Opinião

A individualização do desporto coletivo

Aug 05, 2014
Joao Simoes

João Simões é o treinador principal do HC Turquel desde 2011, depois de já ter estado à frente dos destinos dos "Brutos dos Queixos" anteriormente. Neste regresso, logrou logo no primeiro ano uma muito ansiada subida, consolidando nas duas últimas épocas os alvinegros na I Divisão com um nono e, na época que findou, um sexto lugar.

Como treinador preocupa-me a individualização do desporto colectivo.

Encontramos vários estudos que pretendem descobrir os motivos que levam os jovens à prática desportiva (Serpa, 1991), sendo o papel da motivação determinante nestas escolhas (Brito, 1994) e reconhece-se que as motivações intrínsecas são mais duradouras e persistentes (Carreiro da Costa et al, 1998). De um modo geral, os jovens revelam motivos semelhantes no envolvimento na prática de actividade física (Serpa, 1991). As mais valorizadas são: a) Estar em forma; b) Fazer amizades; c) Melhorar capacidades; d) Trabalhar em equipa (Rego e Dias 1995).

Quando olho para trás e faço um balanço acerca da importância que a prática desportiva teve na minha vida e na formação da minha personalidade destaco claramente as a) amizades que construí, pois o desporto colectivo é um contexto assente na dinâmica de grupo que está envolvido de uma carga emocional muito instável e intensa e que nos permite conhecer muito bem as pessoas com as quais convivemos, b) a valorização da organização e gestão do tempo de forma a conseguir conciliar a escola com os treinos/jogos e demais actividades próprias de uma criança/jovem, c) o desenvolvimento do espírito de sacrifício no sentido de superar as minhas dificuldades técnicas, sociais e emocionais próprias de um praticante em formação, d) a capacidade de lidar com a adversidade, sendo também aqui o desporto um contexto muito fértil uma vez que nos obriga a conviver com a derrota, injustiça, o erro, etc.

Entristece-me hoje que a prática desportiva, tal como a sociedade em geral, esteja enquadrada em pressupostos e critérios de avaliação/selecção cada vez mais individualizados. É muito frequente vermos atletas, pais e, infelizmente, alguns treinadores centrarem os benefícios da prática desportiva da criança e jovem apenas no desempenho, no tempo de jogo, no resultado e na classificação. Como se, no desporto, para que seja bom e faça bem às crianças e jovens, todos os seus intervenientes tenham de ser excelentes executantes e jogadores de eleição. Vão existir sempre crianças e jovens mais evoluídos como jogadores do que outros, uns por razões inatas físicas ou técnicas, outros devido a diferentes ritmos de aprendizagem e outros mesmo porque em termos emocionais não têm índices de motivação e competitividade muito altos.

Muito mais do que a simples exercitação do físico, a prática desportiva de um desporto colectivo é fundamental para todos, mesmo para aqueles que são menos utilizados pelos treinadores, que falham sempre os golos de baliza aberta e para os que cometem sempre erros individuais que fazem com que a equipa sofra golos. Todos estes, tal como todos os mais hábeis, devem, durante o seu percurso desportivo, sentir que fazem parte de um grupo, que gostam dele e o aceitam como ele é, e que são um membro importante dentro desse grupo. Devem aprender que o esforço e a dedicação normalmente resultam na aprendizagem e na evolução e que não se pode desistir (tal como fazem na Playstation quando perdem 2-0 e recomeçam o jogo de novo) às primeiras adversidades que, tal como na vida, serão muitas. Devem aprender a lidar e a crescer com o sucesso e o fracasso aceitando-o como consequência inevitável do percurso desportivo. Devem sentir entusiasmo no sucesso colectivo da equipa e não apenas no seu golo marcado ou na exibição individual e reconhecer que nada é mais importante do que o grupo pois é ele a razão de tudo acontecer.

É verdade que treinadores e restantes agentes desportivos têm um papel muito importante para estes benefícios resultantes de uma prática desportiva equilibrada, exigente mas alegre, competitiva mas saudável e colectiva no verdadeiro sentido da palavra mas também os pais têm a obrigação de aproveitar o contexto desportivo para complementar e contribuir para a formação integral dos seus filhos centrando a importância nos aspectos sociais e emocionais tão esquecidos cada vez mais na sociedade em geral. Acompanhem com serenidade, supervisionem à distância, reforcem a autoridade dos treinadores, motivem e incentivem na adversidade olhando para esta como uma parte inevitável da formação desportiva, dêem bons exemplos quando assistem aos jogos e avaliem de forma justa o empenho e a evolução integral dos seus filhos.

Poucos serão como o “Pedro Gil” mas todos poderão adquirir, através da formação desportiva, mais-valias fundamentais na formação do seu carácter e personalidade, aspectos estes que o desporto colectivo deve manter como fundamentais e factor diferenciador de toda a sociedade em geral.

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