Opinião

«Relatório de observação e análise»

Mar 26, 2020
Telmo André Sousa

Aproveitando o problema para fazer do mesmo uma oportunidade, propus ao HóqueiPT contribuir com um artigo onde se pudesse ver um pouco do trabalho de um analista dentro de uma equipa técnica/clube de hóquei em patins.

O desafio por mim lançado foi escolher um jogo do Campeonato Nacional da I Divisão e efectuar o relatório de observação e análise de ambas as equipas.

Após a apresentação dos relatórios será disponibilizado o vídeo com o resumo do Jogo. Neste registo serão colocados os momentos que foram analisados no relatório bem como os golos.

No Relatório de observação e análise, usando o esquema de relatório do André Luís (treinador do Hóquei Clube Os Tigres), é dado uma descrição do adversário com recurso à visualização dos últimos três ou quatro jogos. Neste relatório procura-se dar informação pertinente que permita ao treinador delinear a sua estratégia de jogo, bem como a criação de exercícios de treino capazes de recriar situações que se irão verificar no jogo.

Tarefa(s) do analista

Um analista tem como tarefas a realização de relatórios pós-jogo que tenham como base o modelo de jogo da equipa. Basicamente procura evitar desvios, ao que se idealizou para a equipa. Esses permitirão planear a semana de treinos focando-se nos mais variados princípios que, por qualquer motivo, não foram executados da forma correcta e como tal necessitam de ser trabalhados/relembrados.

Outra das tarefas, a ser realizada no intervalo do jogo, tem a ver com a apresentação da sua percepção do que está a acontecer no jogo. Para tal pode/deve recorrer a pequenos clips de vídeo de forma a passar a informação de forma mais precisa e objectiva ao treinador bem como aos jogadores.

Ao analista cabe também a função de observar e analisar atletas. Este género de relatório permite dar informação individual detalhada sobre qualquer jogador. Esta análise não se deve referir apenas aos atletas da própria equipa, mas também devem ser feitas análises constantes aos melhores jogadores da modalidade de forma a perceber comportamentos e tomadas de decisão. Esta análise permite transmitir/treinar comportamentos e tomadas de decisão com os atletas da equipa de forma a procurar melhorar aspectos de técnica e táctica individual.

O analista é um elemento fundamental numa equipa técnica de hóquei em patins, pois permite ter alguém em exclusivo na análise detalhada do jogo e do treino, procurando a causa e efeito das acções colectivas e individuais.

Por fim, e não menos importante, o analista deve ser alguém com conhecimento profundo do jogo, de preferência também ele treinador, de forma a poder partilhar a informação recolhida seja através de relatórios escritos ou em vídeo, bem como através da criação de exercícios de treino que possibilitem a melhor compreensão daquilo que os atletas vão encontrar em competição.

Então, sendo assim, foi decidido escolher o jogo entre as equipas FC Porto e Sporting CP, a contar para a 17ª Jornada do Campeonato Nacional da I Divisão que decorreu no passado dia 19 de Fevereiro de 2020 e que terminou com uma vitória expressiva do FC Porto por 6-0.

O meu nome é Telmo André Sousa e espero, sinceramente, que desfrutem deste artigo.

Sporting Clube de Portugal

Plantel 2019/20

[61] Ângelo Girão (GR) (C) | Destro: Ocupa bastante espaço e bem, e alterna entre as técnicas, portuguesa e espanhola. Quando tem a bola atrás da baliza fica sempre com o poste direito e procura condicionar/desarmar.

[91] José Diogo (GR) | Destro: Jogador formado no clube e que não compromete quando entra. Também este efectua alternâncias entre técnicas, portuguesa e espanhola.

[04] Ferran Font (D/M) | Destro: Jogador com uma técnica individual assinalável, sabendo assistir e finalizar (de “raquete”).

[05] Telmo Pinto (D/M) | Destro: Jogador que acrescenta qualidade defensiva e disponível para o colectivo. Não se inibe de contribuir no ataque.

[08] Ricardo Oliveira “Caio” (D/M) | Canhoto: Técnica no manejo do stick acima da média, que lhe permite rematar bem do lado natural e reverso, e ser forte no 1x1.

[09] Pedro Gil (A) | Destro: A atacar é um jogador que efectua mudanças de direcção e diagonais, para simular a 1/2 distância e só rematar mais à frente.

[14] Alessandro Verona (A) | Destro: Jogador com qualidade de passe. Disponível para o colectivo.

[17] Matías Platero (D/M) | Destro: Jogador sólido a defender. A atacar movimenta-se bastante bem sem bola. Oferece equilíbrios a esta equipa.

[27] Raul Marin (A) | Destro: Jogador com qualidade técnica, do manejo do stick, acima da média e com frequência procura efectuar a “picadinha”.

[44] João Souto (A) | Canhoto: Pivô móvel que com frequência coloca-se próximo de zonas óptimas à finalização ou no espaço entre-linhas procurando receber a bola.

[57] Toni Pérez (A) | Destro: Jogador Pivô dotado da capacidade de movimentação com e sem bola para “ganhar”, criar ou explorar o espaço, quer para rematar ou finalizar.

[99] Gonzalo Romero (A) | Canhoto: Jogador que tem um remate muito forte (batido | lado reverso) e que gosta a partir da esquerda flectir para dentro para rematar. É bastante intenso.

[TR] Paulo Freitas: Técnico que adopta um comportamento pressionante nos jogos em Casa. No ataque dotou esta equipa de princípios que definem bem o Sporting CP actual, que além dos talentos individuais é um colectivo forte. Ajusta conforme a equipa/jogador e pode ser imprevisível nas suas escolhas.

Observação Vídeo (Pontos a Explorar)

Jogo(s) Observado(s):

Sporting CP (8) vs (1) RAHC | 14ª J | Camp. Nacional 1ª Div.

UDO (3) vs (4) Sporting CP | 15ª J | Camp. Nacional 1ª Div.

Sporting CP (10) vs (1) CDPA | 16ª J | Camp. Nacional 1ª Div.

AWL (5) vs (1) Sporting CP | 5ª | Liga Europeia - Grupo A

Observação/Análise

Em ângulo fechado

Características Gerais da Equipa: Plantel extenso de 12 atletas (10 + 2 Gr), experiente e recheado de soluções. Soluções que lhes permite ter jogadores bastante solidários a defender e a atacar munidos de imensos recursos técnicos. Equipa possuidora de bons rematadores de 1/2 distância e que procura rematar, na maioria das vezes, pelo o corredor central ou próximo deste. O jogador mais desta equipa é o [61] pela média de golos sofridos (média de 2,3 golos/jogo num total de 19 jogos).

Em Defesa Organizada: Agrupados num bloco médio/alto, com marcação HxH (com instruções individuais) e compactos. Esta equipa nem sempre efetua trocas. Por norma, só efetua quando 1º Defesa fica “preso” (e por reajuste) no bloqueio.

Junto à tabela final, na possibilidade de disputa da bola, procuram com frequência criar superioridades defensivas de 2x1. Já dentro de área são bastante pressionantes sobre o avançado sem bola e, com frequência, sobre o portador da bola (depende da zona, do momento e do jogador).

Também podem definir uma marcação específica, de forma estratégica, por norma, para evitar remate/passes de longa distância.

Na Transição Ofensiva: A decisão é consoante o espaço e optam ou pelo o remate frontal ou pela a finalização no lado oposto.

Em Ataque Organizado: Alternam entre sistemas 3:1, 2:2, 2:1:1 e 1:3, dinâmicos e por 1:2:1 posicional. Por norma, procuram acções grupais de 2 e 3 jogadores, e, também, situações de 1x1. Como soluções tácticas têm as interiores, as desmarcações, o passe e corte, o bloqueio directo e o bloqueio indirecto.

O seu ataque caracteriza-se por procurar criar e/ou explorar o espaço, e bons equilíbrios posicionais.

Na Transição Defensiva: Procuram condicionar o espaço do portador da bola, limitando a sua acção com bola (principalmente frontal). O Guarda-Redes fica com o avançado do seu lado direito.

Situações Especiais: Em inferioridade numérica a atacar formam um triângulo ofensivo dinâmico. A defender procuram colocar 2 defesas no lado da bola, formando triângulos defensivos.

Em superioridade numérica a atacar colocam-se em 2:2 e “rodam” para 1:2:1, posicional. A partir daqui procuram a alternativa com espaço para tomar a iniciativa.

Pontos Fortes: Ataque organizado, dinâmico e com várias soluções, para rematar ou assistir, com um guarda-redes determinante e fisicamente apresentam-se muito bem.

Pontos a Explorar: Em organização defensiva de reparar no comportamento do 2º Defesa quanto à colocação dos pés ou ao encolher ou à precipitada iniciativa da troca, sentem dificuldades no posicionamento 3/4 permitindo entradas nas costas e a fragilidade no interior do bloco defensivo, quando há passe entre-linhas, onde o avançado consegue recepcionar com espaço em antecipação ao defesa.

Cinco Inicial Provável: [61] Ângelo Girão (GR), [09] Pedro Gil, [17] Matías Platero, [57] Toni Pérez, [99] Gonzalo Romero.

Penaltis: [27] Raul Marin: Procura colocar no canto superior esquerdo do Guarda-Redes, no lado da luva esquerda.

Livres Diretos: [99] Gonzalo Romero: Remate batido (lado reverso) a 1/2 altura para o lado direito do Redes, ou simula o remate e procura o drible de “gancho e contra gancho” para desequilibrar o Redes e colocar rápido em cima, no lado da luva do stick ou para o ombro direito. [27] Raul Marin: Parte em condução procurando o melhor espaço para aplicar uma “picadinha”.

NOTA: Não foram colocados quaisquer observações sobre erros individuais.

Futebol Clube do Porto

Plantel 2019/20

[01] Xavier Malián “Mali” (GR) | Destro: Guarda-Redes enérgico a encurtar ângulos de remate e alterna entre as técnicas, portuguesa e espanhola. Quando tem a bola atrás da baliza fica sempre com o poste direito.

[61] Tiago Rodrigues (GR) | Destro: Jovem Guarda-Redes com um enorme potencial. Também alterna entre as técnicas, portuguesa e espanhola. É rápido e ágil.

[07] Giulio Cocco (A) | Destro: Jogador com técnica de manejo de stick acima da média e que contribui para o coletivo.

[08] Andrés Zapata (A) | Canhoto: Jovem jogador disponível para o coletivo e com qualidade de passe. A defender tem detalhes interessantes, p.e., a troca de stick de mão.

[09] José “Rafa” Costa (A) | Destro: Jogador que trás imensas soluções, pela a sua versatilidade e qualidade técnica individual.

[18] Daniel Oliveira “Poka” (D/M) | Canhoto: Jogador com remate de 1/2 distância forte (batido | lado reverso).

[19] Carlo Di Benedetto (A) | Destro: Pivô com uma amplitude enorme, excelente finalizador e forte sem bola, na procura da interior.

[55] Sergio “Sergi” Miras (D/M) | Destro: Jogador que, apesar da sua posição em campo, dá soluções ao ataque. Assiste com qualidade.

[57] Reinaldo “Nalo” Garcia (D/M) (C) | Destro: Jogador que gosta de flectir para dentro para rematar (batido | lado reverso). Procura dar equilíbrios, com e sem bola, e que está constantemente a ler o jogo.

[77] Gonçalo Alves (A) | Destro: Jogador de qualidade técnica, do manejo do stick, acima da média, detentor de um remate batido muito forte (lado reverso) e com “rótulo” de golo. Gosta de procurar situações de 1x1.

[TR] Guillem Cabestany: Treinador acérrimo defensor da sua Ideia de Jogo, que procura ter uma equipa eficiente a atacar. Transpõe a sua ideia de forma inversa a defender, evitando que o adversário usufrua do espaço da mesma forma que pretende usufruir dele.

Observação Vídeo (Pontos a Explorar)

Jogo(s) Observado(s):

UDO (5) vs (5) FC Porto | 13ª J | Camp. Nacional 1ª Div.

AJV (2) vs (2) FC Porto | 14ª J | Camp. Nacional 1ª Div.

FC Porto (8) vs (3) CDPA | 15ª J | Camp. Nacional 1ª Div.

ADV (1) vs (11) FC Porto | 16ª | Camp. Nacional - 1ª Div.

Observação/Análise

Em ângulo fechado.

Características Gerais da Equipa: Plantel de 10 atletas (8 + 2 Gr) com soluções boas e outras com margem de progressão. Equipa vertiginosa, possuidora de bons rematadores de 1/2 distância e que cria com frequência linhas de passe para finalizar.

O jogador mais desta equipa é o [77] pela média de golos marcados (média de 2,7 golos/jogo num total de 19 jogos).

Em Defesa Organizada: Agrupados num bloco médio/alto, com marcação HxH (com instruções individuais) e abertos. Esta equipa nem sempre efectua trocas porque procura “saltar” o bloqueio. Pressionam de forma passiva no momento da perda da posse da bola e a linha mais recuada, quando bem posicionada, procura antecipar o passe.

Por vezes criam superioridades defensivas de 2x1 e acompanham, na condução, o portador da bola para trás da baliza.

Na Transição Ofensiva: Num processo simples de cruzamento, com ou sem simulação de remate, procuram na maioria das vezes o remate. Quando pressionados são pragmáticos e optam por sair organizados, usando uma linha de passe segura.

Em Ataque Organizado: Alternam entre sistemas 3:1, 2:2, 2:1:1 e 1:3, dinâmicos. Por norma, procuram acções grupais de 2 e 3 jogadores. Como soluções tácticas têm as interiores, exteriores (pick and pop do basquetebol), “movimento sombra”, as desmarcações, o bloqueio e cortina directa, e o desvio.

O seu ataque caracteriza-se por procurar criar e/ou explorar o espaço, e ser vertiginoso.

Na Transição Defensiva: Com frequência recua para zonas próximas do Livre Directo e com o 4º Defesa a recuperar de forma lenta.

Situações Especiais: Em inferioridade numérica a atacar procuram, a partir de triângulos, explorar o espaço para receber a bola ou criar espaço para o colega poder entrar com a bola. A defender colocam-se em 1:2 assimétrico, procurando condicionar o passe em profundidade e o remate batido, com saída rápida sobre o portador da bola.

Em superioridade numérica a atacar colocam-se em 2:2 e “rodam” para 1:2:1, posicional. A partir daqui, usando a simulação para criar indecisão a quem defende, procuram a alternativa com espaço para tomar a iniciativa. A defender procuram rapidamente pressionar de forma activa com igualdade numérica, ficando a superioridade defensiva na última linha.

Pontos Fortes: É uma equipa que procura a baliza adversária de forma incessante, onde a sua verticalidade cria imensas dificuldades a quem lhes “oferece” o espaço e com um guarda-redes determinante.

Pontos a Explorar: Em organização defensiva o 1ª Defesa, pela a sua colocação de pés após travagem ou pela forma como acompanha o portador da bola (e pelo o bloco aberto), sente dificuldades no 1x1. Também, o defesa do lado contrário ao da bola que, com frequência, não respeita o posicionamento 3/4 e permite entradas nas costas ou cria espaço.

Na transição defensiva, com frequência, “oferece” espaço às equipas adversárias. Depende da proximidade do 1º Defesa sobre o portador da bola ou a sua proximidade sobre o recetor se houver passe em progressão da equipa adversária.

Cinco Inicial Provável: [01] Xavier Malián “Mali” (GR), [07] Giulio Cocco, [09] José “Rafa” Costa, [57] Reinaldo “Nalo” Garcia, [77] Gonçalo Alves.

Penaltis: [77] Gonçalo Alves: Procura colocar no canto inferior esquerdo do Redes.

Livres Diretos: [77] Gonçalo Alves: Com técnica de remate distinta, procura colocar em baixo ou em cima. Em cima no meio da baliza e em baixo na luva direita. Ou então quando parte para o drible efectua “gancho” e “contra gancho” para colocar em cima no lado direito com uma “picadinha”. [19] Carlo Di Benedetto: Procura desequilibrar o guarda-redes encarando-o e, de seguida, vai à procura de colocar num dos lados. Por fim, se não o desequilibrar, este explora a sua amplitude colocando no lado esquerdo do guarda-redes ou por cima da caneleira ou em baixo junto ao patim.

NOTA: Não foram colocados quaisquer observações sobre erros individuais.

Relatório Individual de Guarda-redes

Nesta análise oram excluídos os relatórios individuais dos guarda-redes, em que devem ser previstos os seguintes pontos: Técnica, Peito, Luva sem Stick, Luva com Stick, Finalização do Lado da Luva s/ Stick, Finalização do Lado da Luva c/ Stick, Deslocação Frontal/Retorno, Comportamento à bola por detrás da baliza, Confronto 1xGr, Livre(s) Direto(s), Penalti(s).

Por exemplo,

Epílogo

Os vídeos, de forma sucinta, deverão mostrar o que o Treinador pretende.

Neste artigo só se colocou em vídeo os “pontos a explorar”, mas uma observação e análise completa em vídeo deverá ter todas as fases/momentos descritos no relatório.

Quanto ao relatório individual este pode ser de um ou de mais atletas, e deve ser bem sustentado com vídeos e/ou fotos (como no exemplo apresentado).

Os relatórios permitem antever o que se sucederá no jogo, contudo não antecipa tudo mas deixa qualquer Treinador mais bem preparado. Por exemplo, no relatório de Observação e Análise, o facto de só se ter observado quatro jogos de cada equipa não permitiu obter toda a informação necessária para se antecipar todas as possibilidades de bolas paradas.

Importa, uma vez mais, salientar o quão é fundamental a Observação e Análise. Nos dias de hoje contribui de forma significativa no sucesso das equipas. Este é um processo cada vez mais complexo e determinante.

Para terminar quer deixar um agradecimento especial a Tiago Sousa, a Luís Moreira (“Tikinho”) e a Luís Duarte, que me ajudam bastante nesta ainda curta caminhada.

Igualmente um obrigado ao HóqueiPT que mais uma vez me dá uma oportunidade de partilhar e de mostrar o meu trabalho.

Fico disponível para dúvidas/esclarecimentos e, igualmente, disponível para melhorar com opiniões críticas e construtivas.

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