Entrevista

Ricardo Leão, árbitro do ano

Aug 23, 2014

A época de 2013/14 consagrou o Valongo como um campeão inédito e Luís Viana como o melhor marcador da I Divisão. Mas os jogos vão para além das equipas e dos jogadores. A maior responsabilidade dentro da pista recai sobre a equipa de arbitragem e também para esses houve reconhecimento.

No quadro A desde 2008/09, Ricardo Leão foi distinguido com o galardão de árbitro do ano, depois de na época da "subida" ter recebido o galardão no quadro B.

O HóqueiPT esteve à conversa com o árbitro galardoado em véspera da partida do árbitro para o Europeu de Sub-17.

HóqueiPT: O que significa para si este galardão?

Ricardo Leão: É o culminar de uma época de trabalho árduo. Ser reconhecido pelo trabalho realizado é sempre bom. O que um árbitro tenta fazer em pista é cumprir as regras, fazer cumprir sendo totalmente imparcial e que toda a gente goste do nosso trabalho.

Ricardo Leão foi distinguido no quadro A, o principal. Cláudia Rego venceu o galardão no quadro B.

HPT: Como entrou na arbitragem?

RL: Fui para a arbitragem porque sempre gostei de hóquei em patins. Nunca joguei. Patinei um pouco mas o meu pai era doido por futebol e eu nunca joguei.

O meu filho andava na natação e eu gostava que praticasse outro desporto para o manter entretido. Moro em Sintra desde os meus nove anos - sou mais de Sintra do que de outro lado - e havia ali vários clubes. O hóquei era porreiro porque ele gostava, dava-lhe equilíbrio e, já que ele fazia natação dentro de um complexo, ali também era abrigado. Assim, ele não apanhava chuva, nem vento, nem frio, logo não faltava á escola e podia ter bons resultados mesmo praticando desporto.

Na época que se avizinha, os árbitros com estatuto de internacional serão, para além de Ricardo Leão, os seguintes: Florindo Cardoso, Jaime Vieira, Joaquim Pinto, João Paulo Romão, José Pinto, Luís Peixoto, Miguel Guilherme, Paulo Almeida, Paulo Rainha e Rui Torres.

Ele começou a patinar e, quando começou a jogar, apercebi-me que aparece um treinador ou um delegado a apitar uma parte cada um e eu, também pela minha profissão [ndr: Ricardo Leão pertence à Polícia de Segurança Pública], via que não havia imparcialidade nenhuma.

As crianças são inocentes, caem e só se querem levantar e jogar e eu não gostava da maneira como as partidas eram dirigidas.

O Angélico Nunes era presidente dos árbitros de Lisboa e ainda andava a apitar os veteranos. Uma vez foi a Sintra e disseram-me quem ele era. E eu perguntei-lhe como se fazia para tirar o curso. Fui fazer o curso e comecei a minha carreira.

HPT: Era complicado apitar os jogos do seu filho?

RL: Não. Nunca era complicado. Sempre ensinei o meu filho a respeitar os outros e assim também o respeitariam. Só tinha de se preocupar em jogar. Este galardão não é só graças ao meu trabalho, é graças ao trabalho de muita gente. Posso agradecer, antes de mais, ao meu filho, que até agora só me deu alegrias. Mas tenho de agradecer também aos meus colegas árbitros, aos meus colegas policias, aos jornalistas, jogadores, público, treinadores e dirigentes.

O filho de Ricardo Leão, também Ricardo Leão, jogou na temporada passada no Dramático de Cascais, depois de ter representado nos escalões de formação o HC Sintra e o SL Benfica. Na próxima época descalça os patins para abraçar a carreira de treinador, no Sintra.

O jogador, quando se preocupa só em jogar, facilita o trabalho dele e o nosso porque quanto menos apitarmos, menos erramos. E é sinal que há respeito dentro da pista. O meu filho sempre respeitou as pessoas e eu até costumo dizer que as faltas no hóquei dão-se maioritariamente da cintura para baixo e os árbitros não estão a olhar para as caras. Sou daqueles árbitros que anda sempre com o apito na boca e já é natural. Sai. Vê-se uma falta e apita-se. Seja a décima, décima quinta, primeira ou segunda, sai logo. Seja o meu filho, seja quem for, as pessoas tem é de se respeitar umas às outras.

Não me sinto melhor que ninguém. Portugal tem muitos bons valores como atletas mas também sei que tem um lote de árbitros em que qualquer um pode ser primeiro. E posso garantir que nós, portugueses, somos melhores do que os outros todos. Graças a Deus, ando pelo Mundo e pela Europa fora e sei o que se diz da arbitragem em Portugal. Os espanhóis gostam muito de ter la árbitros portugueses porque deixamos jogar até àquele ponto em que não dá mais. E as pessoas gostam, já não insultam o "português" gratuitamente. Quando chegamos lá fora somos bem recebidos e bem tratados porque gostam do nosso trabalho.

Cá somos um pais muito latino. Vive-se o hóquei em patins. Haverá sempre um individuo que pensa que é mais conhecedor das regras mas é menos. Mas tem mais amor àquela camisola e trata-nos de maneira "diferente". Costumo dizer que os árbitros são como as mulheres sérias. Não podem ter ouvidos para nada. Andamos ali na pista, temos apenas de nos concentrar ao máximo no nosso trabalho.

HPT: Como é ser sempre o mau da fita?

RL: Primeiro, não me considero o mau da fita, nunca me considerei.

Há "doidos varridos" em todo o lado que gostam de puxar pela camisola deles mas não conseguem distinguir os jogadores. Hoje em dia, na maioria das vezes, ganha-se um jogo, tal como no futebol, nas bolas paradas e as pessoas não podem falhar. Quando os jogadores falham um penalti é "ahh, foi quase mas não foi, está tudo bem, da próxima faz melhor". Com um arbitro já não é assim. Um árbitro tem uma tarefa mais difícil, tem de decidir ao segundo, tem de decidir de um lado e de outro e, às vezes, não conseguimos que as coisas corram da melhor maneira e há pessoas que não compreendem isso.

Não sinto que as pessoas me vejam assim. Falo por mim. Entro em pista para dar o meu melhor, para eu e o meu colega sermos os melhores em pista e chegarmos ao fim do jogo e , como acontece muitas vezes, a equipa que perde vir dar-nos os parabéns pela arbitragem porque perderam mas não nos atribuem a culpa. E é por isso que eu luto sempre. Por chegar ao final do jogo e que ambas as equipas fiquem contentes. A que ganhou fica feliz da vida, claro. Mas quero é chegar ao final, respirar fundo, e agrada-me muito as pessoas dizerem "perdemos, mas não tem problema nenhum, podíamos ter ganho, a culpa é nossa, vocês conseguiram passar despercebidos".

Acho que quanto menos se fale de um árbitro, melhor. Não estou ali para ser o protagonista. Infelizmente já faleceu, mas sempre fui amigo do senhor Raio e ele sempre disse e eu concordava: "os artistas são os que fazem habilidades na ponta do stick e que usam patins". Se um árbitro conseguir chegar ao fim do jogo, ao fim de um campeonato, dos anos que cá andar, e conseguir passar despercebido, está muito bem. Porque não deu nas vistas nem pelo bem, nem pelo mal. Passou ao lado.

Um guarda-redes é bom quando defende tudo. Um jogador de pista é bom quando marca tudo ou dá golos a marcar ou defende bem. O que se pretende é que haja fair-play, que haja respeito entre os jogadores e que o árbitro consiga passar despercebido. E isto só se consegue, não quando há um mau da fita (árbitro ou jogadores), mas quando existe um respeito mútuo em que o jogador sabe que o árbitro está ali para dar o seu melhor.

Continuo a dizer que cabe muito, muito, muito aos jogadores o facilitar das coisas. Ás vezes andam uma série de jogos em que só procuram problemas. Não sei se é o jogo, se é a cabeça, se é o arbitro em si, não sei. Mas acho que não tenho inimigos. As pessoas gostam de me ver apitar e quando entro em pista sabem que sou capaz de fazer um bom trabalho. Só espero não desiludir essas pessoas. Espero estar sempre no meu melhor e continuo a dizer que, é bom ser reconhecido, mas quando me reconhecem estão a reconhecer o trabalho de muita gente, incluindo o público que vai às pistas. O hóquei precisa é de ter mais visibilidade. Deu tantas vitórias a Portugal e tem de se conseguir que o hóquei vá parar outra vez à televisão pública, como quando ao fim-de-semana havia jogos das modalidades todas ao longo da tarde.

HPT: Qual a partida que sonha apitar?

RL: É difícil de responder. Não posso, por exemplo, apitar um jogo entre Portugal e Espanha. Como árbitro internacional estive na Colômbia no Mundial de Sub-20. Fiquei muito feliz por não apitar a final porque me orgulho muito de ser português e a seleção estava a disputar o primeiro lugar.

Ricardo Leão estará em Gujan Mestras para o Europeu de Sub-17. A representar a arbitragem nacional estará também Paulo Almeida, de Aveiro.

Como qualquer árbitro, gosto de apitar finais mas, para mim, qualquer jogo é um bom jogo. Não faço distinção. Há sempre em pista duas equipas que respeito. Há equipas que gastam muito dinheiro mas há outras que gastam do seu tempo por amor à camisola e não podemos chegar ali e estar a beneficiar uns ou outros, nem estar a ver o filme de maneira diferente. Eles trabalham durante uma semana, um mês, uma época, para atingir um objetivo e não somos ninguém para chegar ali e destruir as ambições dos clubes. Os clubes empenham-se, gastam dinheiro. É chegar ali e dar o nosso melhor. As equipas têm as suas diferenças mas já vimos que qualquer um quer jogar bem contra um Porto, ou Benfica, ou qualquer outra equipa.

Qualquer partida para mim é uma grande partida. Ás vezes, jogos de infantis são jogos mais bem disputados, mais renhidos, do que um jogo de seniores. Um jogo de seniores tem sempre a componente tática muito vincada. Ás vezes os seniores só jogam no erro do adversário e o jogo torna-se monótono. Para nós até é mais fácil mas os espectadores querem é ver espetáculo.

Qualquer jogo é especial. É esperar que corra bem, que se consiga respirar, que haja discernimento e que toda a gente fique contente. E, fundamentalmente, que se passe despercebido.

HPT: E qual o pavilhão em que gosta mais de apitar?

RL: Qualquer pavilhão com muito público é muito bom para a modalidade e é muito bom para nós. Gosto de apitar com muito público. A mim não me fazem diferença as claques ou o público a gritar mesmo junto aos ouvidos. Valongo dizem que é o San Siro português. Eu vou lá e não tenho problemas. Em Turquel, o árbitro 1 também se desloca junto à tabela e, entre uma boca ou outra, às vezes até nos convidam para ir beber um copo no fim. Vamos ouvindo aquelas bocas e vamos rindo e temos de saber estar. Não se pode é perder a concentração, porque temos de estar concentrados e mais nada.

Qualquer pavilhão com muito público oferece um espetáculo bonito. Mas é complicado uma família, digamos de quatro pessoas, ir ao hóquei em patins. Pelo valor mínimo, são vinte euros. Dá para ir jantar a qualquer lado e já não vão ao hóquei. A crise não está só no hóquei, está em todo o lado. Por exemplo, um jogo entre Benfica e Porto com bilhetes a sete ou oito euros é mau. Se baixarem os preços, têm mais gente. É tudo uma questão de marketing.

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