Vamos Falar de Hóquei em Patins

«Não gosto de fazer as coisas a metade, gosto de fazê-las de coração e alma»

Mar 20, 2020

Na segunda emissão de uma série diferente do “Vamos Falar de Hóquei em Patins”, esta quarta-feira o HóqueiPT “foi” da fronteira da Alemanha com a Suíça para Itália, epicentro europeu (porventura já Mundial) do surto de CoViD-19.

Ali, vários jogadores portugueses cumprem a quarentena decretada, na esperança que alguma normalidade regresse. André Centeno está em casa desde segunda-feira, dia 9. O seu Valdagno ainda treinou nesse dia – na altura já com uma autorização médica especial – mas um decreto presencial impediria a continuidade dos treinos. E da vida como todos a conheciam.

Com reavaliação da situação agendada para 3 de Abril, Centeno vai treinando em casa, principalmente de bicicleta, acompanhando o que se passa lá ora. Um “cenário de guerra” – num combate real ao vírus -, em que há viaturas militares com megafones a apelar e, se necessário, a intimidar as pessoas a ficarem em casa.

Centeno ainda equacionou passar este período em Portugal – viajando de avião ou de carro – mas, apesar do clube apenas colocar a condição do regresso a 3 de Abril, a embaixada portuguesa não lhe conseguiu garantir que tal fosse possível.

Os números de casos confirmados e mortes não param de aumentar em Itália, mas as autoridades apontam o pico da pandemia para a próxima semana, estimando-se mais algumas semanas até alguma normalidade. Tal permitiria que a Série A1 fosse retomada e concluída, mas essa é apenas uma hipótese. “ala-se do fim imediato da ‘regular season’, e avançar-se logo para o play-off, mas só a partir das meias-finais”, conta-nos Centeno. Nesse cenário, Lodi, Forte, Valdagno e Breganze lutariam pelo título, mas há outras soluções em cima da mesa, com o calendário condicionado pela realização (ou não) do Europeu no previsto mês de Julho.

O regresso pode dar-se à porta fechada. “Se tiver de ser, será, mas jogar num pavilhão sem público não é a mesma coisa. Nós jogamos para o público. Mas, se tiver de ser…”, conforma-se, já adaptado a uma realidade diferente, com grupos de “tiffosi” apaixonados que seguem as equipas para todo o lado e as acompanham no dia-a-dia.

Na pista, Centeno encontrou um “Hóquei mais pausado, mais táctico”, sempre com “jogos extremamente complicados” e conessa que teve algumas dificuldades de adaptação. Mas o seu percurso tinha-o preparado bem.

Da Linha a Itália

Formado em Paço de Arcos, o enérgico jogador recorda com carinho, mais do que uma escola de Hóquei em Patins, uma escola também de vida, em que a competição entre escalões potenciava o valor de cada um. Saíria, após a montra da Taça Latina em Viareggio, para uma temporada em Espanha e no Alcoy, onde oi treinado por Diego Mir (agora treinador do rival Breganze) e jogou ao lado de nomes como Carles Cantarero, Sergi Miras ou Raul Marin.

Com apenas 20 anos e num Hóquei “extremamente táctico, extremamente defensivo, extremamente fechado” optou por regressar a Portugal, embora houvesse vontade do clube que continuasse. Iniciou um périplo de nove anos pelo Minho, passando por Braga, Barcelos e Viana e sem esconder um carinho especial pela Juventude de Viana, onde esteve mais anos.

O directo no Instagram foi acompanhado por ex-colegas, ex-treinadores e por Dario Gimenez, reforço do Óquei de Barcelos para a próxima temporada, que, garante Centeno, conquistará os adeptos da “Catedral”.

Em 2014, recebeu o convite de um Sporting em crescendo. O vestir da camisola do leão foi adiado um ano e concretizar-se-ia em 2015. Cumpriria duas épocas no Sporting. Uma segunda temporada turbulenta, com mudança de treinador pelo meio, culminou com o regresso a Paço de Arcos, por opção técnica, quando ainda tinha mais dois anos de contrato.

André Centeno sentiu o choque da passagem de profissional a amador, mas entregou-se totalmente, como sempre foi seu apanágio. “Carregou” muitas vezes uma equipa recheada de jovens valores e, mostrando também uma inusitada veia goleadora, chamou a atenção do Hóquei em Patins italiano. Partiu para provar a si e a todos o seu valor, mas ainda quer jogar no apelidado “Melhor Campeonato do Mundo”.

Paralelamente, Centeno faz parte da direcção dos Bombeiros Voluntários de Paço de Arcos, numa posição e missão de que se orgulha e que lhe permitiu pôr em prática alguns dos ensinamentos da sua formação em gestão de actividades turísticas, com pós-graduação em gestão de empresas.

Selecções e seleccionáveis

De quinas ao peito, André Centeno jogou os Europeus de Juvenis em Alcobaça (2001) e Saint-Omer (2002) e de Juniores em Dusseldorf (2004) e Santander (2005), conquistando o ouro no país vizinho. Jogaria depois a Taça Latina em Viareggio (2006) e em Coimbra (2008), erguendo o troféu na cidade-estudante portuguesa.

No entanto, numa “geração sanduiche”, tapada por grandes figuras e depois ultrapassada por jovens valores, acabaria por não ter oportunidades na selecção absoluta.

Com os pais nascidos em Angola, foi aposta de “Calabeto”, Carlos Alberto Jaime, grande dinamizador da modalidade em Angola e mesmo a nível Mundial. Desde a estreia em 2009, em Vigo, Centeno jogou seis mundiais, destacando-se o quinto lugar em Nanjing (2017). No último Mundial, em Barcelona, Angola terminou em sexto com uma base que se vem mantendo. Mas há novos valores para potenciar. “Há qualidade, falta oportunidade”, aponta, referindo que os jovens jogadores evoluiriam se jogassem num campeonato como o português.

A pensar num eventual regresso a Portugal, Centeno foi surpreendido com a limitação de “seleccionáveis” a aplicar a partir de 2021/22. Seria considerado “estrangeiro” no campeonato português, mas aguarda esclarecimento da Federação de Patinagem de Portugal. “Se se lembraram de nós [portugueses que representaram outras selecções], somos um efeito colateral desta medida”, lamenta.

Sendo um defensor de estrangeiros de qualidade em Portugal, Centeno vê esta lei – cuja constitucionalidade questiona – como algo para calar os defensores dos jogadores portugueses, dado que o limite definido (de cinco não seleccionáveis) acaba por não limitar muito. Ao contrário da regra italiana, com um limite de três estrangeiros por equipa, que garante protecção e valoriza verdadeiramente os jogadores italianos.

Entretanto, esta quinta-feira, André Centeno teve o seu primeiro Dia do Pai com o pequeno Vicente. Este domingo celebra 34 anos. Tudo em casa, pela saúde dos seus e pela saúde de todos.

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