Notícia

«Um Seleccionador consensual porquê?»

Oct 10, 2014
Carlos Dantas

Carlos Dantas sobre a Selecção Nacional, a necessária renovação, os critérios para a escolha do Seleccionador Nacional e o trabalho da Selecção vs o trabalho nos clubes.

Para já discordo da situação de ter de ser consensual e discordo também da situação do Seleccionador Nacional não possa ser um treinador de clube. Qual é a razão? Eu tinha 37 anos - e há jogadores muito mais velhos a jogar na I Divisão - quando fui Seleccionador Nacional. E era treinador do Benfica.

Levei aqueles que entendia. Levei o Paulo Almeida e o Zé Carlos com 18 anos ao Mundial, levei o Tó Neves com 20. Dividi o mal pelas aldeias porque naquela altura trabalhava-se bem no Benfica, no Porto e no Barcelos e a Selecção foi baseada nesses três grandes clubes. É evidente que agora é difícil ser Seleccionador Nacional, quando o Benfica tem três estrangeiros, o Porto também tem um… mas, de qualquer maneira, o trabalho de Selecção tem muito a ver com o trabalho de clube.

A Selecção Nacional precisa de mudanças

Vou dar um exemplo. A próxima Selecção Nacional... o Valongo foi campeão nacional com jogadores muito jovens e quantos jogadores do Valongo estavam na Selecção? Um, o guarda-redes. Porque realmente é o melhor guarda-redes nacional, no momento. Então e os outros? É só uma ideia...

Quando fui com essa Selecção em 1989 e depois em 2003 com a Itália também me baseei no trabalho dos clubes. Vi quais eram as equipas mais fortes, juntei os blocos e depois, conversando até com os treinadores das duas equipas mais fortes em Itália, o Prato e o Bassano, chegámos a um entendimento... e cá é exactamente a mesma coisa. Quando há dois blocos fortes - na minha opinião, agora há três com a entrada do Valongo que vai manter mais ou menos o mesmo nível - temos de nos basear no trabalho dos clubes. Até porque a determinada altura, quando se falou na minha pessoa, eu disse "pá, vocês têm uma opção muito melhor... a opção é o Tó Neves". Os principais jogadores da Selecção Portuguesa estavam no Porto, o Tó Neves só decidia recrutar dois ou três ao Benfica e tinha a Selecção constituída.

Tó Neves

E, se calhar, como falam nessa questão do treinador ser um treinador independente, é muito mais complicado... Onde é que os há? Eu não os vejo... Realmente agora há o Luis Sénica que se afastou do Benfica, mas qual era a razão para ser treinador do Benfica e não ser Seleccionador Nacional? Ou o Tó Neves ou o Paulo Pereira?

A Federação tem de pagar o ano inteiro? Não. Só pagam ao Seleccionador quando ele está em actividade. Ou então, se não acreditam num Seleccionador de clube porque estão preocupados porque leva do seu clube e não leva dos outros, é porque não acreditam na honestidade das pessoas.

Eu como Seleccionador? Não tenho ilusões. Porque tinha de ser um projecto colectivo. Vou dar uma ideia. Quando constou que dois ou três jogadores dos Sub-20, campeões do mundo de Sub-20, iam jogar na II Divisão, eu revoltei-me. Não por ser o Benfica que ia colocá-los na II Divisão. Mas a Federação, o Seleccionador, tinha de ter uma conversa de pé-de-orelha com alguém do Benfica a dizer "meus caros amigos, vocês andaram a investir nos jogadores, nós fizemos o acompanhamento na Selecção de Sub-20, fomos campeões e agora vão descer de cavalo para burro? Estes é que são o futuro”. A seguir aos Barreiros e aos Valteres, vêm agora os jogadores de Valongo com um intervalo de 8 ou 9 anos e a seguir são estes. Mas que é isto? A Federação sabendo disso, e o Seleccionador sabendo disso, não tinha de se dirigir ao Benfica? Não ia exigir nada, ia tentar de uma forma "vejam lá e tal...". Acho eu...

Valongo pode ser a chave para a renovação

Um Seleccionador consensual porquê? Não pode ser uma pessoal qualquer a pensar o hóquei assim? O que eu acho é que o Seleccionador Nacional tem de ter uma abrangência diferente. Tem de falar muito com os treinadores. Tem de ouvir as opiniões deles e depois fazer o apanhado disso tudo.

A Selecção não é uma coisa que me puxe muito... aliás, não me puxa nada. Via-me num projecto candidato à Federação mas acho que actualmente, no hóquei e na vida, é tudo muito teórico. A pessoa que fala melhor, a pessoa que expõe melhor é a pessoa que parece que é a melhor... mas não é. Na prática é que se vê. O hóquei em patins e o desporto em geral é pratica. Não quer dizer que não haja teoria. Mas é prática.

E o problema é que se eu falar assim com alguém da Federação ele diz "lá está ele, lá está ele contra nós". Não estou nada contra eles, eu estou é a favor do Hóquei. E eles ainda não perceberam isso! Mas eu digo alguma coisa contra o hóquei?

Falar de hóquei

Perdi-me na estrada. Vinha da Parede para Paço de Arcos e - não me perdi que eu sabia o caminho - mas a determinada altura na estrada havia obras e havia um desvio. E pensei "aqui mora o Honório". Lembrei-me daquele [Ernesto Honório]. Parei o carro e fui lá bater à porta. Não estava o Sr. Honório, estava a esposa dele. Não o via há mais de... sei lá. Andei por Itália e nunca mais o vi. Era um génio do hóquei que nunca foi aproveitado. A esposa deu-me o telemóvel dele e no dia seguinte fui almoçar com ele. Estivemos 5 horas a conversar. Cinco horas a falar de hóquei! A bater bolas... Era o que eu dizia ao Honório. Eu, nem que ganhe aqui zero e ganhe ali mil, a minha opinião não muda. Como não mudou fosse treinador do Benfica ou não. É evidente que um treinador do Benfica tem outras preocupações mas, e as pessoas sabem, mesmo no Benfica, que eu tive sempre esse tipo de discurso. Estes cinco jogadores que foram para o Benfica, no tempo em que eu fui para Itália, já no meu tempo podiam ter ido em juvenis. E eu não os quis. Portanto eu tenho um conceito diferente das coisas.

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