Entrevista

Dois momentos a marcar o destino de Portugal

Jul 29, 2014

Em dia que começou enublado em Sesimbra, e até o “calor rebentar”, Luís Sénica, seleccionador e director técnico nacional, concedeu ao HóqueiPT uma entrevista que passa pelo Europeu de Alcobendas. Mas não só.

HóqueiPT: A preparação no Luso correu dentro do planeado?

LS: Sim. Fizemos tudo o que estava previsto e que se impunha nesta fase da época. Tivemos em conta a época desgastante dos jogadores, gerimos, no meu entender, muito bem o esforço físico, as próprias folgas dentro do microciclo, jogámos do ponto de vista do jogo treino o que era possível jogar. Não tivemos acesso a um nível de maior exigência porque não era possível mas ainda fizemos quatro jogos que nos permitiram ver caras diferentes em relação ao treino e que nos permitiram aplicar e aferir algumas coisas.

Aí não tenho dúvidas nenhumas de que fizemos o que era necessário e a prova é que eu afirmei que sentia a equipa capaz, confiante, quer física, quer psicologicamente, e creio que ela deu essa resposta do ponto de vista físico e, em alguns momentos, do ponto de vista psicológico também o demonstrou. Acho que o último jogo, frente à Espanha, é paradigmático disso. Portanto havia muito pouco a mudar em relação à planificação, até pelo momento em que se processa este campeonato da Europa.

HPT: As equipas com que fizeram os jogos de preparação foram as desejáveis?

LS: Não. Foram as possíveis. Estivemos inclusivamente à beira de não realizar tantos jogos. Tivemos a disponibilidade de uma ou duas equipas porque sabiam porque eu tinha dito aos órgãos de comunicação social que tínhamos dificuldade em ter equipas. Isto porque não houve capacidade face ao momento da época. Não é não haver vontade por parte das pessoas, simplesmente não houve capacidade por parte das equipas em prolongarem as suas épocas para poderem fazer jogos com a Selecção. Nós jogámos com quem estava disponível e com quem foi possível jogar, podendo até correr o risco, face ao momento da época, de não termos ninguém com quem treinar.

HPT: O último Campeonato Nacional foi dos mais intensos e disputados até ao final. Sentiu que isso afectou de alguma forma os trabalhos da Selecção?

LS: Há uma coisa de que eu não tenho dúvidas: nós, pessoas, somos efectivamente produto da gestão e daquilo que nos vai acontecendo. Não tenho dúvidas de que a forma como o campeonato se desenhou, a época intensa que as nossas equipas tiveram nas frentes todas, fizeram com que os jogadores tivessem um desgaste físico e emocional elevado. Penso que isso foi contornado com o trabalho que fizemos e volto a dizer que, em termos físicos, a equipa esteve em pleno e mesmo em crescendo ao longo dos jogos. E fechou muito bem com a Espanha. É possível que haja uns indicadores de dúvida porque houve jogadores que não atingiram os objectivos nas suas equipas e isso pode de alguma forma deixá-los mais vulneráveis. O que eu senti da parte deles foi uma grande disponibilidade para deixar isso de lado e fazer uma aposta clara naquilo em que todos acreditávamos, que era ir a Espanha tirar-lhes o título europeu.

HPT: A mudança do Europeu para o final dos campeonatos acaba por ser prejudicial para o seleccionador?

LS: Nós sabíamos o que íamos encontrar. Temos de olhar para a realidade do hóquei em patins. Sabíamos que ia ser com seis equipas, as mais competitivas da Europa. Sabíamos que havia um calendário competitivo desenhado para, de alguma forma, a Espanha poder ter um dia mais folgado e até recuperar o “goal average” - e há essa indicação com a Suíça - e nós jogávamos com a Itália. Nós saímos à frente na sexta-feira e a Espanha acabou por superar o “goal average”. Ainda que também de pouco lhes valeria, mas acabou por fazê-lo e, se fosse necessário, ela tinha essa capacidade. Acrescido ao facto do momento da época, foram situações para as quais estávamos preparados. Não me parece muito correto agora estar a dizer que isso influenciou ou que foi por aí que nós falhamos.

HPT: Mas este é o momento ideal para os campeonatos?

LS: Não. E até acho interessante que me façam essa pergunta porque eu já vivenciei os dois lados, como seleccionador e como treinador de clube.

Se começarmos no início da pré-época e trouxermos os jogadores à Selecção Nacional como aconteceu no Mundial de Angola, e como já aconteceu no passado recente em outros europeus e em outros mundiais, os clubes são penalizados. Porque vão começar a sua época desportiva, vão começar o projecto em que investiram, sem as suas principais peças, pelo menos aqueles que lutam pelos títulos e que lutam pelas competições europeias.

Acrescido a isso há um momento no início dos trabalhos, em que os jogadores vêm muito mais acima, face à competição, face ao trabalho que desenvolveram em relação ao grupo de trabalho que ficou no clube. Isso é bom para o clube nos primeiros momentos e o clube vai tirar algum dividendo disso mas depois, ao fim de dois ou três meses, há efectivamente uma quebra normal e há aqui um grau de dificuldade para o treinador que está no clube fazer essa gestão e o seu equilíbrio, e pode interferir nos resultados. Isso não é bom para o clube mas é bom para a Selecção Nacional.

É preferível recebê-los frescos, trabalhá-los, prepará-los e dar-lhes o ritmo competitivo para irem a uma competição. Em final de época há o contraponto para a Selecção Nacional, é bom para os clubes porque cedem os seus jogadores já em final de época e isso não os vai perturbar, os objectivos foram ou não atingidos, mas a seleção nacional depara-se com outra realidade. Os jogadores chegam com fadiga em termos emocionais, chegam muito cansados e este regime de trabalho de terem de estar concentrados para preparar uma competição muito intensa e ali tudo muito em cima, acaba por ter ali algum desgaste emocional bastante forte e é preciso criar situações para que esse desgaste não aconteça.

De uma forma ou de outra há sempre variáveis que não jogam a favor. Experimentadas estas duas situações, eu gostaria muito de ver, e isto nada tem a ver com este resultado desportivo, mas gostaria de ver uma competição como faz o futsal, que pára os seus campeonatos e jogam em Dezembro ou Janeiro. Isto permite que o público em geral saiba o que está acontecer e que os jogadores estejam em competição e, quando regressam aos clubes, os impactos sejam mínimos. Mas isto não é exequível no hóquei neste momento porque vamos encontrar países que não são profissionais. Seria possível para Portugal, Espanha e Itália, ainda que haja sempre criticas e eu já sei que depois destas minhas palavras haverá sempre alguém que diga que eu sou maluco. É um tema que deve ser discutido mas vamos encontrar realidades como a Inglaterra ou a Andorra que já não estão neste modelo, muito menos estarão no outro. A Alemanha e a França tenho dúvidas que tenham capacidade para participar numa competição assim.

Estamos aqui entrincheirados e, quando pensamos que o mais importante é defender o hóquei, o óptimo é o inimigo do bom, mas é o possível e é com isso que temos de trabalhar. Não vamos arranjar forma de dizer que perdemos um campeonato da Europa por esta ou aquela situação. Tem de ser diferente.

HPT: Falou da fadiga emocional. Sentiu alguma apatia da parte dos atletas que chegaram ao Luso sem um título?

LS: Não sei. Os momentos são marcantes e há uma coisa que é importante fazermos: respeitar a individualização de cada atleta e respeitar aquilo que foi o seu processo ao longo da época desportiva e aquilo que ele vai encontrar na Selecção Nacional. A minha preocupação foi criar condições ao grupo todo para se sentir bem dentro da Selecção, de os canalizar para o objectivo que era, no meu entender, exequível e possível e dar-lhes tudo o que era importante para o conseguirem.

Acho que não posso entrar na individualidade deles em coisas que não estão no meu campo de acção. Estive atento aos sinais e isso foi identificado e trabalhado. Não foram por acaso as folgas que demos ao longo dos microciclos. Não é treinando muito que se resolve esse tipo de problemas, mas sim parando.

No Luso fizemos um trabalho de qualidade e hoje podem dizer que não fizemos jogos de qualidade. Mas onde estavam os de qualidade? Não tínhamos alternativa. E apostámos na evolução ao longo do decorrer do campeonato. Estivemos melhor no segundo dia do que no primeiro e assim sucessivamente.

HPT: Em Alcobendas, quais foram os maiores problemas que encontrou?

LS: Não vou falar do nível organizativo porque temos de nos adaptar. E isso não foi um problema que nos perturbasse mas o nosso balneário ficava muito longe do espaço de jogo. Geríamos isso mas tenho de dizer que Portugal organiza muito melhor. Portugal tem muito mais disponibilidade e é mais sociável nas suas organizações do que esta que eu encontrei. Mas também não foi isso que teve influência no resultado desportivo. Os portugueses têm de se orgulhar daquilo que fazemos bem e organizar campeonatos é uma coisa que fazemos bem a nível internacional.

A questão de Alcobendas resume-se ao jogo de Itália. Os jogadores, com um nível exibicional mais forte ou menos forte, mais capaz ou menos capaz, foram dando aquilo que podiam em relação ao momento da época.

Nós fomos subindo gradualmente o nível de qualidade de equipa, fomos fazendo o nosso caminho do ponto de vista da pista e temos apenas e só, face à competição, face ao número reduzido de jogos que a competição impunha e face à variável de que não podemos falhar, de assumir que foi o jogo de Itália que, em dois momentos, marca o destino de Portugal. Foi o termos sofrido dois golos em superioridade numérica quando estávamos a dominar o jogo e tínhamos acabado de marcar e faltavam cerca de dois minutos para o final da primeira parte e ninguém pensaria que Portugal ia ser submetido àquela situação anormal, e depois a questão das bolas paradas. São seis bolas paradas àquele nível que fazem uma mossa brutal. Se tivéssemos marcado pelo menos duas, nem sequer este momento de que eu falei da superioridade numérica estava em causa, nem sequer muito daquilo que se tem falado era trazido à praça pública e Portugal tinha trazido o título.

O jogo de Itália, em dois momentos, marca o destino de Portugal.

HPT: Sobre as bolas paradas, os marcadores estavam pré-definidos?

LS: Não. Fizemos um trabalho muito intenso nessa área e optámos por um trabalho competitivo entre dois grupos ao longo de todo o microciclo e todos os dias fazíamos esse trabalho específico. Todos eles estavam preparados para marcar, todos os que foram marcar são especialistas nos seus clubes e manifestaram, durante todo o processo de treino, as suas competências.

HPT: Houve factores externos ao jogo que, de certa forma, afectaram o grupo?

LS: Eu confesso que me blindei porque já aprendi e nem li comentários, nem li jornais, nem procurei os meios informáticos para saber o que se passava, porque acho que é uma forma de condicionamento a que somos sujeitos e não há necessidade de o fazer. Usei apenas a internet para falar com a minha família como é normal. Mas, socialmente, a forma como olhamos para a Selecção Nacional já é condicionante à partida. Antes da Selecção jogar já está condicionada, quer seja pelo peso histórico, pelo número de campeonatos perdidos, pela critica à convocatória, pela assunção de que o jogador A ou B renderia mais na Selecção, e tudo isto potencializa o peso da não vitória ao longo destes anos todos. Isso acaba por criar um handicap aos jogadores e à execução das suas competências.

HPT: Acredito que já tenha visto agora os comentários. O que lhe pareceram?

LS: Dentro daquilo que é o hábito das pessoas do hóquei. De algumas pessoas temos de reter os comentários. São construtivos, são idóneos, são comentários com sapiência, que sabem e ajudam-nos a todos a reflectir e a encontrar o caminho correcto, porque todos nós queremos o êxito e o sucesso. Outros comentários são dentro da toada da perturbação, de ruído, de conflito e muitas vezes não sustentados naquilo que é o hóquei actual, nas actuais regras, naquilo que é o hóquei do momento.

HPT: Teremos sempre de falar dos comentários, que já mereceram muitas críticas, de António Ramalhete nas transmissões televisivas. Aqueles comentários não terão subjacente uma questão pessoal?

LS: Não. Claramente que não, mas se têm terá de perguntar ao senhor que comentou os jogos. Eu não entendo assim mas, muito honestamente, quero distinguir claramente o jogador histórico da nossa modalidade, o qual eu respeito e reconheço e a quem agradeço o contributo e tudo o que fez em prol do hóquei em patins e tudo o que nos deu para que nós, efectivamente, sejamos hoje uma potência.

E agora quero falar do comentador. Nós e a nossa comunicação somos produto da nossa intelectualidade e do nosso carácter. Aquilo que se passou, no meu entender, tem muito a ver... Vou usar a linguagem do “rating”, da cotação económica que agora está muito em voga em Portugal e de que vamos sofrendo as consequências: aquilo que se passou, no meu entender e usando esta linguagem, foi lixo.

Vou usar a linguagem do "rating" (...) Aquilo que se passou foi lixo.

, sobre os comentários de António Ramalhete nas transmissões televisivas.

HPT: Arrependeu-se de ter chamado alguém?

LS: Não. Seria extremamente injusto, depois dos jogos, estar a dizer que mudava a convocatória ou que estava arrependido de ter feito esta concepção de suporte daquilo que era o nosso modelo. Que fique claro, a convocatória foi alargada a quinze jogadores. Dentro desse lote existem jogadores de enorme potencial e de enorme futuro, que estão lá, que estão dentro da máquina digamos assim. A aposta foi clara. Havia um trabalho feito, havia uma mudança de seis jogadores novos feita para o Mundial e eu acreditei e apostei naquilo que tinha sido feito já nesse trajecto, naquilo que tinha sido desenhado e compreendido no modelo de jogo e apostei em dar continuação e aplicar neste Europeu. Tentei jogar com esta concepção lógica e o jogo da Espanha vem comprovar que estávamos no caminho certo. Mas o desporto é mesmo assim: há um momento que se torna dramático, que se chama Itália.

HPT: Sentiu falta de alguma característica de algum jogador que tenha identificado mas que não tenha feito parte do lote final?

LS: Nós quando partimos para estas competições acreditamos no modelo de jogo, no colectivo e naquela identidade que vamos construindo. Esta é uma construção que vem de Angola. Um grupo de trabalho identificado, que não é fechado - porque não pode ser fechado - e que vai evoluindo naturalmente. Dizer que houve falta desta ou daquela característica é estar a reproduzir uma concepção incorrecta. Estamos a lavrar sobre dados adquiridos e o que todos temos de fazer é um levantamento exaustivo e uma aprendizagem daquilo que se passou: seis bolas paradas e dois golos em superioridade numérica. E são momentos tão aleatórios que dificilmente vão reproduzir-se em qualquer outro jogo, em qualquer circunstância.

Temos de ser mais eficazes na concretização e mais rigorosos na aplicação do modelo defensivo, que o temos, quando estamos em superioridade numérica. Não fomos ao Europeu para aprender, fomos para ganhar. O treinador é um projecto inacabado, vive das vitórias e das derrotas, e um treinador de excelência é que aquele que vence mais do que perde e é esse caminho que eu tento trilhar. Eu quero continuar a ser um treinador que ganha mais do que o que perde e para isso tenho de reflectir e continuar a questionar onde falhei. E, em primeira instância, falhei eu enquanto líder daquele grupo.

HPT: Que Portugal vamos ter em Montreux? Esta Selecção consolidada ou uma Selecção renovada?

LS: É demasiado cedo para falarmos em Montreux mas percebo que essa questão seja colocada porque é já o próximo momento e vamos todos estar à espera para ver se há mutação ou não na Selecção.

Portugal vai ter de usar este Montreux para dar tempo e espaço a alguns jogadores mais jovens. Vamos esperar pelos sinais do campeonato e depois vemos o que fazer em Montreux.

HPT: Concorda que é preciso aproximar os adeptos da Selecção Nacional?

LS: Isso é sempre benéfico. Mas pessoalmente não senti isso porque tivemos diariamente gente no Luso, a ver treinos, a ver jogos. E sempre em contacto com os jogadores, com fotografias e autógrafos. Recebemos cerca de 100 crianças em dois blocos diferentes das férias do hóquei da Mealhada.

HPT: Mas há pessoas que não estão dentro da modalidade e só vêem as grandes competições da Selecção…

LS: Mas aí já temos que canalizar para um projecto fundamental, que é o projecto da comunicação da própria estrutura. Penso que tem de haver uma reflexão sobre isso. Já há algumas ideias mas é preciso passar à prática porque, em primeira instância, os mais prejudicados são quem está dentro da estrutura e que trabalha: os jogadores que vão às competições, as equipas técnicas, a coordenação. Há bom trabalho, seriamente sustentado para o futuro que precisa de ser divulgado, e que não passa. Depois ficamos à mercê de um resultado positivo ou negativo da Selecção, ainda que eu reconheça que é o motor de todo este trabalho.

É uma área em que posso opinar mas não sinto que esta Selecção e a do Mundial tenha sido bloqueada ao público. A estrutura federativa tem necessidade de ter uma comunicação eficaz, já não falo eficiente. Eficaz para ter resultados, para que se possa valorizar o trabalho feito e para que algumas críticas se esbatam imediatamente por não terem poder. Assim estamos um bocadinho à mercê do tal carácter de cada um de nós.

HPT: Tem saudades do Benfica? De trabalhar em rinque todos os dias?

LS: (risos) Não. O projecto Benfica está acabado e arrumado para mim. Eu aprendi uma coisa no clube muito importante: as pessoas passam e o clube fica. E eu passei. Acabou. Vivo das minhas memórias íntimas e da satisfação do trabalho realizado mas, para mim, um treinador é um projecto inacabado e eu não quero ficar por aqui.

Se tivesse muita saudade era sinal de que estava adaptado e que tinha parado o meu projecto de trabalho e isso não acontece. Estou noutro caminho e satisfaz-me. É um caminho muito amplo, sou solicitado em muitas frentes de trabalho e isso é bom para mim porque estou permanentemente activo e vou-me mantendo em desafios diários de excelência. É bom sinal. Mas sinto claramente a falta do trabalho diário na pista. É ali que me transcendo, é ali que me sinto bem e que vivo a minha maior paixão na vida - junto com a minha família - que é o hóquei em patins.

HPT: Neste defeso foi muitas vezes associado ao Sporting…

LS: Está nos meus planos continuar a treinar e se não for na Selecção Nacional, tem obrigatoriamente de ser num clube, em Portugal ou no estrangeiro. Enquanto tiver consciência de exigência e da premissa de que o treinador é um projecto inacabado, continuarei a ter vontade de continuar a trabalhar e a treinar. Estou naquela fase da vida em que não sou muito novo, mas também não sou muito velho. Estou em equilíbrio e isso dá-me maturidade para poder dizer isso. Quero continuar a trabalhar e é na pista que me sinto bem.

HPT: Sente-se aliciado pelos campeonatos estrangeiros?

LS: Já podia ter saído de Portugal e não o fiz por várias razões. Se um dia o fizer terá de ser no momento certo da minha vida e não porque me dão mais dinheiro. O momento certo terá de ser acoplado a uma coisa fundamental para mim, que é a minha família, e neste momento precisam de mim perto. Podendo sofrer perto, não vou sofrer fora.

Mas claro, há também a vontade de experienciar coisas novas face a modelos novos.

HPT: Tem noção de que é um treinador-referência?

LS: Não. Sou alvo muitas vezes de muita crítica e isso não me deixa perceber se sou ou não sou um treinador-referência. Mas, se calhar, nos dias de hoje vejo que muitas dessas críticas devem-se efectivamente ao facto de poder ser visto como alguém que vai trabalhando sempre com seriedade. E a falhar e a acertar como todos os outros. A nossa vida são umas poucas derrotas e umas muitas vitórias. E essa é a vida do treinador.

HPT: Mas, hoje em dia, é o Luís Sénica que define a bitola?

Só a minha. O meu caminho faço eu.

Não, não tenho essa percepção. Muito honestamente. Não é falsa humildade. Não tenho essa percepção. Sinto que tenho um espaço de respeito maior do que tinha há uns anos atrás. Isso sinto. Por força do trabalho, por força também daquilo que se foi fazendo. Sinto isso. Agora, também vos digo que os indicadores de projecção daquilo que são, eventualmente, as minhas competências ou aquilo que eu vou produzindo para o hóquei - que é muito mais do que o trabalho no terreno - vem de fora, vem do estrangeiro.

Luís Sénica, para além de Seleccionador Nacional, é o Director Técnico Nacional para o Hóquei em Patins. Em Agosto, são os Sub-17 que disputam o Europeu (em Gujan-Mestras, França) e em Outubro é a vez dos Sub-20 (em Valongo).

HPT: Quais as expectativas para os Europeus de Sub-17 e Sub-20?

LS: São muito positivas. Portugal tem esses títulos em mão e acho que há toda a possibilidade de os manter. Temos duas boas selecções, estamos a fazer um bom trabalho na área da formação e acho que vai resultar. Vamos acreditar que em França e em Portugal vamos manter os títulos. É isso que queremos, é isso que desejamos, e acredito plenamente que é isso que vai acontecer.

HPT: Tem posto muito de si no projecto do mini-hóquei (Mini-HP). Em que ponto está o projecto?

LS: O Mini-HP… Eu ponho muito de mim em tudo aquilo que faço e em que acredito. Não há aqui nenhuma excepção em relação ao Mini-HP. Mas acredito que o Mini-HP pode ser um momento formativo importante, uma forma de massificação e um jogo pedagógico adequado para fixar os jovens, para desenvolver.

A nível da Europa está bem, já chegou às federações europeias todas. Estamos neste momento a fazer a projecção e a divulgação com momentos visíveis, como foi o caso de Alcobendas, onde fomos à pista também e onde o projecto foi apresentado no seminário. Vamos fazê-lo também em França no Europeu de Sub-17 e estamos a ter receptividade de outros países, que nos pedem para organizarmos algumas situações pontuais.

Acredito que este é um processo irreversível porque ele é tão forte pedagogicamente e é tão atractivo para o desenvolvimento dos nossos jovens praticantes que vai vingar e vai ajudar-nos a projectar futuro. Agora, não é para substituir nada do hóquei em patins, é para ser um caminho, uma metodologia que ajuda a consolidar o próprio jogo do hóquei. Não há aqui um Mini-HP contra o jogo formal do hóquei. Não há. Há um momento pedagógico, há um enquadramento e há um caminho. E é um caminho que acreditamos, e cientificamente está comprovado, que tem validade para os nossos jovens praticantes.

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