Entrevista

Carlos Dantas, alma de treinador no gabinete

Sep 21, 2014
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Em Paço de Arcos, Carlos Dantas assume um novo desafio, coordenando o hóquei em patins do clube. Longe do banco mas com o treino no coração, o treinador de 60 anos concedeu ao HóqueiPT o privilégio de umas conversas sobre hóquei em patins.

Antes de um espaço de opinião no HóqueiPT muito próprio, com a irreverência e frontalidade que lhe é reconhecida, Carlos Dantas falou sobre este seu novo projecto e a sua paixão pelo treino.

HPT: Foi difícil construir esta equipa?

CD: Foi difícil porque não há jogadores. Diga-me um jogador que sirva ao Paço de Arcos. Diga-me um qualquer! Não importa se temos dinheiro ou não temos dinheiro, se pagamos muito ou pagamos pouco. Até se pagarmos muito, faltam jogadores! Onde é que estão? Não há, e cada vez vai haver menos. Repare que a maior parte das equipas está com jogadores acima dos 30 anos. Estava a lembrar-me do Diogo [Rafael] e do João Rodrigues. Depois disso há os miúdos do Valongo, mas estão muito distantes não podem vir para cá. De resto é tudo acima dos 30 anos. E, mesmo acima dos 30 anos, não os há.

HóqueiPT: Tem saudades de treinar?

Carlos Dantas: Sobretudo tenho muita vontade de treinar. Tenho muita saudade do treino. Já não tenho tanta saudade do jogo. São coisas distintas. Mas não tenho a possibilidade de treinar. É evidente que, se nesta nova fase, ao nível das categorias inferiores, vou sempre acompanhando desde que me seja possível.

No caso dos seniores, só intervenho se o treinador me pedir. É evidente que tem havido uma colaboração estreita entre mim e o Paulo [Garrido], com algumas definições que é preciso fazer. Ele ausculta a minha opinião e depois tomará a decisão que achar mais adequada. Mas tem havido uma boa sintonia nas ideias.

A ideia também é adquirir um padrão único em termos de maneira de jogar. Que as acções do hóquei sejam coincidentes. Quer dos seniores, juniores, juvenis e por aí fora. É evidente que isso obriga a estar aqui muito tempo mas eu também não tenho muito tempo para perder... Isto é, fazem-se umas reuniões, explica-se algumas situações, cada um dá a sua ideia e eles tentam incrementar exercícios na base dessa ideia.

E depois há a correcção. O grande problema dos treinadores e do hóquei em patins é que são todos iguais. Os que são melhores são os que corrigem melhor. Porque muitas vezes faz-se o mesmo exercício e alguns corrigem e outros não. Os que corrigem vão ter benefícios no futuro. E aqueles mais persistentes vão tendo vantagem sobre os outros.

Porque, se formos ver, os treinos de qualquer treinador, basicamente, com variantes de um ou outro exercício, são todos iguais. O que faz a diferença no hóquei é a persistência e a correcção. Como não vejo muita gente corrigir... esses até estão a fazer um mau serviço à modalidade. A correcção do treinador é o mais importante.

HPT: A ideia é implementar um padrão “à Paço de Arcos”?

CD: Não há padrão nenhum de nenhuma equipa. Isso é um bocado treta. Acho que cada um tem as suas ideias sobre as coisas mas não há um hóquei típico. Vejo jogar a Espanha, a Itália, Portugal e aquilo é... chapa. É tudo igual. Depois o que vai fazer a diferença é efectivamente a qualidade dos jogadores. É evidente que, quando se diz que queremos ter os padrões todos iguais e o modelo de jogo dos seniores ser aplicado aos outros escalões, depois tem a ver com a qualidade dos jogadores. Temos de ser muito mais exigentes com os jogadores seniores, que são jogadores já feitos, enquanto nos outros escalões inferiores as correcções são diferentes porque a qualidade individual dos jogadores também é diferente. Para além do modelo, tem de se definir que tipo de correcções se tem que fazer individualmente aos jogadores.

Às vezes as pessoas misturam um bocadinho a técnica com a táctica individual. Uma coisa é a táctica individual, outra coisa é a técnica individual. Nos escalões mais baixos temos de apurar a técnica e depois, progressivamente, temos de apurar a táctica individual. Juntando todos os elementos vai dar a táctica colectiva. Portanto isto tem de ser um ensinamento constante.

HPT: Porque é que não tem saudades do jogo em si?

Porque é muito stressante. O treinador é o primeiro a querer ganhar, o último a querer perder e todos os jogos são para ganhar. E eu nos últimos, sei lá, 30 anos lutei sempre para o primeiro lugar. E é um stress doido. É uma coisa de loucos. Há certamente treinadores que tanto faz andar para a direita como para a esquerda. Para mim não. Às vezes, quando ganho, é quando bato mais. E até tinha isso por lema... quando ganhava era quando batia mais. Porque devemos ter um grau de exigência com os atletas de serem sempre melhores. Não quer dizer que se atinja a perfeição. Mas cada dia tem de ser diferente para melhor. Não vale a pena passarmos aqui semanas a fazer treinos e não haver evolução nenhuma. E o jogador tem de saber isso. Tem de saber que amanhã tem de ser melhor do que hoje. É esse o lema.

HPT: E estas novas funções, novas responsabilidades, não vão ser tão stressantes?

CD: Não, eu não sou responsável por nada! A responsabilidade é dos treinadores. Eu gostaria era que eles fossem melhores. E, por isso, há aqui também uma intenção de os motivar a serem melhores.

Quando os treinadores aparecem nos escalões de formação, os mais novos, têm de ter um objectivo. E qual é o objectivo aqui? É olhar para os melhores clubes da modalidade e olhar para a selecção portuguesa. Se o treinador que começa aqui tem o objectivo de só vir cá ao fim-de-semana e olhar para o relógio para ver quando acaba o treino, então não tem objectivo nenhum. Ele tem é de dizer "eu quero tirar o lugar ao Pedro Nunes, ou ao Tó Neves. Quero ser tão bom ou melhor do que eles". Nem todos podem atingir isso mas a ambição tem de ser essa. E têm de ver evolução nos seus atletas. Se chegam ao fim do ano e não vêm evolução, podem ir dar banho ao cágado. E têm de ter orgulho na evolução dos seus meninos.

O que me parece é que há essa perspectiva do treinador mas não há bem a noção do que estão a fazer. Muitas vezes estão a aperrear os jovens hoquistas com talento, incutindo neles uma maneira colectiva de jogar. E acho que isso é contraproducente. A forma colectiva de jogar é a partir dos 15, 16 anos. Até lá o jogador tem de ser educado mas não estarmos com a preocupação de ser mecanizado. Tem de se dar liberdade aos jogadores. Mesmo nos seniores. Agora, uma liberdade em que se diga "fizeste esta acção, tentaste driblar dois ou três jogadores pelo centro do terreno... não, isso está mal. Tens de fazer é aqui onde podes individualizar e ultrapassar o teu adversário directo. Agora, estares a lutar sozinho contra quatro é impossível. Isso já não existe”. Temos de ajudar os jogadores, dando-lhes espaço. Senão deixa de haver os jogadores que desequilibram. Já há poucos…

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