Um Lobo 'mau' roubado ao Hóquei em Patins

Este sábado, Portugal está de luto por António Lobo Antunes, que faleceu aos 83 anos. Figura maior - um 'gigante' - da literatura portuguesa e mundial, não media a sua opinião, não deixava nada por dizer. Como a sua paixão pelo Benfica, onde, como o pai, jogou Hóquei em Patins.

Um Lobo 'mau' roubado ao Hóquei em Patins

Esta quinta-feira, faleceu, aos 83 anos, António Lobo Antunes. E, este sábado, Portugal cumpre um dia de luto nacional pelo escritor, "gigante" da literatura portuguesa e mundial. Mas também por uma alma que se libertou em vida.

António Lobo Antunes alcançou um estatuto ímpar. Dava a sua opinião de forma crua, sem freio, sem rédeas do politicamente correcto. Um estado de "estou-a-cagar-me-para-se-gostam-ou-não-ismo" invejável. Dizia o que queria, escrevia o que queria.

"Porque pensam que eu escrevo? Para incomodar o maior número de pessoas, com o máximo de inteligência", declarara Agustina Bessa-Luís, de quem Lobo Antunes era confesso admirador e assumido amigo, e com quem partilha um patamar a que poucos chegaram ou ousarão chegar. E, na sua sinceridade incontida, Lobo Antunes incomodava porque as pessoas esperam conforto não esperam honestidade.

Como quando afirmava - na sua paixão pelo futebol que se foi perdendo - que não era da selecção nacional, era do Benfica. Afinal, não se escolhe o país onde se nasce, mas o clube sim. Bem, mais ou menos.

António nasceu em Benfica, filho de João Alfredo Lobo Antunes, jogador de Hóquei em Patins do Benfica no pré-II Grande Guerra, de antes de haver campeonatos nacionais.

Quando António nasceu, em 1942, Portugal ainda não tinha sido campeão do Mundo. Seria cinco anos depois, catapultando a popularidade da modalidade, e foi por essa altura que o pai o ensinou a patinar. "Graças às suas lições com cinco ou seis anos eu já patinava muito bem, aos catorze ou quinze anos andei pelo Futebol Benfica e pelo Benfica depois, trouxe-me um stique óptimo de Inglaterra mas acabou-me com as proezas desportivas porque eu não estudava, deram-me ganas de o estrangular mas não me atrevi", escreveu numa das suas crónicas da Visão.

Sem a "distração" do Hóquei em Patins, António Lobo Antunes tornou-se médico psiquiatra. Terá tido casos que o moldaram. Que forjaram o seu carácter. Que o libertaram. Mas nunca esqueceu, na memória do pai, a modalidade. "Uma das minhas glórias secretas, confesso-o agora, consiste em ter visto a fotografia do meu pai no balneário do hóquei em patins do Benfica, de ele ter estado no Campeonato da Europa de 1936, em Estugarda, com vinte ou vinte e um anos, e de brincarmos com uma caixa de lata cheia de medalhas, a que o meu pai não dava importância alguma e eu considerava inestimáveis", escreveu noutra crónica.

De facto, não se encontram registos - mas iremos à procura... - de um Lobo Antunes internacional, ou da presença de João Alfredo nesse primeiro Mundial de Hóquei em Patins, mas escasseiam informações da época. E muita da História da modalidade é feita de memórias que se vão perdendo. Em 2008, em entrevista A Bola, diziam-lhe que o Hóquei ia "definhando". "Naquele tempo, até os treinos enchiam os pavilhões. Havia aqueles relatos pela rádio. O Amadeu, o Artur Agostinho, que relatavam muito bem", respondeu.

António Lobo Antunes partiu. Já eterno pelo que deixou escrito, eterno pelo que deixou dito.

Que se fodam agora as homenagens.

Obrigado, António.

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