Reportagem

De La Masía para a vida

Jan 12, 2015

Numa conversa informal e em tom de graça, perguntei a um colaborador: “Sabes os nomes de todos os 'filhos' que tens aqui?” e com a maior naturalidade responderam-me: “Claro! Tu também não sabes o nome dos teus?”. Efetivamente, eu só tenho um filho que, como é óbvio, sei o nome. E não me importava nada que vivesse na La Masía.

La Masía granjeou fama com a geração de jogadores que Pepe Guardiola elevou ao estatuto de “deuses do futebol” com o advento do seu “tiki taka” protagonizado por Leo Messi, Andrès Iniesta e Xavi Hernandez.

Sala de aula com pintura alusiva à história do clube

Mas La Masía não é um centro desportivo. Pese ali crescerem 45 potenciais estrelas dos relvados, 13 basquetebolistas, quatro do andebol, três do futsal e outros três do hóquei em patins, mais do que estrelas de qualquer modalidade, em La Masía crescem futuros homens bem formados. E mais importante do que o objectivo de jogar na equipa principal, é o objectivo de chegar à Universidade.

La Masía foi fundada para albergar os jogadores de localidades distantes em 1979. O novo centro, inaugurado em 2011, homenageia 40 anos de Oriol Tort - futebolista, treinador, olheiro e responsável da formação - ao serviço do clube blaugrana.

O director de La Masía foi um dos melhores guarda-redes da história do hóquei em patins, Carles Folguera. Hoje em dia, o mítico guarda-redes de Igualada e Barcelona deixa bem claros os objectivos a que se propõem em La Masía. “Tentamos que não venham para aqui só treinar mas sim para estudarem, formarem-se e que tenham um plano B, para caso o desporto não os ajude, possam ir para casa e dizer ‘o Barcelona tratou bem de mim, estudei e agora tenho um curso universitário’”, explica.

Carles Folguera

O dia-a-dia de Folguera em La Masìa torna os cerca de 70 jovens praticamente seus filhos. “Há capacidade para 80 filhos mas este ano estão menos 10”, começa com humor. Mas não esquece quem o ajuda. “Não é um trabalho só meu, mas sim de mais gente”, refere. “O que os pais mais querem quando chegam aqui é que os seus filhos sejam felizes. Que cheguem aqui pelo talento, mas que façamos deles adultos”, frisa. E para tal é preciso todo um staff focado no mesmo objectivo. ”Estamos preparados para assumir essa tarefa, adoramos o nosso trabalho. Quando um jovem se vai embora depois de quatro anos de La Masía, o que nos satisfaz é que a família nos agradeça por termos cuidado do seu filho, que foi feliz”, confessa. É o objectivo: que os jovens saiam preparados para enfrentar a vida. Com um plano A, um plano B, C…

Habitualmente, os jovens patinadores chegam a La Masía com 17, 18 anos. “É nessa idade que Edu Castro e Ricard Muñoz dizem se um jogador é interessante”, revela. Mas este ano há um mais novo. “Temos um rapaz de Madrid que jogou este ano no campeonato de sub-15. Chegou cá com 14 anos”, conta.

La Masía conta com 29 jovens de outras comunidades de Espanha, 18 da Catalunha, 11 de África, oito do resto da Europa, um da América e um da Ásia.

Carles Folguera acredita que no plano desportivo haja outros clubes a trabalhar bem mas orgulha-se de que La Masía se distinga pelo trabalho extradesportivo. “Pela escola, convivência, valores, palestras formativas para que estejam cientes que é difícil chegar à elite do desporto, estudo para o dia seguinte… orgulhamo-nos, é o que verdadeiramente faz a diferença”, lembrando também que de lá saíram Messi, Xavi, Iniesta, Busquets, Piqué, Cesc Fabregàs ou Pedro. “Todos estes fazem parte da melhor equipa da história do futebol”, congratula-se ainda que o mais importante seja a formação pessoal.

Xavi Barroso assinou pelo Barcelona aos 13 anos; em 2012/13 representava o Vendrell – adversário dos blaugrana - mas tomava o pequeno-almoço e estudava inglês em La Masía

O dia-a-dia de um jovem de La Masía é regrado. Levantam-se às 6h45, às 7h tomam o pequeno-almoço, fazem a cama, prepara uma sandes para levar e apanha o autocarro para às 8h estar na escola, regressando a La Masía às 14h. Almoçam e descansam ou “ligam aos pais ou às namoradas”, lembra Folguera. Das 15h30 às 18h há explicações, obrigatórias e em grupos pequenos. Às 18h é hora do lanche, entre as 19h e as 21h treinam e depois têm duas horas livres para telefonar ou usar as redes sociais. Às 23h é hora de ir dormir.

Aos fins-de-semana entra a competição. Mas há também a figura de um educador que planeia actividades. “Cinema, teatro, praia… coisas normais para rapazes destas idades”, enumera Folguera.

Um dos espaços de lazer e convívio de La Masía

Carles Folguera abraçou a pedagogia e em La Masía alheia-se da vertente desportiva. “Eu não opino, mesmo no hóquei. É como no futebol ou no basquetebol. Nunca digo quando um jovem está pronto para entrar na equipa. Isso é uma decisão desportiva. Eu posso é ajudar pelo seu comportamento ou – se me perguntarem - dizer algo se o vi jogar no caso do hóquei em patins mas estou totalmente à margem da decisão desportiva”, esclarece. Mas, caso as notas escolares não estejam à altura das expectativas, os jovens são castigados com o afastamento das equipas onde sonham jogar. Até que melhorem.

Anfiteatro para TV e jogos de consola em ambiente de convívio

A decisão e análise desportiva fica para Eduardo Castro e Ricard Muñoz. Eduardo Castro é adjunto de Muñoz na equipa principal e coordenador do hóquei formativo, dirigindo o trabalho dos jovens talentos do lado do Palau. Do seu lado, a componente de formação pessoal surge naturalmente. “Não gosto de falar disso porque acho que quando se está no desporto, e se faz bom trabalho enquanto treinador, todos moldam também as pessoas”, adianta. “Quando se diz ‘O Barcelona preocupa-se muito em formar pessoas’, está-se a excluir um pouco do trabalho que fazemos e, do nosso lado, não é essa mensagem que queremos passar. Claro que nos preocupamos com isso, porque há alguns valores que fazem parte do pressuposto do ADN do Barcelona e alguns defeitos também e o que temos de aprender é a saber viver com isso”, explica. Se em La Masía se desenvolvem os valores pessoais, no Palau desenvolve-se a cultura táctica e os valores desportivos. Em La Masía fazem-se os grandes homens de amanhã, no Palau os grandes atletas.

Edu Castro com Nil Roca, um dos "canteranos" do Barcelona

“Quando um jogador chega ao Barcelona já foi a figura da sua equipa e já lhe reconhecemos alguns valores desportivos”, diz Eduardo Castro. “Formamos jogadores para terem um bom rendimento desportivo a todos os níveis. Claro que nos preocupamos com os estudos e até com as redes sociais e o que publicam. Temos regras especificas porque a lupa sobre nós – Barcelona - é muito maior e temos de estar à altura”, refere, frisando que a passagem pelo Barcelona pode não terminar na equipa principal mas é uma experiência valorosa. “Enquanto estão aqui têm muita coisa à disposição, têm por exemplo sempre um médico, e por isso têm de aproveitar ao máximo enquanto cá estão. E, se fizerem isso, também serão melhores pessoas”, finda o coordenador dos escalões formativos do emblema catalão.

É muito bom… gostei muito de viver no apartamento junto de La Masía e o meu melhor amigo é um russo que viveu comigo lá.

Xavi Barroso

Na La Masía, Folguera é ainda mais apaixonado pela pedagogia do que era por negar golos aos adversários. Defende um futuro melhor para os seus “filhos” com a mesma tenacidade que defendeu as redes dos emblemas que representou. Molda as pessoas que depois Edu Castro tem a responsabilidade de moldar como jogadores “à Barça”.

A decoração do espaço tem referências às várias modalidades do clube

La Masía é paixão, dedicação e trabalho formativo, muito para além do mero aspecto desportivo. Esse é complementado no Palau. E, na vivência das duas experiências, nascem os ídolos do amanhã.

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