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«Deixo bem melhor e deixo caminho aberto»

Mar 14, 2019

Paulo Rodrigues foi o “homem forte” do Hóquei em Patins nacional ao longo de mais de 10 anos. Tendo assumido a vice-presidência com o pelouro da modalidade na Federação de Patinagem de Portugal a 15 de Novembro de 2008, Paulo Rodrigues saiu em Dezembro último, na Assembleia-Geral que culminou com a eleição de Luís Sénica para a presidência da Direcção, sucedendo a Fernando Claro.

Dois meses após a sua saída, o ex-vice-presidente para o Hóquei em Patins concedeu uma entrevista ao HóqueiPT em que abordou, sem receio e sem se esquivar, uma miríade de temas.

Num olhar sobre os seus mandatos, Paulo Rodrigues não esconde um certo desconforto… com uma vida que passou a ser tão tranquila. “Um ritmo daqueles durante 10 anos tinha de deixar marca”, conta-nos, sobre uma azáfama quase permanente.

Entre as melhores recordações, Paulo Rodrigues não hesita em apontar as “pessoas”, com “que me deixaram uma marca muito forte pela sua maneira e pela sua postura”. E não se detém na hora de deixar um destaque especial. “Aquele que mais me surpreendeu - e é um verdadeiro cavalheiro - foi o Franklim Pais”, revela. “É um dirigente à parte”, reforça.

O ex-dirigente federativo não tem dúvidas sobre o trabalho feito. “Deixo bem melhor e deixo caminho aberto”, frisa. “O que importa é ver o Hóquei em Patins bem, e esse é um legado”, releva, apontando um trabalho de apaziguação do clima reinante. “Havia uma crispação e tenho a certeza que saí deixando um ambiente mais desanuviado entre a FPP e os clubes de Hóquei em Patins”, garante, não negando que ainda ficou muito por fazer. “Em comparação com outras federações como a de andebol e do basquetebol, a FPP está cerca de 10 anos atrasada”, reconhece.

Recordando alguns maus momentos, Paulo Rodrigues destaca a ausência do Benfica da Final Four da Taça de Portugal em 2017, num momento em que lhe faltou acompanhamento dos pares…

«O Hóquei está na moda»

Apesar do peso histórico e cultural, o Hóquei em Patins é apenas uma das disciplinas de uma federação que abrange outras disciplinas. Mas Paulo Rodrigues defende a sua dama. “O Hóquei em Patins é o motor daquela casa”, afirma.

A pluridisciplinaridade e a convivência com outras disciplinas será um dos desafios da nova direcção, mas para Paulo Rodrigues o maior desafio será outro. “O grande desafio desta direcção é manter uma relação estável e franca com os clubes. É mais fácil a FPP atingir os seus objectivos com os clubes ao seu lado”, aponta.

No centro de outro debate, estará o modelo competitivo. E Paulo é frontal. “Os clubes souberam qual era a minha posição pessoal. Sou adepto do sorteio condicionado”, conta-nos, tendo a principal prova nacional, durante os seus mandatos, sido sempre disputada numa fase única. O condicionamento caiu este ano.

E tal não tira espectacularidade à modalidade. “O Hóquei está na moda”, frisa. “Nós temos Hóquei em Patins de Valença a Portimão, não precisamos do espectáculo do Play-off”, defende, vincando que a TVI24 podia fazer muito mais com os direitos adquiridos.

«As atitudes ficam para quem as toma»

O nome de Paulo Rodrigues foi várias vezes badalado para a sucessão ao anterior presidente. E os rumores tinham o seu fundo de verdade. “Fernando Claro disse-me que seria eu a suceder-lhe”, revela.

Mas tal não se concretizou. “Não aconteceu porque, ao que se dizia, eu tinha muitos anticorpos com os clubes. Esses anticorpos não se confirmaram”, constata, sem esconder alguma mágoa. “As atitudes ficam para quem as toma”, diz em desabafo.

No futuro, Paulo Rodrigues não descarta uma candidatura, muito por uma vida ligada ao associativismo e por sentir que, pelo feedback que lhe vai chegando, a sua missão não terá terminado.

«Estamos num pais com muito pouca cultura desportiva»

Para além do modelo competitivo, há outros temas na baila no quotidiano do Hóquei em Patins. Como a chegada de jogadores estrangeiros, para os quais não há limitação. “Eu, inicialmente, tinha muito receio. Por outro lado, se não fossem estes jogadores, o Campeonato não tinha a visibilidade que tem”, reconhece, sublinhando o valor de quem chega.

“Os jogadores têm trazido mais-valias. Pode ter mais tarde um reflexo nas selecções e há que encontrar aqui um equilíbrio”, alerta, sem que veja na limitação uma solução. “Negar o acesso de jogadores estrangeiros de qualidade é retirar espaço ao campeonato português”, aponta.

Até porque, muitas vezes, essa é mesmo a solução mais viável para os clubes, mesmo ditos “pequenos”. “Os clubes recorreram a jogadores estrangeiros porque os jogadores portugueses, principalmente os mais novos, acham que já são consagrados e pedem este mundo e o outro”, lamenta.

Um campeonato de Sub-23, falado ainda com Paulo Rodrigues na federação, é uma possibilidade para ajudar à maturação dos jogadores nacionais antes da entrada nos seniores, mas o ex-dirigente não tem a certeza que resolva tudo. Como a criação de uma equipa feminina pelo Sporting pode também não aumentar a competitividade, a não ser de se passar a ter dois candidatos em vez de um. “Às vezes, para aparecer uma equipa, desaparece outra”, afirma.

Ainda que haja margem para crescimento no feminino. E no Hóquei em Patins em geral, apesar da implementação do Mini-Hóquei não estar a correr como estava projectado. “Estamos num pais com muito pouca cultura desportiva, e o que importa são os resultados”, nota.

«Se puder contribuir para as pessoas se questionarem...»

Com uma “bagagem” e um conhecimento profundo dos regulamentos e meandros do Hóquei em Patins, a opinião de Paulo Rodrigues é, e será, uma mais-valia em qualquer discussão.

A espaços, ainda durante a sua vice-presidência, ia deixando uma “ameaça”. “Um dia, escrevo também para o HóqueiPT”, gracejava. Mas o HóqueiPT levou a “promessa” a sério e, consumado o afastamento da federação, o convite não tardou, e a opinião de Paulo Rodrigues passará a ter o seu espaço.

Sem pretensões a mudar mentalidades, o ex-vice-presidente quer, pelo menos, motivar o debate. “Tenho a minha opinião, se puder contribuir para as pessoas se questionarem...”, adianta, sem detalhar que temas poderá abordar.

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