje tem, muita gente a gostar", sublinha.

Luís Sénica

A televisão assumiu o papel de principal - e privilegiado - veiculo de divulgação, com os relatos radiofónicos a tornarem-se cada vez mais raros. "Em termos televisivos, às vezes não é fácil. Mas têm-se tomado medidas, como tornar o chão mais claro para que se veja melhor a bola. Essas coisas todas também contam", frisa.

"De qualquer maneira, penso que o Hóquei devia ser mais acarinhado. As pessoas, havendo transmissão, vêem na televisão. Eu tenho montes de amigos meus que me vêm dizer 'Pá, viste o jogo ontem?'", conta-nos. "E na Benfica TV também dão muitos jogos, Porto Canal e A Bola também dão. É bom para a modalidade e nisso estou sempre ao lado deles", conclui, piscando o olho aos media que critica.

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