Editorial

Uma Liguilha para usar e deitar fora

Sep 21, 2020
Pedro Santos

No passado sábado terminou a prova preliminar de acesso à I Divisão, informalmente apelidada de “Liguilha”. Há outras "liguilhas", a decidir lugares na II e III Divisão, mas a de apuramento para a categoria máxima do Hóquei em Patins nacional foi a mais mediática.

A 11 de Março, a Federação de Patinagem de Portugal decretou a suspensão de todas as competições. Várias reuniões depois, “prevaleceu o diálogo” e a decisão foi de não haver campeão, considerar-se a classificação no momento da interrupção para os lugares europeus e de se realizar uma “liguilha” para definir descidas e subidas.

Houve muita discussão, inclusivamente em praça pública, mas a decisão final foi aclamada como um momento de união entre os clubes, com o consenso a merecer rasgados elogios. Era, aparentemente, a solução perfeita.

Mas, afinal, parece que não.

Trabalhando para a próxima temporada, o Comité Técnico de Hóquei em Patins tornou públicas as suas recomendações para eventual nova paragem – suspensão ou interrupção - forçada. Um documento que se saúda, evitando discussões futuras. Mas que levanta várias questões.

O próximo Campeonato Nacional da I Divisão, que arranca no próximo dia 26, tem prevista a realização de um playoff de atribuição do título. Caso a pandemia o permita. Se não o permitir, vinga a fase regular de todos-contra-todos, em 26 jornadas, que pode ser alargada no tempo até 30 de Julho.

Sem playoff, só haverá campeão se forem realizadas todas as 26 jornadas da fase regular. O que vai ao encontro do que foi decidido para a temporada de 2019/20.

Se as 26 jornadas não forem terminadas, há um ponto fronteira de realização de 75% dos jogos, sendo dúbio nas orientações o que são 75% dos jogos. Escreve-se que serão 20 jogos, e seria matematicamente correcto para cada equipa, mas, se, por exemplo, duas equipas tiverem 21 jogos e outras duas 19 também estarão cumpridos 75% dos jogos da prova. Mas assumimos, para efeitos desta reflexão, que serão 20 jornadas completas.

Se forem cumpridos pelo menos esses 75%, a classificação no momento determinará a atribuição das vagas europeias e três descidas de divisão.

Se não forem cumpridos esses 75%, a época é dada como cancelada. As vagas europeias serão as da temporada anterior e não há descidas nem subidas. Ou seja, se fossem só cumpridas 19 temporadas, ficaria tudo como no início da época e 2021/22 começaria como se 2020/21 não tivesse acontecido.

Curiosamente, foram 19 as jornadas completas na I Divisão em 2019/20. E aplicou-se a solução da “liguilha”. O que mudou desde esse momento de consenso, harmonia, de quase-nirvana, até à elaboração do documento que prevê nova interrupção nos campeonatos, em que a solução da “liguilha” é posta de lado?

O esforço das equipas da II Divisão não deveria ser reconhecido da mesma forma? As equipas da I Divisão, apesar das vicissitudes dos jogos por realizar, não deviam ser penalizadas por percursos menos conseguidos até ao momento? Afinal, a dita “justiça” é agora – para um mesmo cenário – o cancelamento da temporada?

Descem três e não sobe nenhum?

O documento orientador elaborado estabelece o fulcro dos 75% também para a II Divisão, o que tem a sua coerência. Não fosse o facto de as duas provas não seguirem a par no calendário, terminando as 26 jornadas da I Divisão a 24 de Abril e as mesmas 26 jornadas da II Divisão a 22 de Maio.

Imaginemos que, volvido um ano, o dia 11 de Março (já em 2021) volta a ser fatídico para o Hóquei em Patins nacional, com nova suspensão. A essa data, sem sobressaltos, estarão realizadas 21 jornadas na I Divisão e apenas 17 na II Divisão. Os 80% de jogos realizados no escalão maior determinariam três descidas. Mas os meros 65% jogados no escalão secundário não seriam suficientes para apurar promovidos.

Descem três, não sobe nenhum? Sendo que tal obrigaria certamente a uma decisão não regulamentada, seria talvez, em tom de ironia, o cenário ideal para quem defende a redução de clubes na I Divisão…

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