«Defender a camisola argentina é também ter a coragem de a defender fora da pista»
No rescaldo da participação no Mundial, a argentina Flor Felamini lamentou, em lágrimas, as condições e a falta de apoio para a preparação. Carlos Nicolia, ex-capitão da albiceleste, vinca que esta é a história do Hóquei argentino. Mas também da modalidade no geral.

Após a vitória da Espanha na final do Campeonato do Mundo de Seniores Femininos, a argentina Florencia Felamini foi chamada a fazer um rescaldo em "flash interview". E desabou.
A jogadora que representou o Benfica na temporada de 2020/21 fez uma retrospectiva do processo de preparação, que foi... "triste". A agora jogadora do Manlleu fala da falta de rolamentos para trocar, da falta de sticks, de haver dirigentes que não sabiam em que dia viajavam, de só terem tido os equipamentos dois dias antes da viagem.
Ao chegar ao Paraguai, encontraram uma pista em péssimas condições e foram as primeiras a alertar para os riscos. Mas os dirigentes insistiam que jogassem ali, no palco eleito como o principal destes mundiais.
"Se conseguimos isto a 'remar em doce de leite', imaginem o que poderíamos conseguir se tivessemos um pouco de ajuda. A história podia ter sido muito diferente", afirmou.
As declarações são corajosas contra as condições vigentes, com "Flor" a recusar-se a assobiar para o lado como muitos outros. E este "estado de coisas" não se circunscreve à Argentina, como recorda Carlos Nicolia.
O ex-capitão da albiceleste, numa longa publicação no Instagram - que publicamos, traduzido, abaixo -, aplaude as declarações de Felamini, frisando que tem de haver coragem de dizer as coisas, não apenas quando acabou, mas também quando estão a acontecer, mesmo que haja consequências.
Nicolia versou sobre a gestão da modalidade, sobre uma cadeia de favores que corrompe a modalidade, como o governo de San Juan vai suportando financeiramente as selecções albicelestes, e aponta responsabilidades também aos jogadores que, no seu profundo orgulho em representar a Argentina, aceitam quaisquer condições.
Hoje vejo as declarações da Florencia e, mais uma vez, vejo reflectida a história de sempre do hóquei argentino.
Uma história marcada pela desorganização, pela improvisação, pela falta de apoio e, sobretudo, por se falar dos problemas quando já é tarde, quando as coisas já aconteceram e quando as nossas palavras dificilmente poderão mudar alguma coisa.
O Hóquei argentino vive historicamente disto. Mundial após Mundial, geração após geração, continuamos a depender quase exclusivamente do apoio financeiro de um governo provincial que compreende a importância deste desporto para San Juan. E é muito bom que o faça, mas não deveria ser assim. Porque não estamos a falar da selecção de San Juan, estamos a falar da Selecção Argentina, uma das equipas mais vitoriosas da história do desporto do nosso país.
Compreendo perfeitamente a Florencia. Estive muitas vezes no lugar dela, vivi essas situações e senti essa mesma impotência.
Hoje estou fora do Hóquei. Escolhi afastar-me desse mundo porque nunca partilhei, nem partilho, muitas das formas como é gerido. Sempre entendi o desporto a partir do trabalho de equipa, do compromisso, da responsabilidade e, sobretudo, da necessidade de nos envolvermos para mudar as coisas.
E também faço uma autocrítica: 50% da responsabilidade pelo que acontece no hóquei argentino é dos jogadores. Os outros 50% cabem aos dirigentes, às federações e a toda a estrutura que rodeia o nosso desporto.
Porque digo isto? Porque não há jogador que não sonhe vestir a camisola argentina. E por esse sonho aceitamos praticamente tudo. Viajamos como podemos, treinamos onde podemos, competimos nas condições que nos oferecem e muitas vezes calamo-nos pelo simples orgulho de representar o nosso país.
Isso diz muito da nossa paixão e faz parte do que nos tornou grandes. Mas também faz parte do problema.
Porque, se continuarmos a aceitar tudo, nada vai mudar. E a mudança não tem de ser só para nós, mas para os que vêm atrás.
Em todos os meus anos no hóquei, poucas vezes vi dirigentes ou treinadores exprimirem-se publicamente com a mesma liberdade com que o fazem os jogadores. E creio que há uma explicação: o Hóquei argentino está preso numa cadeia de favores.
Um dirigente chega ao seu lugar porque alguém o coloca lá. Esse dirigente escolhe um treinador, e esse treinador recebe o enorme privilégio e a responsabilidade de orientar uma selecção argentina. E assim se constrói uma estrutura onde muitas vezes pesa mais não incomodar quem nos deu uma oportunidade do que defender aquilo de que o desporto realmente precisa.
Tudo acaba por ser um favor atrás de outro, enquanto as verdades incómodas se escondem debaixo do tapete.
A mim criticaram-me muitas vezes pela minha maneira de ser, por dizer as coisas de frente, por discutir ou por não aceitar determinadas situações. Certamente errei muitas vezes na forma de me exprimir, mas continuo convencido de uma coisa: as mudanças conseguem-se dizendo as coisas no momento em que ainda se podem mudar.
Se uma pista não está em condições para patinar, a equipa não deveria entrar para jogar. Mesmo que um dirigente pressione, mesmo que um treinador não queira criar problemas, mesmo que haja compromissos políticos ou institucionais.
Porque, se a equipa não joga, o dirigente terá de responder perante quem o pôs lá. E, se o treinador acompanhar essa decisão, provavelmente também vai incomodar esse dirigente.
E aí voltamos ao mesmo sítio: a cadeia de favores.
A Selecção Argentina não pode ser um favor político, directivo ou pessoal. Cada lugar dentro da sua estrutura deveria ser ocupado por pessoas que tenham realmente como prioridade o crescimento do nosso desporto.
Também temos de deixar de nos enganar com os nossos êxitos.
Temos jogadores extraordinários, dos melhores do mundo. Mas grande parte desses jogadores são produto da Europa, não de uma estrutura de desenvolvimento do hóquei argentino.
A Argentina deu-nos o talento, a paixão, a identidade e as condições naturais. Mas, em muitos casos, o jogador que chega à elite acaba por se formar e aperfeiçoar na Europa.
Somos tremendamente argentinos quando ganhamos. Enchemo-nos de orgulho, de bandeiras e de patriotismo. Mas esse mesmo patriotismo muitas vezes desaparece quando é preciso construir as condições necessárias para que os nossos atletas possam representar o país com dignidade.
Lembro-me perfeitamente do Mundial de San Juan 2022. Quando fomos experimentar a pista do Cantoni, estava praticamente impossível patinar. Nessa noite estavam lá um dirigente político, três jogadores da selecção e mais algumas pessoas.
Mas onde estavam os dirigentes desportivos? Onde estavam as pessoas que tinham a responsabilidade de se antecipar e resolver esses problemas?
Não estavam.
Graças a Deus, nessa altura foi possível resolver. Mas hoje acontece no Paraguai, amanhã pode acontecer em Hong Kong, na China ou em qualquer outro lugar.
Porque também temos de questionar a forma como se tomam as decisões dentro das estruturas internacionais da patinagem. Muitas vezes escolhem-se sedes e tomam-se decisões por interesses que pouco têm a ver com o crescimento do hóquei, levando as nossas competições para sítios onde o nosso desporto praticamente não tem presença.
E, entretanto, são os jogadores que continuam a dar a cara.
Não escrevo isto para atacar ninguém. Escrevo-o porque o vivi, porque fiz parte e porque também reconheço a minha responsabilidade como jogador.
Mas creio que o primeiro passo para mudar alguma coisa é reconhecer os erros. Deixar de justificar o injustificável. Deixar de esconder os problemas e começar a trabalhar a sério, mesmo que os resultados não se vejam amanhã.
Talvez daqui a 10 ou 20 anos possamos ter um hóquei que não seja necessariamente profissional, mas que pelo menos seja digno da sua história, dos seus títulos e, sobretudo, das pessoas que o praticam.
Causa-me uma dor enorme ver a Florencia falar destas situações. Porque sei perfeitamente o que ela sente. Senti-o durante muitos anos e ainda hoje me dói vê-lo.
Mas também creio que temos de perceber uma coisa: não chega falar quando tudo acabou. Não chega denunciar quando já sofremos as consequências.
As coisas têm de ser ditas quando estão a acontecer, quando ainda se podem evitar, mesmo que isso signifique incomodar, discutir ou assumir consequências.
Porque defender a camisola argentina não é só calçar os patins, entrar na pista e dar tudo para ganhar.
É também ter a coragem de a defender fora da pista.
E isso temos de aprender todos: jogadores, treinadores e dirigentes.
Porque, se continuarmos a fazer sempre o mesmo, vamos continuar a contar a mesma história.
E o nosso hóquei merece uma história diferente.
Domingo, 11 de Outubro de 2026, 23h11
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