«Estou a aproveitar e a desfrutar bastante desta experiência»

Frederico Mascarenhas estreou-se esta época como treinador principal na categoria máxima, numa italiana Serie A1 de um Hóquei diferente e com peculiaridades. À frente do Valdagno, 'Kiko' conduziu um grupo muito jovem, com quatro portugueses, aos melhores registos nesta década.

«Estou a aproveitar e a desfrutar bastante desta experiência»
Foto de capa: Hockey Club Valdagno

Frederico Mascarenhas completa 37 anos em Agosto, mas, numa idade em que muitos ainda jogam, já leva muitos anos de prancheta na mão. "Kiko" esteve nos escalões de formação do Paço de Arcos e do Benfica, foi adjunto de Alejandro Dominguez nas águias e de Paulo Pereira na Oliveirense e, em 2023, assumiu o comando técnico do Parede.

Em duas temporadas, levou duas vezes a equipa da Linha à poule de promoção, mas as "osgas" não lograram o regresso à categoria máxima. No último defeso, aceitou o desafio de se mudar para Itália.

O reto era afirmar um Valdagno que está longe do tempo áureo em que foi campeão italiano em 2010, 2012 e 2013. Por exemplo, em 2012/13, com Nicolia e Pedro Gil, fez o triplete - com Supercoppa e Coppa, além do "scudetto" - e chegou às meias-finais da então Liga Europeia.

Agora, Kiko conseguiu a melhor classificação na fase regular após a interrupção da pandemia em 2020, e as primeiras presenças, neste período, nas meias-finais da Coppa e da Serie A1. Tudo com um grupo muito jovem, e com cunho português também em pista.

Diogo Seixas é o aporte de experiência da equipa, mas ainda não completou 30 anos.
Diogo Seixas é o aporte de experiência da equipa, mas ainda não completou 30 anos.

O "velhinho" da equipa é Diogo Seixas, bicampeão do Mundo de Sub-20, em 2013 e 2015. Mas tem apenas 29 anos, completando os 30 apenas em Dezembro. Nascido em 1996, é o único do plantel nascido no milénio passado.

Rodrigo Vieira (2002), Lucas Honório (2003), Giulio Piccoli, Leonardo Diquigiovanni, Tiago Sanches (2004), Nicolo Crocco (2005), Marco Tomba (2006), Francesco Crocco (2007), Pietro Crosara (2008) e o guarda-redes Filippo Vallortigara (2009) completaram o plantel que terminou a temporada, depois de Giovanni Bovo (2000) ter rumado a Giovinazzo com a época em curso.

Objectivos atingidos

"De forma geral, estou bastante satisfeito com o que conseguimos alcançar este ano. Atingimos todos os objetivos mais optimistas a que nos tínhamos proposto no início, e, apesar de ser uma equipa super jovem e de ser o nosso primeiro ano, conseguimos fazer um campeonato em crescendo. Com algumas dores de crescimento, mas que no final posso considerar como bastante positivo. Acredito que na fase regular do campeonato podíamos ter feito melhor e, consequentemente, ter ficado no 3º lugar, que nos escapou por um ponto de diferença", analisa Kiko para o HóqueiPT.

O Valdagno terminou em 4º na fase regular da Serie A1, com 17 vitórias, três empates e seis derrotas. Três dos desaires foram nas cinco primeiras jornadas, ainda em fase de assimilação de processos. Na sua proposta ofensiva, o Valdagno terminaria com 134 golos marcados (apenas aquém dos 200 do Trissino), mas 100 sofridos, sendo apenas a 7ª defesa menos batida.

No play-off, virou a série depois de uma derrota inaugural com o Monza, e bateu-se com o Trissino nas meias-finais. Venceu um jogo, repetindo o feito da fase regular em que apenas Valdagno e Forte venceram o actual campeão italiano.

"Não podia estar mais satisfeito com esta mudança para Itália, tanto a nível profissional como familiar. Realmente estou a aproveitar e a desfrutar bastante desta experiência", conta-nos.

O campeonato italiano é periférico à realidade ibérica e, principalmente, portuguesa. Mas há valor e talento. "A nível hoquístico, Itália surpreendeu-me bastante. O jogo tem algumas características diferentes daquelas a que estamos habituados, mas o nível técnico dos jogadores é, na sua grande maioria, bastante bom", aponta.

"O Hóquei aqui é bastante mais físico do que em Portugal, os bloqueios são feitos de forma muito mais agressiva, os árbitros não tem uma linha condução do jogo tão vincada como em Portugal e, portanto, existem árbitros que são bastante permissivos e outros que tendem a marcar praticamente tudo. Mas, depois, não são muito consistentes ao longo do jogo, e penso que esse é um dos fatores que torna o jogo bastante mais físico", refere.

Diferenças tácticas

"A nível táctico, existe uma grande disparidade no campeonato, as equipas que lutam pela manutenção ou pela entrada no play-off tem por base uma defesa mais baixa e mais passiva e no ataque especulam bastante com bola e tentam aproveitar os erros", explica, realçando a clivagem entre as equipas das primeira e segunda metade da tabela.

"As equipas que lutam pelos seis primeiros lugares jogavam um Hóquei mais idêntico ao nosso, com excepção do Viareggio, que era uma equipa predominantemente mais italiana, mas adaptada aos jogadores que compunham o plantel. O Monza, Lodi e o Valdagno eram equipas que privilegiavam o Hóquei ofensivo e bastante mais direto, uma defesa alta e pressionante", destaca. E há as duas actuais potências económicas, agora na disputa do título.

"O Bassano e o Trissino eram claramente as equipas com maior capacidade individual e coletiva, e baseiam-se em polos opostos. O Bassano com uma defesa alta, super pressionante, mas muito eficaz. O Trissino com um jogo ofensivo com grande variabilidade e com muitos recursos", afirma o jovem treinador.

Adeptos

É um Hóquei diferente, mas que vai garantindo paixão e seguidores para lá das fronteiras ibéricas, contrariando os arautos da desgraça na modalidade.

"Os adeptos surpreenderam-me bastante. Quase todas as equipas têm claques, o que é bastante motivador para os jogadores. No nosso caso específico, tivemos praticamente sempre adeptos a apoiar-nos em todas as pistas inclusivamente no Sul, onde nos acompanhavam cerca de 25 adeptos", realça.

"O ambiente no nosso PalaLido também é algo que gostaria de destacar, porque, muitas vezes, arrepiava o ambiente e a atmosfera ao redor do jogo. Ajudou-nos em muitos momentos ao longo da época", assinala.

Próxima época

Depois desta temporada, os adeptos "valdagnesi" terão motivos para acreditar em nova boa campanha, ainda que Trissino e Bassano continuem sempre mais perto dos títulos.

"Acredito que a diferença entre Trissino e Bassano e as restantes equipas ainda é grande. O Lodi reforçou-se bastante, o Viareggio também se reforçou com um jogador de qualidade, e nós e o Monza vamos manter grande parte do plantel e dar continuidade ao trabalho que temos vindo a desenvolver", explica.

"Nós perdemos o capitão de equipa e ainda estamos a trabalhar na possibilidade de suprimir essa saída. Claro que para nós seria benéfico ter conseguido manter a equipa para almejar a qualquer coisa mais, mas, no caso de não o conseguirmos fazer com a qualidade que considero necessária para fazer parte do nosso grupo, temos na formação jogadores interessantes e com margem de evolução grande que podem ter a sua oportunidade", aponta.

Os quatro jogadores portugueses que compõem o plantel, deverão continuar às ordens de Kiko Mascarenhas, sendo que a sua importância é traduzida por clara qualidade acrescida, como o guarda-redes Rodrigo Vieira entre os postes, e em números. Golos no caso dos jogadores de pista.

Na Serie A1, Lucas Honório, que ombreou com Alvarinho pela "stecca de oro", apontou 51 golos, tendo marcado em todos os sete jogos do play-off. Tiago Sanches apontou 29, e Diogo Seixas 21. Só se "intrometeu" o italiano Leo Diquigiovanni, o capitão que está de partida para reforçar o Bassano.

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