Opinião

«A bola não entra por acaso»

Mar 16, 2019
Tiago Sousa

Quando me foi proposto escrever sobre “os desafios da afirmação na I Divisão de um clube recém-promovido”, percebi que não seria suficiente basear-me na ainda curta experiência como treinador, sendo imperativo recorrer também a mais de 20 anos de experiência como atleta. E uma das primeiras conclusões a que cheguei é que a exigência de um campeonato como o português (provavelmente o melhor e mais competitivo do Mundo, no que à nossa modalidade diz respeito) já não se coaduna com o praticado amadorismo de algumas equipas.

É verdade que em Portugal poucos são os clubes que podem proporcionar as condições ideais para um atleta poder enveredar pelo profissionalismo. No entanto, os restantes clubes, se pretendem crescer e acompanhar a evolução dos tempos, necessitam de dar passos firmes no sentido da profissionalização.

A gestão dos clubes não deveria permanecer inalterada como se tem verificado nas últimas três décadas. Os clubes de hoje em dia são responsáveis pela promoção de marcas e regiões e, como tal, é imperioso que se estruturem de forma a serem cada vez mais atrativos ao investimento económico. E, como tudo isto se carateriza como sendo uma economia circular, para atrair investimento é necessário existir investimento, como em estruturas de treino, mas acima de tudo em equipas competitivas que possam promover bons espectáculos e atrair não só adeptos como patrocinadores.

Preparar a entrada num campeonato tão competitivo como o nosso implica um planeamento cuidado e bem estruturado, não só por parte dos treinadores, mas, acima de tudo, por parte da direção de um clube.

Como elemento preparatório, aconselho, a todos aqueles que pretenderem assumir a direção desportiva de um clube, a leitura da obra de Ferran Soriano (actual chefe executivo do Manchester City), intitulado de “A bola não entra por acaso”. De entre vários assuntos, aborda temas como a folha salarial de uma equipa, o relacionamento com patrocinadores, a comunicação para o exterior, entre outros temas de interesse para quem pretende dirigir um clube desportivo ao mais alto nível.

Um aspecto que me parece relevante salientar centra-se na disponibilidade que o jogador, atualmente, tem de dispor para o treino e para o jogo. Nos dias de hoje, o Hóquei em Patins já não pode (nem deveria) ser encarado como um “hobby” de final de dia. O ritmo e a intensidade do jogo têm vindo a aumentar de forma quase exponencial nos últimos anos, com o aumento da qualidade técnica e táticas dos executantes, e, por conseguinte, as exigências físicas também são mais acrescidas. Até há pouco tempo, a exigência de quatro treinos por semana era encarada como sendo mais do que suficiente para uma equipa da I Divisão. Hoje em dia, já tenho muitas dúvidas...

O “treino invisível” tem vindo a ter um papel cada vez mais importante na nossa modalidade. Preocupações com aspectos relacionados com a recuperação, nutrição, horas de sono, entre muitas outras variáveis fisiológicas, assumem grande relevância naquilo que é a preparação dos jogadores e das equipas. No número de treinos por microciclo também é necessário considerar a especificidade da nossa modalidade. O Hóquei em Patins é uma modalidade de grande complexidade técnica em que o jogador, além de dominar a bola com um aléu (“stick”), deverá ainda conseguir manter o equilíbrio numa plataforma instável, como é o caso dos patins. Portanto, como modalidade técnica que é, necessita de repetição, muita repetição, rotina... E é aqui que considero que o paradigma tem de começar a mudar.

Usando como exemplo o que se passa em Itália, parece-me que uma equipa que tenha por ambição evoluir num campeonato como o português, deve criar um “núcleo duro” de seis ou sete jogadores que tenham total disponibilidade para treinar. Por outras palavras, que abracem o profissionalismo na modalidade.

Posteriormente, poder-se-á recorrer a uma de duas soluções: dispor do apelidado “jogador-trabalhador” (que só pode treinar ao final do dia) ou recorrer às camadas jovens para completar o plantel.

A minha experiência como treinador e jogador permitiu-me verificar que quando o “núcleo duro” da equipa é constituído por jogadores que têm total disponibilidade para o treino, os restantes seguem o mesmo registo, naquilo que à intensidade e entrega ao treino respeita, aumentando a qualidade do mesmo. O mesmo se verifica na situação inversa, ou seja, quando o “núcleo duro” é constituído por jogadores que dispõem de uma vida profissional desgastante, perde-se intensidade e qualidade no treino, com resultados visíveis no dia de jogo.

Outro ponto que considero interessante prende-se com a realidade das equipas técnicas. Cada vez mais uma equipa técnica deverá ser multidisciplinar e profissional. Longe vai o tempo em que o treinador chegava poucos minutos antes do treino e, numa folha de papel (ou não) desenhava as linhas orientadoras do treino. Nos dias de hoje, preparar um treino exige método e muito trabalho.

Por detrás de um microciclo de treino estão largas horas de observação de adversários, observação de treinos e jogos da equipa que se orienta, de análise de dados estatísticos, de planeamento de estratégias de jogo, (muita) edição de vídeo, planeamento de cargas físicas, estudo/acompanhamento da evolução do jogo, entre as inúmeras tarefas inerentes ao treino e à preparação de jogos.

Assim sendo, parece-me importante que um clube que ascenda à I Divisão consiga ter uma estrutura de apoio ao treino e ao treinador que possa suprir as necessidades da alta competição. Para tal, é fulcral a existência de pessoas qualificadas em diferentes áreas, que vão desde a fisioterapia, nutrição, preparação física, análise de jogo, etc.

O que a experiência me transmite é que as estruturas não necessitam de ser de grandes dimensões. Na maioria das vezes, quando temos estruturas diretivas demasiado grandes, subsistem muitas pessoas com opinião e poucas com soluções acertadas. Estruturas pequenas, competentes, são as mais eficazes.

O mesmo acontece em relação às equipas técnicas. Uma equipa técnica deverá dispor, idealmente, de três pessoas, com um mínimo de dois elementos, de forma a permitir organizar e planear todo o processo de treino e de preparação dos jogos.

Além do exposto, o clube deve ser capaz de se rodear de pessoas com competências na área das ciências da saúde (nutricionista, fisioterapeuta, psicólogo e médico), na componente material (mecânico e responsável pelos equipamentos) e de seccionistas capazes, que dêem apoio ao treino e ao jogo.

Considerando o exposto, podemos concluir que já deveríamos ter ultrapassado os tempos em que uma equipa subia à I Divisão para ver o que ia acontecer.

Sem um bom planeamento e estrutura(s) de apoio, os riscos de descer são sempre mais elevados. No entanto, a descida de divisão também não pode ser encarada como uma situação catastrófica.

Há casos recentes, em Portugal e no estrangeiro, de equipas que após terem descido de divisão conseguiram reforçar estruturas, regressando ao topo com resultados muito satisfatórios.

Aquilo que parece fundamental é existir um projeto sustentado que não esteja dependente de resultados imediatos, mas sim de resultados a longo prazo. É que, como diz o título do livro de Ferran Soriano, “A bola não entra por acaso”.

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