Notícia

Um sonho cumprido com «zero arrependimentos»

Dec 02, 2019

Fotos: Federación Sanjuanina de Patín @facebook

Antes de, há uma semana, Jorge Jesus ter sido coroado no futebol como “Rei das Américas”, houve mais alma lusa a abrilhantar outra competição na América do Sul. Entre 13 e 18 de Outubro, Marta Vieira disputou o Pan-Americano na Argentina, em San Juan.

O sonho de chegar à final e lutar pelo ouro acabou nas meias-finais, frente ao Concepción. “Entrámos um bocado mal. Sofremos logo dois golos, e é muito difícil dar a volta a um resultado adverso com uma equipa tão boa, que realmente tem muito nível”, conta Marta ao HóqueiPT. “Sinto que falhámos”, observa. “Demos muita vantagem e, depois, mesmo com todo o nosso esforço, já não conseguimos dar a volta. Infelizmente acabou com um resultado avultado. Não é um resultado que deixe boa imagem”, lamenta.

O Concepción venceria a UVT de “Martinha” por 5-1. O golo seria apontado pela portuguesa, reduzindo ainda na primeira parte para 3-1. “Nesse momento senti esperança na minha equipa e houve momentos do jogo em que conseguimos estar por cima, mas a guarda-redes delas também esteve bem. Depois, chegou a um ponto em que percebemos que não íamos estar na final tão desejada”, recorda.

A Unión Vecinal de Trinidad terminou o pan-americano em quarto, depois de derrotas com as finalistas de 2018: nas “meias”, a UVT perdeu com as futuras campeãs do Concepción (5-1) e, no jogo de atribuição do terceiro lugar, com o Andes Talleres (4-2).

Na definição do terceiro lugar, frente ao Andes Talleres, vice-campeão em 2018, já com outro estado de espírito, as coisas também não correram bem à UVT. “Animicamente houve muitas companheiras que não conseguiram render o mesmo. Eu sinto que deixei tudo em todos os jogos, mas a minha cabeça, a experiência que estava a viver, a minha primeira vez no Pan-Americano fazia-me viver de outra maneira”, aponta. “Estivemos a ganhar, mas não conseguimos manter e escapou-nos a medalha”.

Nesse jogo para o bronzer, a capitã Gimena Ortiz adiantou a UVT, mas a equipa de Julieta Fernandez (ex-Gijón) deu a volta. Marta Vieira ainda reduziu para 3-2, mas o 4-2 final impediu-a de juntar uma medalha à sua colecção. “Fico triste porque, para culminar toda a experiência, todas as recordações, e já que não foi possível chegar à final, a medalha de bronze seria interessante. Mas não foi possível, jogámos também contra um bom rival”, constata.

Nível na Argentina

Na Argentina, e em particular em San Juan, brotam craques que vêm mais tarde a brilhar na Europa, quer no masculino, quer no feminino. No feminino, a realidade é bem diferente do que se passa em Portugal. “Aqui na Argentina, as raparigas não jogam em misto. E têm categorias mini, infantil, cadete, juvenil, júnior e sénior”, conta-nos Martinha. “O nível que encontrei aqui na Argentina é alto. Não é de estranhar que sejam sempre a melhor ou segunda melhor selecção feminina. Não é só a ‘Luchi’ Agudo, têm muitas jogadoras jovens com muito talento e é realmente uma agradável surpresa”, refere, revelando que encontrou uma realidade distinta da que viveu em Portugal e Espanha.

“É uma experiência muito rica e vêem-se coisas muito diferentes. Por exemplo, creio que só duas equipas é que têm pavilhão fechado, o resto tem só tecto, para que não chova. E isto de ter tecto é algo recente, que o Governo pagou. Acho que nem o Concepción tem pavilhão fechado. Mas as pessoas vão ver os jogos, e na maioria paga-se entrada. Algo como um euro, fazendo a conversão, mas para eles é dinheiro”, explica, sem esconder que uma tradição em particular a intrigou: o mate. Uma infusão que está enraizada na cultura argentina.

A Argentina foi vice-campeã do Mundo no feminino nas duas últimas edições do Mundial, em 2017 e 2019, contando com cinco títulos mundiais no seu currículo. O último em 2014.

“É muito engraçado ver toda a gente com o mate na bancada, porque eles bebem isso a toda a hora. Chegam aos jogos com isso, com as suas bolsinhas com o açúcar, o mate, o termo e o copo - não sei se tem algum nome específico - para prepararem e beberem. É um mundo totalmente distinto”, frisa.

Mas há outras “tradições”. “Na maior parte dos clubes, entras e têm piscinas, campos de ténis, hóquei em campo... e uma zona para fazer churrasco. O churrasco aqui é sagrado, sobretudo ao domingo”, sublinha.

Em San Juan, a tradição é o Hóquei em Patins. “Aqui na Argentina é o lugar do Hóquei. Respira-se Hóquei, toda a gente joga Hóquei ou tem algum familiar que jogue", descreve.

Uma experiência inolvidável

“Zero arrependimentos na decisão de viver esta experiência”, confirma a internacional portuguesa. “Foi uma semana que adorei. São semanas que queres, com toda a força do mundo, voltar a viver se tivesses uma máquina do tempo”, graceja.

“Tive a sorte de encontrar grandes companheiras, que me receberam ‘super bem’, que me trataram ‘super bem’ e acabou por ser muito positivo apesar do desfecho da prova, em que, obviamente, o objectivo era outro”, frisa. “Não sei o que se segue, mas, provavelmente, a minha relação com a UVT não termine por aqui, e isso é o bom de poder viver desta maneira o desporto que elegi”, congratula-se, sem regatear agradecimentos. “Tenho de agradecer, sem dúvida, à minha família que nunca me impede de sonhar, que me apoia sempre, e que tem todo o orgulho do mim”, explica.

Desportivamente, Martinha terminou esta experiência sul-americana com a confiança reforçada. “Acho que, mais uma vez, provei o meu valor, e também é muito importante para mim que os feedbacks que tenho sejam positivos. E também que, por exemplo, haja miúdos que gostam da maneira como eu jogo, que mandam mensagens nas redes sociais, porque isso sempre foi um motivo para continuar a trabalhar: que as pessoas te digam coisas que te motivam e que vejas que há gente que gosta do que fazes e dá valor ao que fazes”, confessa.

Marta Vieira esteve nos mundiais de 2012 (Recife), 2016 (Iquique) e 2017 (Nanjing). Em Julho último não foi chamada ao Mundial de Barcelona.

“Comecei a patinar aos dois anos, desde os cinco que jogo, e tenho 23... levo a minha vida inteira em cima dos patins e às vezes quero deixar, mas não sei quem seria sem o Hóquei. E já vivi tanta coisa boa com o Hóquei… Também vivi coisas más, é verdade, e dói e, nesses momentos, penso deixar tudo para trás, mas, a frio, já vivi tanta coisa, já fui a tantos sítios, já conheci tanta gente e estou feliz...”, regozija-se.

“No outro dia, antes de um jogo, dizia que sinto que o mundo me ‘fica pequeno’, mas é bom encontrar gente que me ‘fica grande’, gente tão grande, tão nobre em todos os sítios. É verdade que também há gente má em todos os sítios, mas sou muito afortunada na maneira como posso viver o desporto, em como sou recebida, e , se algum dia tiver filhos e netos a quem contar a história, vou poder-lhes ensinar muito”, assegura.

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