A opinião de Carlos Dantas

Falta de ambição, falta de jogadores

Sep 21, 2014
Carlos Dantas

Carlos Dantas aborda o problema da falta de novos jogadores de qualidade nas equipas da I Divisão. Da falta de ambição à falta de dedicação...

Há uma grande falha formativa. E depois há outra coisa, que estou farto de comentar. Há uma falta de ambição dos jogadores juniores para competir com jogadores de I Divisão. Vou dar um exemplo. O Paço de Arcos tinha seis jogadores que acabavam a sua formação de juniores. E eu propus a todos continuarem no Paço de Arcos e fazerem o papel de seniores e, ao mesmo tempo, criava uma segunda equipa para fazer a III Divisão ou para competir ao nível da Associação de Patinagem de Lisboa. Nenhum quis ficar. E vou explicar porquê, é fácil.

A Federação lançou o ano passado uma campanha de transferências em que um jogador iniciado para se transferir paga 24 euros, um juvenil - a categoria acima - paga 10 vezes mais, um júnior paga 340. Até aqui tudo certo. O problema é que nos três primeiros anos de sénior custa zero. O que é que acontece? Os miúdos formam-se no Paço de Arcos ou noutro clube qualquer e têm a oportunidade de sair a custo zero. Como sabem que no Paço de Arcos, embora não tenha uma grande equipa de seniores, terão alguma dificuldade em encaixarem-se, preferem ir jogar para a III Divisão. Este documento está a favorecer que os jogadores dos juniores vão para as equipas de II e III Divisão. Diga-me um que tenha entrado nas equipas de I Divisão.

Os próprios jogadores que o Paço de Arcos adquiriu por empréstimo ao Benfica tinham pouco espaço na equipa principal. Jogadores que foram campeões do Mundo de sub-20 vão jogar para a II divisão? Por amor de Deus... estamos a andar com isto ao contrário. Tomaram a melhor opção, fosse o Paço de Arcos ou outro clube qualquer da I Divisão. E o Benfica colaborou imensamente com eles. Agora, os do Paço de Arcos que podiam ter acesso aqui, podiam querer lutar... nada.

As transferências estão bem vistas para dar abertura aos miúdos que vêm dos juniores para a I Divisão mas como eles não têm ambição para jogar, vão para a III ou para a II e depois nunca mais cá vão voltar. Uma coisa é ter um clube de formação que lhes dá continuamente formação, até nos seniores. Outra coisa é ir para uma III Divisão. Não estou a dizer que não se dá formação na III, mas o estímulo é diferente. E eles preferem ir lá do que ficar aqui. Se eles ficassem aqui, o Paço de Arcos até nem recorria ao empréstimo dos jogadores do Benfica.

Não direi que tinha jogadores iguais aos do Benfica mas havia uma janela de oportunidade. O Paço de Arcos formava uma equipa como tentou formar, com jogadores com mais experiência - cinco ou seis - e depois entravam os ex-juniores, que se iam esmifrar a ver quem é que entrava.

Já o ano passado entrava o André Ferreira e entrava também - não tanto - o André Gaspar. Ao Gaspar, que ainda vai ser júnior, propus que fosse só sénior. E ele fugiu daqui para o Sporting. O sonho de menino pode custar-lhe muito caro daqui para o futuro. Deus queira que não, que eu gosto muito dele, mas acho que estava na altura de dar o salto. E onde é que pode dar o salto? Em Paço de Arcos. Não no Sporting, que arranjou uma equipa muito competitiva.

Quando olho para isto, olho para a floresta. Não olho cá para a árvore, se é um pinheiro ou um abeto... E se calhar é aqui a grande dificuldade que eu tenho. A maior parte das pessoas estão convencidas que eu venho aqui fazer alguma coisa a pensar em mim... Não. O que eu tinha de pensar em mim, já pensei. O que tinha de fazer, já fiz. Já não preciso de provar nada a ninguém. E quando olho, olho para o colectivo. Os pais olham para o seu rebento e muitas vezes prejudicam-no.

Os treinadores

Mas até os treinadores são iguais. Eu digo-lhes que faço blocos de hora e meia e que temos de dividir isto irmãmente. Se mandar um treinador fazer o horário semanal, o treinador vai olhar para a sua equipa e dizer que lhe dá mais jeito das 7h às 8h30. Aí está a resolver o problema dele mas como temos dez equipas...

Temos seis horas por dia para ocupar. Trinta horas semanais. Temos de ocupar o sábado e domingo também... Há miúdos que têm treino sábado e domingo, mas quem jogar ao domingo treina ao sábado e vice-versa. Para que, chegando ao fim da semana, haja quatro horas e meia para cada equipa, com os seniores, naturalmente, a terem um bocadinho mais. Mas a ideia é agregar. Se cada um puxar a brasa à sua sardinha, há uns que ficam muito bem e outros muito mal. E os pais têm de perceber e colaborar.

É como nos tempos de jogo. Até aos 10 anos há quatro períodos para os miúdos jogarem. Se tiverem 10 jogadores, cada miúdo tem de jogar dois tempos. A partir daí é natural que haja uma diferençazinha de escolher os melhores mas, se só escolhemos os melhores e os melhores no ano seguinte dão tanto nas vistas que o Benfica e o Sporting vêm cá buscar os miúdos infantis, ficamos sem ninguém. Por isso temos de dar tempo a todos. Para quando nos levarem dois ou três, ficarmos com alguns de alguma qualidade. Se começamos logo nos pequeninos a dizer "não, aquele é que é jeitoso", quando cá vierem buscar aquele, os outros são uns miseráveis. Andam sempre "mal vestidos".

O que eu gostava era que eu dissesse "temos aqui uma hora" e alguém quisesse vir treinar. Os treinadores de hóquei não querem. Sabe quem vem? A patinagem artística. Temos de aprender com eles. Os da patinagem artística são muito mais dedicados. No Benfica tinha a Judite e todos os dias ela me roubava dois ou três minutos porque quando eu chegava ao treino ela dizia, a mim ou ao Mário Palma [ndr: treinador de basquetebol], "Oh Dantas, desculpe estou a ensaiar o último número" e roubava ali cinco minutos quando ela já tinha 50 horas antes! Lá punha a música e nós ficávamos ali a gramar cinco minutos. E é o que eu não vejo nos treinadores de hóquei. Terminam à hora e estão muitas vezes a olhar para o relógio.

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