Entrevista

Carles Folguera

Jan 13, 2015

Já tive a oportunidade de conhecer pessoalmente grandes nomes do hóquei em patins. E, por isso, também já perdi muitos ídolos. Mudei a forma como olhava para esses ídolos e sei que estou mais difícil de impressionar. Carles Folguera veio contrariar esta tendência. Uma entrevista que depois continuou numa troca de bolas, de opiniões e que seguramente vou guardar para a vida!

Carles Folguera é uma referência entre os guarda-redes de hóquei em patins. Nascido em 1968, começou no Club Patí Bell-lloc, onde esteve até aos 16 anos. Um ano no Lleida foi suficiente para chamar a atenção do Igualada, onde a partir dos 17 anos se afirmou como um dos melhores guardiões da história da modalidade, inovando na forma de defender e na imagem, outrora cinzenta, do desporto.

Esteve oito triunfantes anos nos “arlequins” antes de rumar com o treinador Carlos Figueroa e o companheiro de sempre, David Gabáldon, a Barcelona. Aí cumpriu mais oito anos, juntando sete OK Ligas e quatro Ligas Europeias aos quatro títulos máximos continentais e três campeonatos nacionais conquistados em Igualada.

Tendo a pedagogia como a sua outra paixão (quiçá maior do que o hóquei), assumiu o cargo de director de La Masía em 2002.

HóqueiPT: Podemos começar pela tua alcunha... Porque te chamam “Pollo” [ndr: frango em português]? Em português não é uma alcunha muito feliz para um guarda-redes (GR)...

Carles Folguera: Há uma canção chamada “El Pollo” e uma vez, depois de um jogo, falei dessa música no balneário e todos começaram a cantar e a dançar, e a partir daí começaram a chamar-me “El Pollo”. Aqui é uma coisa positiva e tudo tem a sua história. A da minha alcunha é esta.

HPT: Foste um GR inovador não só tecnicamente mas em termos de imagem, porque foste o primeiro a ter desenhos nas protecções… Como surgiu a ideia?

CF: Fundamentalmente porque o equipamento dos jogadores de hóquei em patins era muito tradicional, todo preto. Uma vez, em conversa com um fabricante de material, perguntei porque não começávamos a inovar, a pôr mais cor e a tornar o material mais atraente. E começou com um apontamento muito pequeno, que era um triângulo de cor nas caneleiras. E lembro-me de lhe dizer que, para fazer mudanças, ou fazíamos em grande ou então não fazíamos. E começámos a desenhar caneleiras de cores diferentes. Lembro-me de que na minha primeira época no Igualada usava uma camisola “Mironiana”, de Miró, com muitas cores. Foi a maneira de tornar diferente um desporto muito cinzento.

HPT: De todos os jogadores com quem jogaste, que dois defesas escolherias para ter à tua frente?

CF: É muito difícil… defesas… é muito difícil. Havia um português que era muito bom defesa, que era o Paulo Almeida. Gostava muito dele. E também acho que o meu irmão Albert Folguera era muito bom defesa, mas tenho que falar noutro que, ainda que não seja defesa, jogava atrás e foi um dos melhores defesas que houve, Santi Carda.

HPT: Com David Gabaldón estiveste oito anos em Igualada e oito em Barcelona, acabaram por retirarem-se juntos. Têm uma relação especial ou foi casualidade?

CF: É como um irmão mais novo para mim. O David foi a pessoa com quem joguei mais anos na mesma equipa e ainda nos encontramos. Temos uma forte amizade. Temos uma pequena diferença de idades mas é como um irmão mais novo. Gostamos muito um do outro. Somos muito diferentes mas é a pessoa com quem me entendi melhor dentro e fora de rinque… para mim é muito especial.

HPT: E com Carlos Figueroa?

CF: Bem… (emocionado) Carlos Figueroa chegou a Igualada pouco depois de se retirar como jogador e creio que foi o treinador que, globalmente, mais valor acrescentou do ponto de vista táctico à modalidade. Tive a sorte de estar com ele cinco anos em Igualada e oito em Barcelona… treze anos no total. Carlos também demonstrou que cada vez mais a figura do treinador não passa apenas por uma pessoa. O treinador é muito importante mas, quando há um bom adjunto e bom staff, é muito mais fácil triunfar em equipas com bons jogadores.

HPT: Como agora no FC Barcelona?

CF: Sim. Antes o treinador actuava como treinador mas também como psicólogo, fisioterapeuta… era uma única figura. Cada vez há mais pessoas a integrarem o staff técnico e que ajudam a que o treinador tenha a informação médica, psicológica, treinos específicos para GR… É muito importante que o corpo técnico não seja apenas uma pessoa.

HPT: Figueroa está afastado do hóquei há muito tempo. Como se explica? Não faz falta à modalidade?

CF: Bem… depois de estar no FC Barcelona teve várias experiências. Em Reus correu bem, em Vic nem tanto... depois também esteve em Sitges e no hóquei feminino. Mas depois, voluntariamente ou não, ficou sem trabalho. Teve a sorte de treinar as três ou quatro equipas mais fortes: esteve em Igualada na melhor altura, depois no FC Barcelona, e no Reus foi campeão da Liga e da Europa... foi um técnico de muito êxito.

É um apaixonado pelo hóquei mas também é verdade que, quando os anos passam, há muitas coisas que influenciam a tua decisão. A tua mulher, a tua vida, a equipa que te oferecem, se estás motivado, onde vais viver... depende de muitos factores. E eu, por exemplo, também gostava de ter sido treinador e treinar equipas de elite durante 20 anos.

HPT: Quem foi o melhor avançado que tiveste pela frente?

CF: Muitos! Tive um companheiro de equipa que se chamava Joan Ayats, que era um avançado extraordinário; Daniel Martinazzo, um excelente avançado; e, em Portugal, ainda que tenha jogado poucos anos contra eles, Vítor Hugo e Rui Lopes.

Em Espanha, foi claramente Ayats, pela sua maneira de jogar. Colocava-se muito à frente do GR, rematava de todo o lado e não podias deixar uma bola perdida que ele rematava rapidamente. Era um jogador muito difícil, dos que te agrada ter na frente. Tive a sorte de sermos colegas de equipa, mas sofri durante cinco anos nos treinos.

HPT: Qual foi o título que mais te marcou?

CF: Eu tenho muito, mas mesmo muito apreço pela primeira Liga Europeia que ganhei ao Benfica... porquê? Porque vinha de perder os Jogos Olímpicos em Barcelona. No jogo em que deveria ter estado melhor, não estive bem e sentia-me responsável por termos perdido quando achava que tinha feito um bom campeonato. O jogo contra a Argentina era decisivo e eu não estive bem. E, para além de não estar bem, culpei-me ao ponto de ficar inseguro. Perguntava-me como tinha sido possível falhar num jogo tão importante.

E a competição que se seguiu para eu demonstrar que aquilo tinha sido um acidente foi contra o Benfica. Lembro-me que em casa ganhámos 4-1 e fomos ao Benfica, que tinha uma equipa espetacular, e acho que fiz um dos melhores jogos da minha vida. Foi um jogo muito difícil mas que ganhámos bem. Lembro-me de que quando faltavam três ou quatro minutos para terminar, sempre que eu defendia uma bola as pessoas aplaudiam-me. Para mim é uma recordação muito importante. Foi a primeira Liga Europeia que ganhei depois de perder os Jogos Olímpicos e depois tive a sorte de ganhar as sete finais da Liga Europeia que disputei. Para mim foi o verdadeiro início de tudo.

HPT: Agora de fora, como analisas os GR do FC Barcelona?

CF: Eu acho que tenho a sorte ou, melhor, no FC Barcelona temos a sorte de ter dois GR completamente diferentes, com características diferentes, mas com um aspecto que para mim os torna espectaculares e decisivos: a mentalidade. Têm cabeça e muita personalidade.

Há GR incríveis... Trabal, quando está inspirado, é um dos melhores que há, porque adivinha para onde vai a bola, e é talvez com quem mais me identifico na forma de defender. Mas acho que Egurrola e Fernandez são espetaculares. Gosto do Malian, GR do Liceo, é interessante. E também do que estava o ano passado no Vendrell, Puigbi. Mas em Espanha há muitos bons GR.

HPT: Qual é o segredo da Espanha para ter tão bons GR?

CF: Portugal também tem... o GR que estava a época passada em Valongo [ndr: Ângelo Girão] é muito bom. A Espanha sempre teve muita competência e muitos bons GR mas também acho que damos mais importância à figura do GR.

Creio que temos muitas equipas boas e competentes e que a figura do GR é importante em qualquer equipa. Comparando com Argentina, Itália ou Portugal, a verdade é que os melhores são daqui.

HPT: Estiveste na base desta dinâmica...

CF: Não... na minha época havia Ramon Canalda, Llaverola, antes Huelves... Sempre houve bons GR em Espanha. A competência faz com que, quando não há muita diferença entre GR, tenhas de tornar-te melhor. Se em Portugal só há dois que se destacam, acabas por não crescer como GR. Mas quando te pressionam de baixo, quando começam a aparecer bons GR, ou melhoras ou ultrapassam-te.

HPT: Como vês as novas regras? O GR é vítima ou protagonista?

CF: O GR é mais protagonista mas também é vítima. Há regras novas de que eu gosto muito... as expulsões temporárias agradam-me. Que haja superioridade numérica durante dois ou quatro minutos, a pressão de estar com mais ou menos jogadores, funciona. As faltas também me parecem correctas, ainda que eu ache que existem demasiados critérios e que esses critérios determinam uma boa ou má arbitragem. É verdade que os livres directos ou as grandes penalidades condicionam o jogo e tornam o GR na figura do jogo. Mas antigamente, no meu tempo, tinhas a bola e estavas dois minutos sem ir à baliza. Agora sabes que em 30 segundos tens de criar uma jogada. Isto aumenta os remates, mas não melhora a qualidade dos remates, Antes, talvez fosse mais fluído mas agora é mais direto, tens de ir mais rápido à baliza. Acho que atualmente as equipas que dominam o contra-ataque e as bolas paradas têm mais hipóteses de ganhar o jogo.

HPT: E aí, por vezes, são os árbitros os protagonistas..

CF: Sim... influenciam muito. Antes ias a qualquer pista e era muito difícil as outras equipas terem situações isoladas frente ao GR. Hoje em dia, mesmo sendo mais fracas, têm sempre três ou quatro oportunidades, entre GP e LD, de marcar golos. É bom, mas no caso de ser um árbitro com pouca personalidade, influenciado pelo público ou não, pode decidir um jogo num LD.

HPT: Depende da percepção do árbitro...

CF: Há árbitros que apitam com facilidade, a outros custa-lhes mais. Falta definir muito bem as situações: quando é falta de bloqueio, bloqueio em ataque, bloqueio em defesa e quando um golpe é intencional e é falta e expulsão. Dependendo do jogo, algumas acções são LD e expulsão e noutros não são nada. As regras estão bem, a sua aplicação é que falha. Eu mantinha estas novas regras mas faria uma leitura e redefiniria alguns pormenores. Por exemplo, acabava com o tempo para sair da meia pista defensiva, os 40 segundos passariam a um minuto, mantinha as faltas, falta dentro da área seria GP, as expulsões gerariam inferioridade numérica... mas a parte boa de uma modalidade é que podemos ir modificando as regras para torná-la mais espetacular e para que o público se divirta.

HPT: A tua ligação à modalidade agora é como treinador de GR...

CF: Sim. Mas mais do que ser treinador de GR estou na equipa técnica com o Ricard Muñoz e o Edu Castro e dou o meu ponto de vista sobre a equipa, sobre Sergi e Aitor, como estão, que jogo acho que é melhor para jogar um ou outro.

A minha incorporação no staff é para acrescentar o meu ponto de vista pela minha experiência, para que depois seja Ricard a tomar a decisão.

HPT: Como se motiva dois GR que já ganharam tudo?

CF: Vou dizer-te uma coisa que creio que nunca lhes disse porque sei que o sabem. Quando estás no teu melhor nível e na melhor equipa, naquela que tem de ganhar tudo, tens de entender que és um privilegiado porque, com duas ou três horas por dia são jogadores profissionais de hóquei e estão na melhor equipa. Eles os dois têm um nível de compromisso em que têm de estar a 100% para render e estarem em pleno, porque se baixam o nível a equipa ressente-se. Têm de estar num nível muito elevado mas são dois GR que não são parecidos em nada.

HPT: Mas parece-me que gerem isso muito bem...

CF: Sim. Se não se respeitassem nem se entendessem seria mais complicado. Não é fácil partilhar balneário com um GR que sabes que, se ele não estivesse, serias tu o GR principal. Para mim é evidente que o Aitor é muito melhor GR agora do que há uns anos atrás. Um GR com alguma maturidade é mais seguro, tem mais autoridade, não só porque defende mas como defende. Aitor está num momento de maturidade selvagem, espectacular, e acredito que daqui a oito meses, um ano ou dois, o Sergi vai estar assim. Julgo que o Sergi neste momento tem de esperar, da maneira como está a fazer, empenhado a 100% para que, quando se faça a mudança, seja com naturalidade. São dois GR que qualquer treinador inveja.

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