Editorial

A Intercontinental, ou um sonho sobre patins tratado aos pontapés

Jan 09, 2020
Pedro Santos

A entrada em 2020 veio confirmar o que a notícia anterior do adiamento para Fevereiro já pressupunha: a Intercontinental está – mais uma vez – à margem da lei que a própria se impõe.

Entretanto a prova foi “atribuída” a Portugal, desconhecendo-se oficialmente os moldes dessa “atribuição” e de que organismo assumiu esse compromisso. Ainda sem sede definida e sem certeza de realização – da Argentina chegam ecos de que estará “suspensa” e até de que poderá voltar a ter lugar no país das pampas – a Taça Intercontinental tarda em receber o tratamento e o protagonismo que merece e a idílica edição de 2018 poderá ter sido uma mera excepção. A Intercontinental é a única prova de clubes a nível mundial, o único evento anual de Hóquei em Patins regido pela World Skate (o Campeonato do Mundo é de dois em dois anos), e nem assim é preparado em conformidade.

"Damn, World Skate, you only had one job".

Depois de uma polémica edição em 2016, em que o organismo mundial (FIRS) e o europeu (CERS) não se entenderam quanto à oficialização da prova – seria conquistada pelo Vic, frente ao Huracan – a prova regressou em 2017, já com outra pompa. Em Dezembro desse ano, estiveram presentes em Reus os finalistas da Liga Europeia (Reus e Benfica) e os finalistas do Sul-Americano (Concepción e Andes Talleres) numa primeira decisão em modelo de Final Four que almejava impor-se.

Em 2018, o evento teve o “glamour” que se lhe preconiza, na Meca argentina de San Juan. Num dos melhores eventos de Hóquei em Patins de que há memória, a prova teve pela primeira vez discussão no masculino e feminino e obedecia a um novo regulamento. Mas teve participantes de recurso em virtude dos campeões de África e Ásia não se poderem apresentar. Disputaram os títulos os finalistas europeus e sul-americanos, com Porto, Barcelona, Concepción e Leonardo Murialdo no masculino e Benfica, Gijón, Concepción e Andes Talleres no feminino.

No sentido de ir de encontro ao magnífico momento de propaganda que foi a Intercontinental no Aldo Cantoni, novas regras foram estipuladas para entrarem em vigor a 1 de Maio de 2019… mas essas regras estão já quebradas na primeira edição em que deveriam ser aplicadas.

Violação do calendário

O novo regulamento servia para pôr ordem num evento que tinha tudo para dar certo. Mas não deu. Seguindo o modelo de San Juan, foram definidas regras de acesso e timings. Mas ter-se-á confiado que San Juan voltaria a receber a prova e, entre outros inúmeros compromissos e apostados na preparação dos World Skate Games de 2021, o governo regional abdicou fundamentadamente da Intercontinental. Alguém tinha de se chegar à frente para satisfazer os caprichos organizativos e as exigências financeiras da prova e não surgiu ninguém…

O regulamento vinca que a Intercontinental tem de ser organizada em Dezembro do ano a que diz respeito, sendo mesmo apontado o fim-de-semana – o segundo – do mês que deve ser calendarizado, e tal já foi ultrapassado. E recorde-se que a violação do calendário foi um dos motivos apontados pelo comité europeu para “impugnar” a edição de 2016. Ainda que, depois, esse mesmo comité viesse a violar em 2018 o calendário regulamentar da Continental por si regida…

O novo regulamento prevê a participação de seis equipas no masculino, com os campeões e vice-campeões europeu e pan-americano, e os campeões de África e Ásia/Oceânia. Não havendo provas em África e Ásia/Oceânia, já ficou estipulado regulamentarmente que a Intercontinental masculina seja disputada por quatro equipas - tal como está previsto para o feminino - apenas com os finalistas das provas máximas da Europa e da Pan-América.

A participação dos campeões é apontada como “obrigatória” - ficando os faltosos ao abrigo do órgão disciplinar da World Skate – e para a edição de 2019 perfilavam-se, pelo mérito desportivo, as equipas portuguesas de Sporting e Porto e as argentinas de Leonardo Murialdo e Centro Valenciano na competição masculina e as catalãs de Voltregà e Palau e argentinas de Concepción e Unión no feminino.

Equipas Sul Americanas “fora do prazo”

No capítulo dos prazos, não é só no timing definido para a prova que a Intercontinental entra na ilegalidade.

Numa demonstração de (falta de) “pulso” da World Skate, não se contesta a presença das equipas sul-americanas – ou a prova deixaria totalmente de fazer sentido -, mas o que é facto é que as mesmas não cumpriram os requisitos estipulados.

O regulamento da Taça Intercontinental prevê que as competições continentais se realizem até 1 de Outubro, mas – depois da Liga Europeia ter tido lugar em Maio - o Pan-Americano de clubes só terminaria a 19 de Outubro, sendo iniciado uma semana antes.

Inclusivamente, até 15 de Outubro os clubes já deveriam ter formalizado a sua participação e pago a inscrição, no valor de 1000 dólares no masculino e 500 no feminino. Alguém terá formalizado?...

Para lá da formalização da realização, ainda não há confirmação oficial de eventuais participantes. Desportivamente, a eventual realização da Intercontinental 2019 teria o seguinte cartaz:

Meias-finais masculinas

• Sporting vs Centro Valenciano

• Leonardo Murialdo vs Porto

Meias-finais femininas

• Voltregà vs Unión

• Concepción vs Palau

Inline content
Ficha Técnica
Estatuto Editorial
Contacte-nos
BackOffice
Política de Privacidade