Deixámos a semente do Hóquei em Patins em Santo Tirso?

Anónimo(a)

No rescaldo da Elite Cup, uma reflexão sobre a perda de oportunidade de um momento de eleição de Hóquei em Patins em 'terra virgem'. À margem da competição, o que (não) foi feito para cativar jovens atletas, e o que pode - e deve - ser feito em eventos futuros? Estaremos a tempo?

Deixámos a semente do Hóquei em Patins em Santo Tirso?

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10 jogos. Os melhores jogadores do Mundo. Quatro dias de Hóquei em Patins em Santo Tirso.

Jogos com mais de metade do pavilhão por encher.

E, no final destes quatro dias, fica uma pergunta que me inquieta: o que fizemos para que houvesse novos miúdos e miúdas interessados em experimentar a modalidade neste concelho?

Este desabafo não é sobre a parte desportiva. Essa, na minha opinião, é precisamente o que ainda salva o Hóquei em Patins em Portugal. Joga-se muito bem. Os treinadores e, por consequência, os jogadores estão muitíssimo bem, sobretudo tendo em conta os desenhos terríveis das competições desportivas. Mas não me vou alongar sobre este tema.

O que me preocupa é o futuro da modalidade. Ou, melhor dizendo, a falta de preocupação com esse futuro.

Lamentamos não ter muitos atletas novos, mas o que fazemos, verdadeiramente, para que isso mude?

Aproveitamos os grandes eventos, realizados em concelhos onde o Hóquei em Patins ainda não tem expressão, para divulgar a modalidade, angariar novos atletas, adeptos e até patrocinadores?

A Elite Cup em Santo Tirso, o Mundial no Paraguai e, ao que se fala, o próximo Mundial em Hong Kong. Só quem não tem uma visão de promoção da modalidade, que bem precisa dela, é que não percebe a importância de levar o Hóquei em Patins a locais onde ainda não é praticado.

Mas é precisamente o que acontece durante estes eventos que me preocupa imenso.

Não estive no Paraguai, mas vou falar da realidade que conheço: a Elite Cup em Santo Tirso. E poderia falar de outras competições a que já assisti, como a Final Four da Taça de Portugal ou a Final Eight da Champions League.

Será que estas competições não são uma excelente oportunidade para aproximar o Hóquei em Patins de quem nunca teve contacto com a modalidade?

Será que, neste caso, os alunos das escolas de Santo Tirso não poderiam ter recebido um convite para assistir aos jogos, acompanhados por um adulto?

Vimos jogos com o pavilhão praticamente vazio. Talvez essa fosse uma boa forma de o encher. Mas, para mim, esse nem sequer é o principal objetivo.

Precisamos de novos atletas. Urgentemente.

E é aqui que me parece que estamos a falhar.

Imaginem o que poderia ter sido feito.

Na quarta-feira, um ou dois atletas de cada clube deslocavam-se a uma escola do concelho. Levavam o seu material, explicavam um pouco o que é o Hóquei em Patins e entregavam convites para os jogos.

Depois, chegava a parte que considero verdadeiramente importante.

Ao redor do pavilhão, tinha de se respirar Hóquei em Patins.

Balizas, sticks, bolas, um mini-campo e, se possível, patins. Jogadores, ex-jogadores, treinadores de formação. Pessoas disponíveis para mostrar, explicar e, sobretudo, deixar experimentar.

O miúdo ou a miúda que fosse assistir a um jogo, provavelmente pela primeira vez, tinha de ter a oportunidade de marcar um golo, fazer uma defesa, calçar uns patins e sentir o que é jogar Hóquei.

Quem sabe se não sairia dali com vontade de voltar? Ou até de pedir uns patins aos pais?

Porque uma criança pode gostar de ver um jogo. Mas é quando experimenta, quando sente a bola no stick, quando consegue marcar um golo ou fazer uma defesa, que pode nascer algo muito mais importante.

Não basta mostrar o Hóquei. Temos de dar às crianças a oportunidade de o experimentar. Temos de as conquistar.

Quem ficaria responsável por organizar tudo isto?

Não sei. A Federação de Patinagem de Portugal? A associação a que o concelho pertence? Os clubes mais próximos? Uma empresa?

Não tenho uma resposta fechada. Mas tenho a certeza de que esta questão tem de ser pensada e discutida por todos os que se preocupam com o futuro da modalidade.

Volto a dizer: estou completamente de acordo que estas competições saiam dos pavilhões tradicionalmente fortes no Hóquei em Patins. Até acho que deviam sair ainda mais vezes.

Mas, se vamos levar o melhor Hóquei em Patins do Mundo a estes locais, temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para deixar lá a sua semente.

Tenho a certeza de que, nestes quatro dias de Elite Cup, com estes dez jogos, não angariámos nenhum atleta novo para a modalidade. E, se aconteceu, acredito que não terá sido fruto de um esforço direto e organizado da nossa parte.

E é isso que me custa.

Porque não podemos continuar a lamentar a falta de atletas enquanto desperdiçamos oportunidades tão importantes para os conquistar.

Não podemos continuar a dizer que o Hóquei em Patins está vivo e a crescer quando sabemos que a realidade é bem diferente.

Temos uma modalidade em risco de perder o seu futuro. E, se isso acontecer, não poderemos dizer que não sabíamos.

Ainda vamos chorar muito por não termos aproveitado o que poderá ter sido um dos melhores períodos do Hóquei em Patins de clubes em Portugal.

Temos grandes jogadores, grandes treinadores e um nível de jogo extraordinário.

Temos uma modalidade que, quando é vista, consegue apaixonar.

Mas não chega jogar bem.

É preciso que as crianças tenham a oportunidade de ver. De experimentar. De se apaixonar.

E, acima de tudo, é preciso que alguém se preocupe em criar essas oportunidades.

Esta é apenas uma pequena ideia, entre dezenas que certamente existirão.

Não escrevo isto para apontar o dedo a alguém em particular.

Escrevo porque acredito que todos nós, de alguma forma, temos responsabilidade no futuro da modalidade.

E porque me custa ver oportunidades como esta passarem sem que se faça tudo o que poderia ter sido feito.

Façamos todos alguma coisa pelo Hóquei em Patins.

Mas, acima de tudo, façamos alguma coisa pelas crianças que ainda não o conhecem.

Pelos miúdos e miúdas que ainda não sabem que podem vir a apaixonar-se por esta modalidade.

Pelos que ainda não tiveram a oportunidade de calçar uns patins, pegar num stick e sentir o que é jogar Hóquei.

Porque o futuro da modalidade não se constrói apenas com grandes jogadores, grandes competições ou pavilhões cheios.

Constrói-se também com as pequenas oportunidades que damos a quem ainda não faz parte dela.

E talvez a pergunta que devêssemos fazer no final de cada grande competição não fosse apenas quantas pessoas assistiram aos jogos. Talvez devêssemos perguntar:

Quantas crianças descobriram o Hóquei em Patins?

Quantas tiveram vontade de experimentar?

Quantas poderão vir a ser os atletas de amanhã?

Em Santo Tirso, tivemos quatro dias, dez jogos e alguns dos melhores jogadores do Mundo.

Será que deixámos alguma semente? Ou será que, mais uma vez, nos limitámos a assistir ao presente, esquecendo-nos de construir o futuro?

Estamos acomodados.

Mas o Hóquei em Patins não vai durar para sempre apenas porque gostamos muito dele.

E, quando percebermos isso, talvez já seja tarde demais.

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