Um VAR entra num bar...
Pedro Alves dos Santos
Podia ser o início de uma inocente anedota, mas o 'bar' em que este VAR entrou é apenas o Campeonato do Mundo, suposta expressão máxima da modalidade. Há um novo protocolo, que tem os seus méritos mas não foi testado, e condições técnicas de análise de fazer rir para não chorar.

O VAR estreia-se em Mundiais nos "Jogos" que decorrem em Assunção, no Paraguai. Uma ferramenta que é inegavelmente útil para assegurar a verdade desportiva, mas que vai ganhando, jogo após jogo, contornos anedóticos em cada utilização.
Desde logo, foi regulamentado um protocolo, naquela que foi a novidade das regras para a nova temporada. Antes, cada organização podia definir o seu protocolo e o que agora foi transposto para as regras de jogo "bebe" um pouco do que foi feito por Portugal, Itália, Espanha e World Skate Europe.
No entanto, como um todo, está em estreia. Num Campeonato do Mundo. É um pouco ter um novo pneu e testá-lo num Ferrari a 300 km hora no tapete de sucalcos da A8.
O Campeonato do Mundo é o expoente máximo da modalidade. Será - ou devia ser - o evento que tem maior potencial de exposição mediática e de poder captar atenções de adeptos, praticantes e investidores. Não palco de experiências ou material de chacota...
Já tirando erros de julgamento dos árbitros perante imagens que parecem óbvias (é o factor humano, como aquele que leva os avançados a não marcarem em todos os remates ou os guarda-redes a sofrerem em alguns), as câmaras disponíveis não cobrem, em permanência, toda a pista, as imagens tardam em ser disponibilizadas aos árbitros, ou são a repetição "ad nauseam" da mesma perspectiva quando, após a decisão, surge outra repetição, de outro ângulo, mais esclarecedora. Ou nem sequer são do lance que originou o protesto.
Era então melhor não ter nada?, questionarão alguns. Não, de forma alguma. Mas o que há em algumas competições portuguesas, italianas, espanholas ou europeias é "nada"? As soluções - imperfeitas, mas claramente melhores - existem. Não é preciso inventar de novo a roda, como decerto saberão Carmelo Paniagua (presidente da federação espanhola) e Orlando Panza (responsável máximo do Hóquei em Patins europeu), integrantes da comissão técnica da modalidade na World Skate.
As pessoas que, antes do início destes World Skate Games, foram (se foram...) validar as condições da pista, não podiam ter validado as condições técnicas? Pergunta parva. Talvez a validação tenha sido efectivamente feita de igual forma. Igual àquela que levou à suspensão dos jogos no COP Arena com um Campeonato do Mundo a decorrer.
Mas este Mundial vai passar, e vai ficar - como ficou a edição chinesa de 2017 pela falta de público e condições das pistas - para a história do anedotário. Como Carlos Nicolia escreveu, a culpa é também de jogadores e demais agentes, dos que se calam, dos que encolhem os ombros. Caberá na cabeça de alguém que um jogador vá a jogo com um stick sem pá ou com um taco de basebol porque "é o que há"? Porque é que, analogamente, não são exigidas também condições à organização?
Pedro Alves dos Santos
Quarta-feira, 14 de Outubro de 2026, 12h27
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