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«Saio melhor treinador por ter vivido, sofrido e desfrutado de um clube tão grande»

Jun 30, 2021

Seis anos depois, Guillem Cabestany deixa o Porto para regressar a casa. Sai porque quer, porque entende que os ciclos têm de terminar, pondo ponto final numa passagem que deixa marcas no Porto e no Hóquei em Patins português. Antes da partida, falou com o HóqueiPT. #Entrevista #Video

Guillem Cabestany deixou Portugal no passado dia 24 de Junho, dia de São João, patrono de um Porto que o acolheu ao longo de seis anos e também da sua Catalunha natal, para onde regressa.

Entre "corridas" para as despedidas possíveis antes da partida, parou na Casa do Porto da Afurada, nos Dragões da Afurada, a quem o HóqueiPT agradece, em plena preparação do São João, toda a atenção prestada. Comeu umas sardinhas - pela primeira vez - e deixou ao HóqueiPT um testemunho de algumas recordações, boas e más, da sua passagem pelo Futebol Clube do Porto.

O treinador catalão de Sant Pere de Riudebitlles chegou ao Porto - numa aposta de risco num técnico estrangeiro - em 2015 com 39 anos e com apenas cinco temporadas como treinador de uma equipa principal, com quatro temporadas no modesto Vendrell e uma nos italianos do Breganze. Mas já conquistara um lugar de destaque no mundo do Hóquei em Patins, sendo inclusivamente - e insistentemente - apontado ao Barcelona. 

Parte com 45 anos e muitos mais cabelos brancos. Conquistou quatro vezes a Supertaça, duas vezes o Campeonato Nacional e três vezes a Taça de Portugal. De resto, conquistou a Taça seis vezes consecutivas, com duas no Vendrell e uma no Breganze antes da conquista das três de azul-e-branco. Em 2018/19 cairia no João Rocha, no prolongamento, e a prova foi cancelada nas duas últimas temporada.

Faltou-lhe um título internacional. Esteve na final da Taça Intercontinental, duas vezes na final da Taça Continental e três vezes na final da Liga Europeia. Já levara o Vendrell (pela primeira vez na história do clube) e o Breganze (também pela primeira vez na história do clube) à Final Four da mais importante prova europeia, mas, por catalães e italianos, não logrou chegar à final.

Fecho de ciclo

Na hora da despedida, Guillem Cabestany frisa que é impossível separar a parte desportiva, com um sabor amargo. É um fecho de ciclo, com muitas histórias bonitas e muitas amizades que ficam para sempre. Refere que um ciclo de treinador não pode ser de muitos anos, o que leva a um desgaste muito grande. "Já achava isso, mas quando descobri o que era o Porto, ainda mais...", aponta, sublinhando que é bom mudar de treinador, de caras, de métodos, de estilo de jogo.

O ciclo poderia ter terminado um ano antes, mas o cancelamento das competições face à pandemia deixava uma sensação estranha. Avisaria cedo que esta seria a sua última época, saindo pelo seu pé. "Na altura não me queriam despedir, se calhar agora despediam...", graceja.

Responsabilidade

A dimensão do Porto e do Hóquei em Patins português é avassaladora. "É muito bonito por um lado, mas uma grande responsabilidade por outro. Ainda que na Catalunha o Hóquei seja um desporto muito querido, está a anos-luz de como se sente em Portugal", exulta.

Num sonho que assegura que dificilmente repetirá, desfrutou muito em 90% dos dias, mas nos outros 10% há o outro lado da moeda, da pressão. Na hora da saída, com outros contornos, de Alejandro Dominguez do Benfica, afirma que todos os treinadores tentam fazer as coisas o melhor possível.

Num cargo de muita pressão, constante, multiplicam-se os cabelos brancos quando a exigência pessoal de cada um é também grande. "Vejo fotografias de há seis anos e é um bocadinho assustador", observa.

Para quem queira vir para Portugal, aconselha capacidade de adaptação ao clube, mas até um certo limite, em que os treinadores têm de ser eles próprios. Se as coisas correrem mal que sejam por terem seguido as suas próprias ideias.

Sem recordação do primeiro jogo [ndr: terá sido uma vitória por 10-1 sobre o Académico de Cambra], lembra o dia em que entrou com a sua família para a formalização do acordo. Recordando o ambiente dos grandes jogos, explica que o Dragão Arena é a melhor pista do Mundo, pelo piso, tabelas, dimensões. Tudo perfeito.

10 jogadores

Quando Guillem Cabestany chegou em 2015 ao Porto, já lá estava Rafa. Com o catalão chegaram Gonçalo Alves e Reinaldo Garcia, para completar o trio de jogadores comum às seis temporadas em que Cabestany ficou sempre "supercontente" com a equipa que teve. Sempre apontando a 10 jogadores.

Nunca quis ter mais do que 10 jogadores, porque - refere - precisa que os jogadores deem o máximo rendimento e com 10 já custa ter todos num bom nível de motivação. Sempre pensou que oito jogadores de pista e dois guarda-redes - não esquecendo a possibilidade de colmatar ausências com valores da equipa "B" ou Sub-19 - era o melhor para gerir, fazendo com que os 10 se sintam sempre parte da equipa e do projecto. A soma da motivação de 10 pode ser melhor que de 12, mesmo que sejam muito bons, diz.

Na recta final da temporada, faltou Poka, numa situação que Cabestany nunca vivera, mas que respeita. E cada um deu mais um pouco de si para colmatar a falta do internacional português, não sendo por aí que o título escapou.

Títulos

Entre os títulos que não escaparam, Cabestany lembra a primeira Taça de Portugal, conquistada em Ponte de Lima, em 2016, frente a um Benfica campeão nacional e campeão europeu, importante por mostrar que as suas ideias podiam redundar em títulos também pelos dragões. Mas o momento máximo de euforia, pela maneira que foi vivido, seria o título de 2017, num Dragão Caixa repleto a viver a 300 km os últimos minutos do que seria o empate das águias em Alverca, frente ao Sporting.

Por outro lado, o momento mais difícil foi indiscutivelmente a derrota com o Barcelona na final da Liga Europeia em 2018, em pleno Dragão Arena. Ainda que todas as derrotas tenham sido complicadas de digerir, as mais complicadas foram mesmo as três finais da Liga Europeia, com novo título internacional a teimar em escapar ao clube.

Polémica

Também indissociável do Hóquei em Patins português é a polémica. "O que não vou sentir falta é esta parte da polémica", aponta. "A paixão do adepto português é fantástica e, por vezes, todos - e incluo-me - passamos o limite", reconhece.

Todos deveriam ser mais honestos quanto aos motivos das derrotas, tirando alguma pressão sobre a arbitragem, que em Portugal é enorme. "Nos corredores, ouvem-se muitas histórias do mundo da arbitragem que não fazem bem nenhum, só envenenam as pessoas", constata.

Por vezes, a polémica nasce, não em decisões incorrectas, mas em decisões que não se percebem. "Há várias regras que podiam ser simplificadas, melhor descritas. Para mim, fundamental é que os adeptos percebam o que se está a passar. Como nas bolas paradas, se o guarda-redes mexe ou não", exemplifica. Os adeptos queixam-se porque é repetido e porque não é repetido, mas se calhar devia ser repetido sempre e os guarda-redes sempre expulsos. É uma regra que não se cumpre porque não pode ser sempre cumprida, e por isso tem de se mudar. E, se é para mudar para melhor, tem de se mudar, mesmo que pareça que há mudanças todos os anos...

Já a regra que infringiu na final da Liga Europeia, trocando prematuramente o guarda-redes, é clara, e reconhece-o. "Por minha culpa, a final teve menos dois minutos...", lamenta.

Play-off e Superliga

Entre regras e modelos competitivos, Guillem Cabestany viveu este ano pela primeira vez um play-off em Portugal. Satisfeito? "Não, porque perdemos", brinca. Mas confessa-se defensor do modelo, um "espectáculo brutal". Ainda que para o treinador seja um desgaste muito grande.

No horizonte, está uma superliga europeia, com mais jogos entre as grandes equipas. "Pode ser muito bom. Vamos ver se há uma boa comunhão entre os clubes e as federações", refere, alertando que há muito trabalho para fazer a todos os níveis para tornar essa competição no que pretende ser.

Pessoas

Grato pelos planteis que teve, Cabestany não esquece todas as pessoas que contribuem para o dia-a-dia da equipa e tentou reunir muitos para se despedir. No seu Vendrell eram duas ou três, no Porto é muita gente, dos diferentes departamentos até à limpeza.

É fundamental todos estarem sincronizados e aponta o exemplo de Carlos Monteiro. "Se o roupeiro ou o mecânico não está contente, pensa-se noutras coisas para além do treino em si".

"Cabestianismo"

A vinda de Cabestany para Portugal mostrou métodos e um Hóquei em Patins diferente, com muitos elogios. Todos os treinadores "bebem" uns dos outros, mas o técnico que deixa os dragões congratula-se pela evolução que viu em muitas equipas adversárias e pelos elogios recebidos ao seu (e da sua equipa técnica) modelo de jogo. "Como vou embora, as pessoas gostam de mim", graceja.

Para um treinador, pouco elogios podem ser melhores que ver o seu trabalho replicado e adaptado a outras realidades, e Cabestany deixa escola.

Futuro

O futuro do Porto passa por Ricardo Ares, basco, mas também com escola catalã. "Fomos adversários como jogadores e como treinadores. Um apaixonado máximo da modalidade e um trabalhador incansável", descreve, sem confirmar os rumore. "Se for mesmo Ricardo Ares, as pessoas podem ficar descansadas, porque - por falta de esforço e trabalho - não falhará", observa.

Quanto ao seu futuro, Cabestany avisa desde já que dificilmente estará em casa de braços cruzados. Apesar das saudades, a mulher Laia e os filhos Maria e Guillém agradecerão... "Vou tentar arranjar desafios desportivos sem a exigência do dia-a-dia", refere.

Volta a casa para estar perto dos amigos e família e com muita vontade de treinar camadas jovens. "Treinar inocência, treinar ilusão". Já assinou pelo clube da terra, o Club Patí Riudebitlles, regressando para uma quarta etapa para devolver ao clube e à terra tudo o que o Hóquei em Patins lhe deu.

Barcelona

Apontado à sucessão de Ares na selecção espanhola, o nome do Barcelona parece estar sempre presente no percurso de Cabestany enquanto treinador. "É um clube imenso", aponta. Quer agora "descansar um bocadinho", mas reconhece que os treinadores gostam dos maiores desafios desportivos, e que o Barcelona pode ser um desses desafios.

Para já, os blaugrana tem um treinador [Edu Castro] que agrada a Cabestany. "Gosto muito de como joga", frisa.

Melhor treinador

No fim da aventura no Porto de seis anos, Cabestany afirma sair muito melhor treinador do que chegou, apesar desta última temporada ter sido a única das seis em que não ganhou qualquer título.

"Por mil motivos, sou melhor treinador", refere. Por ter treinado grandes jogadores, por ter vivido, sofrido e desfrutado de um clube tão grande, de uma dimensão muito para além da sua secção de Hóquei em Patins. E sempre a aprender.

Cabestany conta que, quando deixou de jogar, quis treinar e foi para o Vendrell a achar que estava preparado. E rapidamente descobriu que não... Depois, "saltou" para o Breganze, também convencido que estava pronto, mas também não demorou a perceber que há sempre desafios novos. Quando surgiu a proposta do Porto, mais uma vez pensou que estaria pronto, mas a aprendizagem e crescimento continuou a ser permanente.

Fica o testemunho de Guillém Cabestany. "Cá·bes·tâ·nhe".

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