Entrevista

«Não consegues trabalhar se não estás contente»

Feb 13, 2015

Fui para Barcelona focada apenas em fazer a reportagem sobre o clube blaugrana. Mas quando surgiu a oportunidade de entrevistar Jordi Camps, seleccionador da Catalunha, não quis deixar de falar sobre o tema da independência ou a polémica das camisolas da selecção catalã. Mas Camps evita falar de política. Tem a sua ideia e a sua vontade. Mas deixa as questões politicas para outros. Ele só quer jogar e ajudar quem quer jogar.

Jordi Camps é o seleccionador da Catalunha e recebeu no último defeso o convite para reforçar os quadros formativos do Barcelona, assumindo a liderança da equipa “B” e Sub-20 dos Blaugrana. Uma longa carreira, por todos os cantos do Mundo, revista com o HóqueiPT.

HóqueiPT: Treinador do Lloret, Tordera, Voltrega e Reus... A Taça CERS com o Voltregà foi o ponto mais alto a nível de clubes?

Jordi Camps: De ganhar títulos? Não sei… No Voltregà ganhámos uma CERS, fomos semifinalistas noutra CERS e finalistas em duas Taças do Rei. No Tordera chegámos a uma final da CERS, no Reus estivemos na Final Four da Liga Europeia e nas meias-finais da Taça do Rei. No Lloret subimos a equipa da A2 à A1. Com a selecção da Catalunha, da qual sou seleccionador há 11 anos, estivemos no Campeonato do Mundo de Macau.

No último Mundial, Jordi Camps esteve à frente da África do Sul

HPT: Que recordações tens dos jogadores destes clubes?

JC: Mantenho uma boa relação com todos os jogadores de quem fui treinador. Acho que sou uma pessoa humilde e tento manter uma relação cordial com todos os jogadores com quem trabalhei. Por desgraça, nós os treinadores, somos uma espécie à parte. Normalmente o jogador é muito egoísta. Eu fui jogador e somos muito egoístas quando somos jogadores, no sentido em que queremos jogar sempre e não pensamos no melhor para a equipa. Tenho boa relação praticamente com todos com quem treinei. Agora, quando fazemos jogos amigáveis com a selecção catalã, telefono-lhes e querem vir, coisa que não aconteceria se houvesse uma má relação.

HPT: Guillem Trabal joga actualmente no Benfica. Como era quando jogava no Voltregà?

JC: A sua paixão é o hóquei… e o hóquei. Tinha bem presente que queria dar tudo pelo Voltregà. Creio que quando ganhámos a CERS ao FC Porto - e ganhámos nas grandes penalidades - realizou um dos seus sonhos: ganhar um título importante com o Voltregà. O que não tínhamos conseguido nas finais da Taça do Rei, uma nos penalties e outra porque ficámos sem jogadores. Acho que a partir daí Guillem Trabal sofreu uma mudança, no sentido de já ter feito o que tinha para fazer em Voltregà e decidiu sair. Guillem demonstrou ser, para mim, o melhor guarda-redes do mundo e, com a sua experiência, é um guarda-redes ainda mais seguro do que antes. Trabal é daqueles apaixonados pelo hóquei e a sua cabeça só pensa em hóquei.

Trabal é daqueles apaixonados pelo hóquei e a sua cabeça só pensa em hóquei.

Para mim uma das qualidades do Trabal é que gosta de ensinar. Fui a alguns campus com ele e diverte-se a ensinar. No ano passado estive a ver um treino de miúdos, porque ele fazia de professor de guarda-redes, e apercebi-me que o que ele estava a ensinar nunca tinha visto em nenhum treino de guarda-redes. Actualmente, um guarda-redes, com as regras que temos, é 80% da equipa.

HPT: Depois foste seleccionador da Catalunha no Mundial B de Macau. Que significou esta conquista e depois a recusa das autoridades de participarem no Mundial A?

JC: Vou explicar de uma forma diferente. Nós sentimo-nos catalães, sentimo-nos como um país. O facto de estar com a selecção permitiu-me ir a quatro mundiais entre A e B, porque a Catalunha sempre quis ajudar os outros países. Quantas mais equipas de topo existem, mais competição existe e atrai mais público. Um campeonato do Mundo A não pode ter sempre as mesmas selecções. E as que ficam no B também não podem ser sempre as mesmas. Quando vais a um Mundial B é diferente, são pessoas que vão disfrutar do Campeonato. Algumas selecções lutam para subir mas a maioria vai para se divertir. Os B são Mundiais em que 12, 16 equipas vão viver uma festa, uma festa para todos. Estive no Mundial de Vigo com o Brasil e ficámos em quarto lugar. Os únicos que no fim entraram na pista foram Espanha, Argentina e Portugal. As outras selecções eram figurantes, não significaram nada. Perguntas às pessoas e isso não agrada a ninguém. O mínimo que podiam fazer era como no Mundial B, com cerimónia de abertura e de encerramento. Saíram as três e adeus, as outras vão para casa. É feio e combinamos que isso não voltaria a acontecer. Mas fomos à Argentina e foi exactamente a mesma coisa, com a diferença de que Portugal não apareceu porque estava zangado porque tinha sido prejudicado na meia-final… Ok, ganhou a Argentina que não merecia… mas o desporto é assim.

Em pleno caminho para o referendo de 9 de Novembro, a selecção da Catalunha de hóquei em patins surgiu com uma camisola com uma mensagem clara: "Catalans Want To Vote" [ndr: os catalães querem votar]. [Foto: OKPatins.com]

HPT: Na altura, a comitiva portuguesa disse que não ouviu a chamada…

JC: Sim, mas toda a gente sabia que não foi por isso. Explica-me o que significa um Mundial com todas as selecções mas sem poderem entrar na pista? As pessoas queixaram-se e um elemento da FIRS disse-me que isso ia mudar e no fim… Espanha e Argentina. Quando vives uma situação destas, o que queres é ajudar todos os países a estar no Mundial A. A prova é que ajudámos um pouco o Chile com a selecção feminina e fomos campeões do Mundo. Fomos com o Brasil e ficámos em quarto lugar. Fomos com o Chile e ficámos em sexto. A África do Sul estava no Mundial B e agora está no A. A Colômbia estava no B e sobe ao A.

Queremos hóquei competitivo em todo o mundo. Há países que querem mas não podem. E não falamos de ajuda monetária, queremos ajudá-los com treinos, com maturidade. Quando conquistámos o Mundial B e éramos oficiais, aquilo para nós foi o culminar de um sonho, de poder ir ao A, mas sabíamos que não dependia de nós. Também foi evidente que, quando a Catalunha foi ao Mundial B, a potência era diferente, respeitávamos sempre os adversários. Quando ganhas por 30-0, ninguém ganha. Lembro-me que quando chegámos a Macau os adversários nos olhavam de lado. Perguntavam, “o que estão estes a fazer aqui?”, mas como éramos oficiosos podíamos ir. Não lhes agradava. Chegávamos ao pavilhão e ficávamos sozinhos. As outras selecções estavam mais ou menos juntas e nós sozinhos. Ao terceiro dia as pessoas já se aproximavam porque viam que queríamos ajudar e ensinar. E quando terminou o Mundial fizemos a festa todos juntos. Eu estive em Mundiais A para ajudar o Chile, o Brasil, África de Sul, Colômbia, Moçambique... para que melhorassem. Quando fomos ao B eu colaborava com Israel, Austria... as pessoas pensavam, “se vem a Catalunha não ficaremos em primeiro, nem em segundo”. Eu acredito que se todas as equipas se ajudassem faríamos mais pelo desporto. Se calhar somos o que somos, e não somos Olímpicos, por coisas como estas, porque são sempre quatro ou cinco equipas à frente e já está. Estávamos lá a representar a nossa camisola mas também para mostrar às pessoas que trabalhando bem, o hóquei pode chegar a mais países.

Em 2009, o Brasil discutiu o terceiro lugar com Portugal

HPT: Da tua experiência nesses países, como está o hóquei no Brasil e em África?

JC: O Brasil e a Colômbia talvez tenham uma coisa que a África do Sul não tem: participantes, mais infra-estruturas e mais clubes. Na África do Sul o problema são as Colónias. Na colónia portuguesa há equipas, na colónia holandesa há uma equipa e na colónia inglesa não há. Há poucas infra-estruturas. Mas posso dizer que Brasil, Colômbia e África do Sul, por motivação e vontade, mereciam mais, porque quando vais a estes países percebes que os jogadores daqui não dão valor ao que têm. Eu vi um presidente a reparar uns patins. Tira umas rodas daqui, outras dali para que possam patinar, a reparar um patim com um prego, a colar um stick com cola para que possa ser utilizado outra vez. Nós não passamos por isto, vamos a uma loja e compramos. É impressionante a vontade com que estas pessoas treinam. Quando estava na Colômbia, em Cali, treinávamos das 6h30 da manhã às 9h30. O sol a partir das 10h era impossível e as pistas são descobertas. À noite treinávamos das 19h até à meia-noite e os jogadores vinham todos. Aqui tentas fazer isso e dizem que és maluco. As pessoas não viriam treinar. Lá todos, dos 10 aos 30 anos, têm uma motivação e vontade de aprender incrível. São felizes com pouca coisa, e aqui, os europeus, têm tudo e não dão valor. Deveriam ir àqueles países e ver a realidade, e ajudar com alguma coisa, por exemplo treinos... a verdade é que sais de lá com uma sensação de plenitude por teres ajudado.

São felizes com pouca coisa, e aqui, os europeus, têm tudo e não dão valor.

HPT: Agora de novo na Catalunha. Houve problemas com a mensagem nas camisolas da selecção…

JC: Acho que não vai acontecer nada porque agora a Catalunha está num momento de crispação e eu acredito que isso em vez de ajudar coloca mais problemas. Pelo que dizem os políticos, em 2015 vai acontecer alguma coisa, e se tivermos de estar sozinhos, estaremos. Estávamos felizes pelo facto de estarmos a jogar. Porque afinal o que fazemos é jogar. Queríamos fazer um torneio, convidámos duas equipas que íam disputar o Europeu e tudo bem. Apenas queremos jogar. A política é para os políticos.

A "sua" Catalunha

HPT: Quais são agora os objectivos da selecção catalã?

JC: Continuar o trabalho que temos feito até aqui e ajudar alguns países. É ano de Mundial e há selecções que nos contactaram. Vamos fazer o maior número de jogos possível, ainda que sejam amigáveis. E depois logo se vê o que acontece no país, a ver se saímos ou não, o que acontece na política e no desporto.

HPT: Surpreendeu-te o convite do FC Barcelona?

JC: Sim. Estava no Tordera e este ano queria descansar um pouco. Depois de 18 anos a treinar sem interrupções, queria parar e fazer outras coisas e descansar. Ainda que todas as segundas e terças vá treinar, fazendo especificações de sub-13 e sub-15 nas províncias. Corrigimos pormenores que não se conseguem trabalhar no clube. O convite do Barça trouxe-me um projecto novo: fazer, com uma equipa de juniores e dois seniores, o campeonato de juniores e a primeira divisão nacional espanhola. Claro que é complicado, porque a primeira divisão nacional é exigente e disputá-la com juniores, juvenis e dois seniores é complicado. Mas gosto muito de trabalhar com jovens e perguntei à Federação de podia fazer as duas coisas. Segundas e terças estou com a selecção e quartas, quintas e fins-de-semana estou no FC Barcelona. E, até ao momento, estou muito satisfeito a trabalhar com os jovens para ver se algum consegue chegar à primeira equipa ou então se conseguem jogar numa equipa da OK Liga.

HPT: Ambicionas voltar a treinar uma equipa sénior, num clube?

JC: Não sei. Quando me pedem conselhos, eu digo sempre a mesma coisa. Nunca o faças por dinheiro, ou porque és jogador e por mais 100 euros treinas uma equipa, ou porque o teu filho joga no clube e queres treinar e, principalmente, não o faças se não tens muita vontade porque, ainda que seja apenas um ano, custa muito a passar quando fazemos uma coisa sem vontade. Os jogadores têm um sexto sentido para perceberem como está o treinador. Se estás bem, o treino corre bem, eles vêm que trabalhaste em casa. Agora, se vêem que chegas com as mãos nos bolsos... digo sempre que é preciso ter muita paixão por aquilo que vais fazer.

Quando me perguntas se quero treinar uma equipa sénior só te posso responder que depende do desafio, do projecto, da equipa. Se for um projecto que me desafie, a resposta é sim, mas nunca porque me vão pagar mais. Tive convites para treinar o ano passado e de um clube que provavelmente me pagaria mais do que o FC Barcelona. Mas treinar uma equipa que não me desafie, nunca! Porque ao segundo treino de certeza que me chateio com eles e aguentar um ano é difícil. Talvez aceitasse se não tivesse um trabalho fora do hóquei mas, se puder, nunca o farei porque acho que não funciona. Gosto de trabalhar e fazê-lo com alegria, mudar exercícios, sistemas, faltas para me obrigar a trabalhar. Inclusivamente, desde que treinei o Voltregà na OK Liga, que tenho arquivos de todos os planos de treino, jogos, o que disse aos jogadores. É uma informação que é importante e gosto de ter tudo por escrito. Durante as férias revejo o que fiz, o que disse, e faço-o - não porque me pagam - mas porque gosto. E no FC Barcelona tenho a oportunidade de trabalhar com jovens. Manter a equipa na Primeira Nacional é um projecto difícil e desafiante. E estou muito satisfeito porque os miúdos trabalham e assim tens vontade de trabalhar também.

Sergi Llorca, melhor marcador da equipa "B" do Barcelona

HPT: Os teus filhos também jogam?

JC: Um é guarda-redes do Vilafranca e outro guarda-redes dos Sub-17 do Tordera.

HPT: Dois filhos guarda-redes?

JC: Sim. Gerard, que está no Vilafranca, tem 21 anos e esteve com as selecções jovens de Espanha. É guarda-redes porque o Guillem Trabal lhe emprestava as luvas muitas vezes, ou pedia que lhe chegasse o capacete e com essas pequenas coisas começou a querer jogar. Teve a sorte de estar numa boa equipa e que ganhava campeonatos. Como a equipa era boa, todos os jogadores davam nas vistas. Há dois ou três anos que o meu filho mais novo também está numa boa equipa e agora vejo-o evoluir. Quando tens bons companheiros tu também evoluis.

Ensinei os dois a patinar mas sempre pela vertente da patinagem artística. Vês um português a patinar e ficas deslumbrado porque gostas da forma como patina. Sem stick, porque com stick temos de falar dos argentinos. A patinagem dos espanhóis é muito brusca. Se puséssemos muitos jogadores da OK Liga a patinar, veríamos que na verdade não têm estilo nem coordenação. O meu filho Gerard já jogava e mesmo assim treinava a patinagem. O mais novo jogava nos mais pequenos e um dia perdeu por muitos golos. No fim, quando saiu do balneário, disse-nos que queria ser guarda-redes. Na minha opinião, o que está no Vilafranca é muito rigoroso. Está sempre a ver vídeos sobre jogadores, como jogam, como rematam. Mesmo que os conheça vai observá-los. Preocupa-se, fica ansioso. O mais novo é mais feliz, diverte-se mais. O ideal era ter um guarda-redes com as melhores qualidades de cada um. Ambos são felizes mas é uma felicidade diferente. E da maneira que o hóquei está, ter um bom guarda-redes significa estar nos lugares cimeiros.

Estás feliz? Sim? Isso é o mais importante.

HPT: És muito crítico com eles?

JC: Não. Se pedem a minha opinião, digo-lhes. Quando fui treinador deles - treinei o mais velho cinco anos e o outro dois – era muito exigente. Sou treinador e eles entendem isso. Chamam-me Jordi em vez de pai e sou muito exigente como sou com o Blai [ndr: guarda-redes júnior do FC Barcelona], sou exigente com todos. O meu pai sempre me disse: quem gosta de ti, vai fazer-te chorar. Agora, que não os treino e me pedem a opinião, tenho a vantagem de que os dois sabem quando estiveram mal. E no fim de tudo pergunto-lhes: “Estás feliz? Sim? Isso é o mais importante”. Não consegues trabalhar se não estás contente.

Inline content
Ficha Técnica
Estatuto Editorial
Contacte-nos
BackOffice
Política de Privacidade