Reportagem

Os jovens como base para o futuro (III)

Jan 30, 2015

No último defeso, o Barcelona reestruturou o seu quadro de técnicos. Para além de Eduard Castro (que para além da coordenação da formação em geral, orienta a equipa de Sub-23), os blaugrana contam agora com o seleccionador catalão Jordi Camps, que tem a seu cargo as equipas B e de Sub-20 e Ramón Peralta, que entrou para dirigir a equipa Sub-15. Peralta tomou o lugar de Oscar González que se mantém na estrutura mas “subiu” aos Sub-17.

Jordi Camps tem os seus objectivos bem definidos. “Acima de tudo, garantir a manutenção na primeira divisão nacional que é complicada porque é das mais competitivas que há”, afirma, revelando-se contente com os primeiros meses no Barcelona. “Estou muito satisfeito com o trabalho dos miúdos porque os jogos que perdemos foram por apenas dois golos. E eu não pensava que, com a qualidade das outras equipas, pudéssemos fazer uma primeira volta tão boa”, confessa.

Jordi Camps

No entanto, os objectivos – para os próprios jogadores – não se esgotam nos Sub-23. “Queremos que estes miúdos ganhem a experiência de estar na equipa principal. Há alguns jogadores que já jogaram alguns minutos e a minha obrigação é que, quando subam, estejam à altura dos outros jogadores. Ricard [Muñoz] disse-me que estava muito satisfeito com os jogadores que já foram à equipa principal”, regozija-se, apontando um exemplo recente. “Nil [Roca] jogou contra o Bassano e marcou um golo, esteve à altura da oportunidade e isso deixa-me satisfeito”, confidencia.

Com 13 jornadas cumpridas, o Barcelona “B” ocupa a 5ª posição entre 14 equipas, fruto de sete vitórias e seis derrotas.

A equipa B conta com apenas dois seniores, sendo que a larga maioria do plantel tem idade júnior e, para além da equipa B, são requisitados para as equipas de Sub-23 e Sub-20. O escalão a que efectivamente pertencem – os Sub-20 – acaba por ter objectivos secundários. “O objectivo é chegar aos campeonatos da Catalunha e ver o que acontece. Há equipas muito boas como o Sant Cugat e o Noia e nós somos os pequeninos”, refere Jordi Camps. “Pese termos ficado em primeiro lugar nesta primeira liga, sabemos que é diferente um campeonato a 25 minutos, estando habituados a 20. Mas vamos lá chegar e o objectivo estará cumprido. Os objectivos para estes jogadores são garantir a manutenção na ‘Primera’ e, ainda mais importante, que três ou quatro jogadores interessantes que temos sigam o caminho do Xavi Barroso e, se não for no Barça, que cheguem a uma equipa da OK Liga”, sublinha.

Ignacio Alabart

Entre os jovens jogadores do Barcelona, três têm tido algumas oportunidades esta época face às lesões na equipa principal. Nil Roca, Sergi Llorca e Ignacio Alabart fizeram mesmo a pré-temporada com a equipa principal, embora Alabart tenha perdido parte em virtude do estágio da selecção espanhola que disputou o Europeu de Sub-20 em Valongo.

“A entrada na equipa principal será muito difícil”, avisa Jordi Camps, mantendo a confiança nos jovens. “Acredito que os três e outro jogador possam lá chegar. A partir de agora depende muito deles. Têm tudo para chegar lá mas nestas idades é complicado”, alerta, passando a explicar. “Os miúdos são condicionados pelas amizades, namoradas, pela auto-estima. Estão naquela fase em que têm todas as condições – e espero que todos consigam porque é sinal que fizemos bem o nosso trabalho - mas as outras coisas às vezes interferem. O contexto familiar, ter sorte… No Barça é muito difícil passar de júnior a sénior, mas se o atleta for cedido um ano pode ser que tenha sorte com o treinador e com as lesões, e que a equipa funcione”, detalha. “Há coisas extradesportivas que podem estragar uma carreira a nível desportivo mas as qualidades estão lá. Uns serão mais tecnicistas, outros mais trabalhadores, outros as duas coisas. Mas têm de ter sorte para darem o salto definitivo. Para já, o importante é que conquistem minutos com a equipa principal, com treinos. Também têm de ter a sorte necessária para, no momento chave, entrar na equipa”, realça.

O guarda-redes Blai Roca e o seu irmão Nil

A cedência a outros clubes pode ser uma solução para se ganhar experiência e se regressar mais forte. Mas a tal “sorte” que Jordi Camps refere, conta muito.

“Xavi Barroso esteve emprestado ao Vendrell. Ganharam títulos e o Xavi amadureceu. Este ano foi o Guillem Fox – ex- guarda-redes dos juniores do FC Barcelona – e percebeu que não é a mesma coisa, talvez esperasse uma coisa e saiu outra. O David Martinez também era do Barcelona e também está agora no Vendrell. E passaram de lutar pelos lugares cimeiros para o meio da tabela, já eliminados na Liga Europeia. Pensaram que iam para um clube onde tudo ia correr bem mas depois, muitas vezes por pouca sorte, as coisas não acontecem. Coisas extradesportivas que não dependem do jogador”, lamenta. “Outro exemplo é o Marc Julià que é um grande jogador mas está no Manlleu, nos últimos lugares da tabela classificativa. Poderia estar em qualquer outro clube a lutar por outras coisas mas luta para não descer de divisão”, suspira.

Mesmo com a intervenção do Barcelona, a escolha passa sempre pelo jogador. O que os leva a optar? “Não sei, talvez pela localização do clube, pela confiança no treinador”, tenta explicar Camps. “Pensas que tudo vai correr bem e depois acontece o contrário. Talvez tenha mesmo escolhido o Manlleu pela confiança que tinha com o treinador, mas agora é diferente. E penso, ‘Pobre Marc, tem qualidade merecia estar numa equipa mais forte’”, conta. “Não sei se com Nil, Ignacio e Sergi pode acontecer o mesmo. Não sei se serão cedidos um ano para que cresçam e depois lhes corra mal. Por isso digo que têm os fundamentos todos mas falta chegar lá”, vinca.

Guillém Fox, ao serviço do Vendrell

O referido Marc Julià é o único jovem que o Barcelona tem a ganhar experiência noutra equipa sénior, no Manlleu. O jovem argentino Maximiliano Oruste, que está no Valdagno, em Itália, estará também sob o radar do Barcelona, ainda que a contratação não tenha sido tornada oficial.

“O Marc Julià veio muito jovem, com 16, 17 anos. É um jogador que nos escalões mais baixos se destacava muito, tinha uma qualidade técnica incrível e quando chegou ao Barcelona fez a diferença porque tinha uma qualidade superior aos restantes”, descreve Ricard Muñoz, agora treinador principal dos blaugrana.

“Quando chegou à idade júnior, contámos com ele num primeiro ano para a equipa principal mas depois chegámos à conclusão que o melhor era ser cedido para tentar demonstrar que é jogador para outros voos. Está neste processo de mostrar que é um jogador de OK Liga - e acredito que é – e de mostrar que pode jogar numa grande equipa. Se não for no Barcelona, talvez num Reus, Vic, Liceo ou num grande estrangeiro. Sem dúvida que é um jogador de grande qualidade em processo de formação mas se continuar a trabalhar bem terá um futuro risonho”, auspicia Muñoz.

Marc Julià com a selecção espanhola na Taça Latina

O acompanhamento dos jogadores cedidos é permanente, mas sempre dando espaço para que possam crescer. “Fazemos um acompanhamento do rendimento vendo o maior número possível de jogos mas tentamos também dar-lhes espaço, para que não se sintam pressionados. Falamos com eles, com as pessoas que lhes são mais próximas, como estão, como é o ambiente à sua volta, como é a sua vida extra desportiva, estamos atentos mas à distância para que não se sintam controlados mas que vejam que há interesse da nossa parte. Acompanhamo-los desportivamente mas também vendo como se adaptam e comportam”, finaliza Ricard Muñoz.

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