Talento sem nacionalidade

O campeonato luso assumiu-se como o 'Melhor do Mundo' com a chegada de talento de além-fronteiras. Para alguns, em demasia. Entre os três primeiros do Campeonato PLACARD, apenas um terço das chamadas à titularidade são de jogadores portugueses.

Talento sem nacionalidade

Murches e Paço de Arcos são as únicas equipas do Campeonato PLACARD sem jogadores de além-fronteiras. Por coincidência, são também as duas equipas mais mal classificadas de uma prova que ainda tem muito - 16 jornadas - para jogar até ficarem definidas as descidas.

No pólo oposto, os "três grandes do futebol" procuram qualidade e resultados no imediato, e têm carteira para atacar qualquer mercado, e, quiçá também por coincidência, ou talvez não, são os três primeiros da classificação e são também os que têm mais jogadores que não tiveram como primeira nacionalidade a portuguesa. Benfica e no Porto têm seis (chegaram a ser sete nas águias, antes de Manrubia ser cedido ao Liceo) e o Sporting tem cinco.

Mas, mais do que uma questão de quantidade, será uma questão de qualidade. Por exemplo, mesmo com Reinaldo Garcia ausente por opção própria, contam-se nestas equipas seis campeões do Mundo pela Argentina.

Estar na ficha vs. estar na pista

A "lei dos seleccionáveis", que obriga a ter cinco jogadores com esse estatuto em cada ficha de jogo de 10 jogadores, veio condicionar as escolhas além-fronteiras, em particular para os abastados Benfica, Sporting e Porto. Terá aberto a porta a portugueses que, de outra forma, provavelmente não tinham espaço nestes grupos privilegiados. Mas, na hora de escolher quem vai efectivamente a jogo, os treinadores não estarão preocupados com a selecção a que o jogador possa ser convocado.

Pese a pouca relevância prática no desenrolar das partidas, a "titularidade" é vista como um reconhecimento pelos atletas e pelo público. "Os jogadores preferem entrar de início e jogar os primeiros cinco minutos do que entrar aos cinco e jogar 45", lamentam alguns treinadores, que têm de gerir - para além de tudo o resto - o ego dos atletas. E, por isso, o grupo de titulares será genericamente um indicador das apostas dos técnicos.

Nuno Resende, Alejandro Dominguez e Ricardo Ares colocam na ficha cinco seleccionáveis por Portugal. 50% dos jogadores. Mas só o basco do Porto se aproxima desse valor no cinco inicial, com 42% das chamadas numa equipa azul-e-branca que tem várias particularidades face aos rivais lisboetas. Desde logo, tem um guarda-redes estrangeiro, Xavi Maliàn, titular em todas as 10 partidas já realizadas para o campeonato. Entre os jogadores de pista, Gonçalo Alves foi o mais vezes titular, com nove chamadas, seguido de Carlo Di Benedetto (oito), Rafa (sete) e, a par, Telmo Pinto e Reinaldo Garcia (cinco), para dois portugueses "e meio" num genérico cinco inicial mais recorrente.

Num Porto que foge à "regra", o campeão do Mundo Ezequiel Mena só foi titular em dois jogos. Mas tal não lhe retira preponderância na equipa de Ricardo Ares.

Já Benfica e Sporting contam apenas com um português no "típico" cinco inicial. E, sem qualquer desprimor (pelo contrário) para a posição cada vez mais reconhecida como a mais importante no jogo, são os guarda-redes.

Nas águias, os mais chamados à titularidade são Pedro Henriques (oito vezes), os campeões do Mundo Pablo Alvarez (oito) e Lucas Ordoñez (cinco) e os reforços para esta temporada Roberto Di Benedetto (titular em todos os 10 jogos) e Nil Roca (nove chamadas).

Nos leões, as apostas mais recorrentes são Ângelo Girão e Toni Pérez, sempre titulares, secundados pelos campeões mundiais Matías Platero (nove chamadas) e Gonzalo Romero (oito). Alessandro Verona (sete) completa o "cinco".

Globalmente, Nuno Resende fica-se por 32% de portugueses no cinco inicial e Alejandro Dominguez por 26%. Não considerando a posição específica de guarda-redes, em que os dois técnicos não têm alternativa estrangeira, os números são ainda mais "dramáticos" para os defensores da utilização de portugueses, que fica reduzida a 15% nas águias e 7.5% nos leões nos quatro de pista que começam as partidas. Nos dragões, "subtraindo" o guarda-redes estrangeiro, o número de chamadas à titularidade de portugueses ascende aos 52.5%.

Por outro lado, tirando da equação Manrubia, que deixou o Benfica no final de Setembro, há sete jogadores nos três grandes (dos 32 que são comummente assumidos como da equipa principal) que nunca foram titulares, apesar de alguns serem recorrentemente utilizados: Carlos Nicolia, Poka, João Souto, Diogo Barata e Roc Pujadas entre os jogadores de pista e os guarda-redes Zé Diogo e Tiago Rodrigues.

Mesmo que o regulamento de competições o restrinja, dizem os estatutos federativos que "todos têm direito à prática da patinagem (...), independentemente da sua ascendência, (...), nacionalidade, (...), território de origem, (...)". E seria possível um Melhor Campeonato do Mundo sem os Melhores Jogadores do Mundo, independentemente da sua nacionalidade?

Nota: Dados sobre a "titularidade" recolhidos nos boletins de jogo da Federação de Patinagem de Portugal, excepto em três partidas do Benfica. Segundo os boletins, em três dos seus jogos (frente a Oliveirense, Famalicense e Riba d'Ave), as águias teriam começado com apenas quatro jogadores...

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