O rei vai de Ferrari
Pedro Alves dos Santos
A World Skate Europe 'meteu-se a jeito' e, não obstante as críticas na meia-final, não houve alternativa para a final, com o mesmo árbitro a apitar as três derradeiras partidas do Igualada. O rei vai nú. Mas vai de Ferrari.

Não está em causa a conquista do Igualada. O clube catalão que dominou a Europa do Hóquei em Patins nos anos 90, voltou a receber a decisão da prova - com a "oferta económica" à World Skate, que é o que conta, de 30 mil euros, a superar as demais - e, no seu Les Comes, com molduras humanas impressionantes, venceu Lleida e Tomar para arrecadar a WSE Cup pela segunda vez consecutiva.
Marc Muntané, com aposta na "prata da casa", tem uma equipa muito bem organizada, muito sólida a defender, com Guillem Torrents difícil de bater quando inspirado, com Roger Bars e Marc Carol pilares de segurança, com Edu Fernandez a ser o maestro quando é preciso, e com o gaulês Marc Rouze a desequilibrar no um-para-um. E é uma equipa "certinha" e pragmática, no estilo que caracteriza o Hóquei em Patins espanhol.
Mas, no percurso para a conquista, um elemento comum despoletou diversas críticas, reforçando a ideia de que, por regra, as conquistas "saem à casa": o árbitro Franco Ferrari.
Ferrari só apitou três jogos na WSE Cup. Os três últimos jogos do Igualada, sempre em Les Comes. Esteve, com Marco Rondina, na segunda mão dos quartos-de-final, quando os arlequins eliminaram o Sporting. "Na segunda parte, não conseguimos superar a defesa deles como conseguimos na primeira. Tinham uma dureza, por vezes, excessiva, mas os árbitros permitiram", apontara então Edo Bosch, técnico leonino.
Com equipas portuguesas e espanholas na Final Four - e uma final luso-espanhola certa -, era óbvia a chamada de, pelo menos, uma dupla italiana.

A escolha recaiu em Franco Ferrari e no discreto Louis Anthony Hyde. Ferrari esteve na final do Campeonato do Mundo de Sub-19. A tal que teve uma bola a entrar e atravessar a rede sem que nenhum dos árbitros (o outro era Claudio Ferraro) desse por isso. Em 10 jornadas da fase regular da Champions League, Ferrari esteve em apenas quatro. Em Itália, não apitou qualquer dos sete jogos da Coppa, tendo apitado apenas um dos jogos entre os actuais três primeiros da classificação.
Entre italianos, por exemplo, Filippo Fronte e Marco Rondina estiveram ambos em seis jornadas da fase regular da mais importante prova europeia, não se percebendo a chamada de (apenas) uma dupla secundária [Hyde só tinha estado na já distante primeira jornada da Champions League], quando não havia outros jogos europeus no fim-de-semana.
Nas meias-finais, Ferrari e Hyde apitaram o jogo entre Igualada e Lleida. Entre várias críticas do técnico Edu Amat, o foco incidiu num lance em que, com o resultado em 3-2, haveria lugar a um azul. Foi apenas falta, a 10ª. O Lleida falhou o livre directo, mas também perdeu dois minutos de superioridade e outro eventual livre directo. Após o apito final, nos protestos, Ferrari mostrou o vermelho a Jordi Badia, ainda que não conste no boletim electrónico de jogo.

Se esse erro e outros erros poderiam acontecer com qualquer árbitro, por mais cotado que fosse? Naturalmente. Mas teria de voltar no dia seguinte para apitar a final?
Para os três jogos da Final Four, a World Skate Europe nomeou apenas duas duplas. Os italianos Franco Ferrari e Louis Anthony Hyde e os espanhóis Jonathan Sanchez e Albert Barba, que apitaram a partida entre Riba d'Ave e Tomar. Olhando para as nacionalidades dos árbitros e equipas, já era certo que teriam de ser os italianos a apitar a final. Por pior que tivessem estado na sua meia-final.
Num confrangedor amadorismo, a World Skate Europe pôs-se claramente "a jeito", e o temido aconteceu.
No jogo de entrega do troféu, com o resultado em 1-0 favorável ao Igualada, o Tomar estava indiscutivelmente por cima na segunda parte em busca do empate quando Ferrari mostrou um azul ao capitão tomarense Pedro Martins. O Igualada não transformou o livre directo, mas a equipa portuguesa jogou dois minutos com menos um. A somar a poucas horas de repouso e a uma pista pouco apta, fazia mossa.
Se Lleida e Tomar tiveram oportunidades para igualar ou até vencer as suas contendas? Sem dúvida. Mas é inegável o mérito do Igualada, que não precisava de se sujeitar a juízos de arbitragens "caseiras".
No final, Franco Ferrari terá reconhecido o erro, e pedido desculpa a Pedro Martins. E, como disse Nuno Lopes, está tudo bem...
Pedro Alves dos Santos
Terça-feira, 1 de Abril de 2025, 22h04