Entrevista

Rui Gamboa ainda quer jogar

Jun 07, 2014

Os Tigres sagraram-se no passado fim-de-semana campeões da II Divisão com uma vitória na Póvoa por 8-10. Rui Gamboa, treinador-jogador, foi um dos principais obreiros desta conquista mas já é conhecida a sua troca por Pedro Nifo no comando técnico dos almeirinenses para a próxima época. A decisão passou por Gamboa, que prefere regressar ao papel de jogador a “tempo inteiro”.

HóqueiPT: A entrada de Pedro Nifo foi conhecida ainda antes do jogo decisivo. Qual foi a tua participação na escolha?

Rui Gamboa: Desde logo, foi uma decisão minha não continuar como jogador-treinador. Quis optar por ser só jogador e tinha de se arranjar um treinador, porque eu também não tenho nível 3 [ndr: obrigatório na I Divisão]. Houve uma altura da época – após a derrota em Alenquer – em que se falou que para o ano eu não ia ficar. Mas foram ideias com a cabeça quente e depois as coisas acalmaram e contavam comigo para a próxima época.

Jogador-treinador n’Os Tigres.

Por isso, na hora de decidir entre uma coisa ou outra optei por ficar como jogador. É muito difícil, quando se está a fazer duas tarefas, conseguires aplicar-te a 100% em ambas. Para fazeres bem de jogador não fazes bem de treinador e vice-versa. Acho que a I Divisão é muito mais exigente e acho que era ser egoísta querer ficar com as duas funções quando sei, pela experiência deste ano, que não conseguia desempenhar bem as duas funções. Foi para o meu bem e do clube. A I Divisão tem mais trabalho, a margem de erro é muito mais reduzida e, assim, optei por ficar só como jogador.

Reunimos já depois de consomada a subida e, apesar de não conhecer o Pedro Nifo pessoalmente nem o trabalho desenvolvido por ele, no nosso núcleo duro algumas pessoas já trabalharam com ele e conhecem-no. Considerámos que reunia condições para pegar neste grupo que considero especial e fazer um trabalho competente, bem estruturado e com pernas para andar. A ideia que me transmitiram é que é uma pessoa que ouve muito os atletas, não é um treinador de ideias fixas, e foi também por aí que se tomou a decisão de avançar.

Estava sempre muito compenetrado e a carga que tinha em cima era muito maior do que só como jogador. Estás preocupado com mil e umas coisas. Estás a jogar, estás a analisar, tens de estar a ver quem é que está cansado, olhar para o banco e ver quem vais pôr… tudo ao mesmo tempo enquanto o jogo está a decorrer.

HPT: Estiveste na temporada em que Os Tigres desceram. Agora estão mais preparados?

RG: É uma pergunta difícil de responder porque o plantel ainda não está fechado.

Há mais um pouco de experiência e mais um pouco de estabilidade em termos de jogadores. Há mais estabilidade porque a maior parte dos jogadores já se mantém há duas épocas e, se calhar, para o ano vão ficar n’Os Tigres, enquanto que, da III Divisão para a II e depois para a I, era praticamente saem dez, entram dez. E, mesmo entre os dois anos na I Divisão, nem o treinador ficou. O único que ficou foi o João Silva. E agora as pessoas já estão mais sensibilizadas e haverá alguma estabilidade em termos de jogadores. Estes já conhecem a casa, já sabem o que é a estrutura d’Os Tigres e isso, parecendo que não, já dá uma maior consistência à equipa.

Não são dez jogadores novos que se juntam e “vamos lá formar uma equipa”. O ano passado com o Hugo Gaidão, eu estava parado há um ano, o Filipe Gaidão já não jogava há três ou quatro anos, o Tiago Monteiro também estava parado, veio o Ricardo Antunes do Porto Santo… foi uma junção de dez jogadores e demora até fazeres uma equipa e começar a engrenar e é complicado chegares a um cinco titular. Acho que pelo menos essa parte está ultrapassada e as pessoas estão um bocado mais consciencializadas dessa situação.

Rui Gamboa tem 37 anos e iniciou a sua carreira no Sporting, onde jogou entre os 6 e os 18 anos, até o clube se decidir pela extinção da secção em 1995.

HPT: Esta época como treinador-jogador foi saturante?

RG: Foi muito desgastante. A estrutura do clube não era suficiente.

O facto de estarmos sempre com a casa às costas pesou muito. Para treinar em casa temos de fazer 100km e, para não haver desgaste com a distância, tentávamos arranjar treinos na zona de Lisboa. E nem sempre era fácil conciliar treinos com outras equipas.

Encontrámos sempre equipas teoricamente mais fracas do que nós e, para evoluir, tenho a convicção de que temos de treinar sempre com alguém da nossa fasquia ou mais elevada. Mas nós precisávamos de treinar e tentávamos respeitar os adversários e dar o nosso melhor, sabendo que nos estávamos a treinar. A outra equipa também agradecia porque, de certa forma, treinava com uma equipa mais evoluída.

Mas senti muito a falta de apoio a nível estrutural, que me faz despender mais energias para combater essas situações do que propriamente a treinar como jogador ou treinador. Se houvesse uma estrutura mais forte à minha volta e, porventura, também um plantel mais homogéneo, até podia dedicar-me mais à parte de treinador e deixar mais a parte de jogador. Mas vejam o último jogo… só tínhamos quatro jogadores de campo e tive de assumir. Ao longo de quase toda a época tive sempre um castigado ou um lesionado e raramente dava para eu sair para o banco muito tempo porque não tínhamos outras opções para entrar.

Este foi o segundo título da II Divisão para Rui Gamboa, depois de em 2008 ter conquistado o campeonato ao serviço do Oeiras.

HPT: A relação com os teus colegas mudou?

RG: Tenho amigos e colegas que já o eram antes de ser treinador. Uma das dificuldades que tive foi conseguir que olhassem para mim dentro da pista e largassem aquela amizade para deixarem de olhar para mim como colega e me encararem como treinador. Foi um desafio porque é uma linha muito ténue e as pessoas confundem. Quando tinha de reclamar, protestar com eles e exigir mais deles, exigia. E eles, às vezes, faziam carinha feia mas acabavam por entender e davam-me razão.

Mas também tenho uma relação muito próxima com eles porque no tempo que perdíamos em deslocações para irmos aos treinos - uma hora para cada lado para irmos a Almeirim - a equipa uniu-se muito. Vamos numa carrinha, nove, dez homens juntos, sempre na brincadeira, sempre na palhaçada. Há alturas boas e más mas isso une o grupo. Por exemplo, quando estava no Benfica só via os meus colegas quando ia treinar e depois, na vida cá fora, quase que não havia relação. Eu conheço a vida profissional e pessoal do Hugo Lourenço, como todos os outros sabem a minha. Criou-se ali uma família e não aquele ambiente só de jogadores que só se juntam para treinar ao final do dia.

Antes d’Os Tigres, Gamboa representou para além do Sporting, o Paço de Arcos, o Benfica e o Oeiras.

HPT: O facto de seres treinador-jogador tornou este título especial?

RG: Sim. Para mim são dois títulos. É o título de jogador e o título de treinador logo no ano de estreia, que é óptimo. Depois também soube bem pela carga emocional que me tinham retirado de cima quando o objectivo da subida foi alcançado. Foi excelente. Até comecei a dormir melhor e tudo. Tirando a pressão da subida, foi tudo muito positivo e juntar o título de campeão nacional foi ouro sobre azul.

HPT: Foi a tua primeira experiência como treinador?

RG: Foi a minha primeira experiência como treinador oficial. Na universidade fui um dos fundadores da equipa de hóquei do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL). Eu e mais dois colegas formámos a equipa do ISEL e fomos bicampeões universitários. E essa foi a minha primeira experiência como treinador mas não tem nada a ver. Na altura ainda nem sequer tinha nível 1. Isto foi muito mais a sério, com outra projecção, com outras responsabilidades. Mas foi muito bom.

HPT: Procuras seguir o modelo de algum treinador em particular?

RG: Tive dos melhores treinadores que existem em Portugal. Acho que se uma pessoa vê algo bom e que se está a fazer bem, deve-se imitar. Passei pelo Paulo Batista, Carlos Dantas, Paulo Garrido e aprendi muita coisa. Eles têm as suas teorias mas eu também tenho as minhas ideias. Tentei retirar o melhor de cada um e depois adaptá-lo a mim e ao grupo que tenho.

Na Luz. Rui Gamboa marcou reencontro com a I Divisão em 2014/15.

HPT: Vês-te como treinador um dia mais tarde, quando deixares de jogar?

RG: Se me perguntassem isso há cinco anos atrás, nunca me passava pela cabeça ser treinador. Sempre pensei que, para não me chatear, terminava e ia ser daqueles que nunca mais ia ver jogos ao pavilhão.

Entretanto surgiu a oportunidade de tirar o nível 1 mas nunca me passou pela cabeça seguir carreira como treinador até esta época. Como jogador já só consigo estar um ano ou dois ou três e como treinador tenho o resto da minha vida para desempenhar a função.

Se agora tenho de optar, e sei que em termos de vida útil como jogador só tenho um par de anos, vou desfrutar.

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