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Estudos e trabalho primeiro: potencial austríaco condenado?

Jul 28, 2018

Depois de não conseguir alcançar os quartos-de-final, fruto de quatro derrotas em outras tantas partidas, a Áustria foi mais forte na luta pelo nono lugar, que acabaria por conseguir depois de um empate com a Bélgica (4-4) e uma vitória frente à Holanda por 4-5, na derradeira partida, quando até esteve a perder por 2-0.

Hagspiel foi uma excelente surpresa neste Europeu

Liderados por João Nuno Meireles, os austríacos mostraram potencial. Apesar do dono da baliza ser ainda Roman Mohr, figura nas última participações da Áustria, agora já com 34 anos, o técnico português mostrou ao Hóquei em Patins europeu alguns jovens valores. Mas que, desportivamente, estão "condenados"...

Mentalidade austríaca

"A mim dá-me pena porque alguns ainda são juniores e não vão ao Campeonato da Europa de Sub-20 este ano porque não querem. A Áustria não vai porque eles não querem", lamenta João Meireles. "Temos nove jogadores que poderiam estar no Europeu, mas estes são os melhores e podiam fazer um bom papel", refere, apontando a Jonas Fassler (16 anos), Kilian Hagspiel (18) e Sebastian Mostogl (19). "O guarda-redes que está no banco é juvenil de último ano", particulariza, referindo-se a Elias Rohner.

Jonas Fassler, que só completa 17 em Agosto, foi o melhor marcador dos austríacos

Na Áustria, o desporto não é uma prioridade. "Eles não têm essa perspectiva. A perspectiva deles é estudar, trabalhar e, depois, jogar hóquei. A cultura deles não é fazer um 'upgrade' de Hóquei, ao mesmo tempo que estudam", afirma o técnico cuja ligação à selecção austríaca vem desde 2015.

A aposta local dos clubes também não ajuda. "Há duas equipas a uma distância de 10km e optam sempre por ir buscar jogadores fora, nem falam com os juniores", explica. "O Dornbirn está na primeira divisão suíça, e joga com um guarda-redes espanhol, três outros espanhóis, e vai jogando um jogador da casa. No Wolfhurt, jogava o Mohr, que em principio deixará de jogar. Jogava ele, três espanhóis e um jogador da casa. É uma maneira de tapar a progressão aos da casa, que desanimam", lamenta.

O guarda-redes Roman Mohr

Mas João Meireles não deixa de reconhecer também alguns méritos a essa filosofia. "Não concordo, mas também não posso discordar na totalidade. Porque também é preciso gente de fora para melhorar, gente que traga qualidade. E está visto que os atletas desta selecção têm mais qualidade do que os da geração anterior", constata. "Mas depois falta a parte pedagógica, para conseguir que os jogadores da casa continuem activos e a querer estar nas equipas", ressalva.

Referências e profissionalismo

A aposta dos clubes austríacos tem passado muito por jogadores espanhóis, de um Hóquei que, a par do português, são referência, apesar da distância. "Em qualquer país, principalmente entre os mais jovens, a referência são os jogadores espanhóis e os portugueses. Não vou dizer nomes, mas eles estão sempre a falar de alguns jogadores de Espanha e Portugal. Que se revejam neles, é um pouco mais complicado...", graceja sobre o potencial, mas frisando que, em profissionalismo, os austríacos nada ficam a dever aos demais. Quiçá até pelo contrário.

Sebastian Mostogl

"Eles têm mentalidade de atletas profissionais. Não têm é o contexto para se desenvolverem como tal. É uma cultura completamente diferente, e os interesses passam mais por fazer a parte académica e trabalhar. O Hóquei vem depois, mas têm uma postura profissional. Quando estão, estão, e eu não tenho nada a apontar ao empenho e dedicação que têm durante os jogos. Outra coisa é os resultados e conseguir, em função dos adversários, fazer as coisas bem. Isso é mais complicado", suspira.

Desafio em Ourém

Depois de praticamente uma década radicado na Andaluzia, onde desenvolveu, em particular no Irlandesas, um trabalho alvo de reconhecimento, João Nuno Meireles está de regresso a Portugal. O desafio é relançar a Juventude Ouriense.

"A Juventude Ouriense já esteve na I Divisão", recorda, lembrando a temporada de 2006/07. "Veio-se abaixo, e com isso também a formação decaiu", analisa, agora com crença no novo projecto. "Há um novo presidente, interessado na formação, e vou tentar ajudar dentro das minhas possibilidades e disponibilidade, quer na formação, quer com a equipa sénior", afirma, sendo que a inscrição da equipa no Campeonato Nacional da III Divisão já foi confirmada pela FPP.

Na formação, é quase um começar de novo, numa região em que os talentos são monopolizados por Sporting de Tomar e, um pouco mais longe, Turquel. "A Juventude Ouriense está apostada em ter atletas", define simplisticamente. "Hoje em dia temos muito poucos. Sabemos que uma casa se faz com atletas, não se faz com poucos atletas e, arriscando-me a uma expressão um pouco polémica, mas da quantidade vem a qualidade. Se conseguirmos ter muitos atletas, a qualidade vem ao de cima e é esse o objectivo", aponta.

Princípios

De regresso ao Hóquei em Patins português, o técnico de 39 anos, define-se. "Tento organizar-me mediante as pessoas que tenho à minha frente. Copiar é muito fácil, mas depois... Acredito nos meus princípios de jogo, quer ofensivos, quer defensivos, e, a partir daí, trabalho com as pessoas que tenho e adapto-me às pessoas que tenho", diz. E depois de tantos anos no país vizinho, adepto do Hóquei em Patins português ou espanhol?

"Não é que joguem o mesmo, não têm o mesmo sistema de jogo. A parte criativa de Portugal, acho que se perdeu em algumas gerações e os espanhóis estão bastantes criativos, têm jogadores muito bons individualmente, no um-para-um", observa.

"Nós temos jogadores possantes e bons, - o Gonçalo, o Hélder, ... - , a Espanha tem ali também dois ou três com as mesmas características. Também há alguns jogadores de Espanha que têm muita iniciativa para o golo, da mesma maneira que Portugal também os tem, com um 'plus' com o João [Rodrigues], que dá uma alternativa magnifica. Mas, para mim, o Hóquei não é diferente", confessa. "As equipas jogam, em momentos diferentes, um hóquei diferente, mas na generalidade é muito parecido", sublinha, e aponta motivos.

"Hoje temos um misto ibérico nos clubes e, embora os treinadores de selecção sejam diferentes, há sempre alguma coisinha do clube que fica. Vê-se, por exemplo, nas acções dos jogadores do Porto, bastante evidente, dos bloqueios indirectos, e a parte do Luís Sénica, que é mais o jogo de passe, recepção e velocidade. E Espanha está na mesma perspectiva", resume.

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