Uma despedida ingrata
Pedro Alves dos Santos
Diogo Rafael despediu-se, este sábado, após 22 anos de águia ao peito, do Benfica. Uma despedida com o troféu de campeão nas mãos, mas sem patins, a ver o jogo atrás da rede, preterido na convocatória encarnada para o terceiro e derradeiro jogo da final do campeonato e da época.

Este editorial carece de uma declaração de interesse prévia, minha e do HóqueiPT, que se arrisca a ser maior que o seu propósito.
Entre todos os jogadores com que falamos, Diogo será daqueles a quem custa mais arrancar uma palavra. Chega mudo e parte calado, ludibriando a própria mãe, que o segue em passo apressado.
De todos os jogadores com que tivemos o orgulho de partilhar uma refeição, Diogo não foi um deles. De várias camisolas que tivemos a honra de receber, temos, de facto, uma do Diogo. Bem, mais ou menos. Aquela da Selecção que comprámos no Europeu de 2016, tem o seu "4" nas costas.
No entanto, cá no burgo, o Diogo Rafael é "o Maior". São 22 anos no Benfica, são 22 anos na nossa vida.
Se termina carreira, se vai para Itália, ou para Barcelos - que parece que é uma hipótese descartada, mas era tão ironicamente bonito ter o Maior no "Maior de Portugal" -, não sabemos. Neste momento, por mais que gostemos de dar notícias, é irrelevante.
O Maior chegou ao Benfica em 2004, com uma reputação que o precedia. "Xiquinho", o predestinado de Turquel. Chegou, ainda com 14 anos, para os Sub-17, sem hipótese de lutar pelo título nacional devido ao modelo de apuramento. No seu segundo ano, foi campeão nacional.
Era um líder, marcava golos, fazia assistências. Tudo com um sorriso, com um toque de magia, com a língua de fora, com uma arrogância própria. Um "cagão". Mas o Maior era um cagão que conquistava o direito a sê-lo em cada jogo, em cada lance.
Já sénior, falava-se que tinha olhos na nuca. Que via tudo. Que, calado, tudo ouvia. Diz-se que não alinhava num grupo ou noutro, que não tomava a posição que os anos de casa talvez justificassem.
Muito se falou da vida do Maior para lá da pista. De excessos, "do que podia ser se quisesse", dos amigos. Que fazia e acontecia. "Ganhámos?", retorquia. Sim, tantas vezes. Em pista, sobre os patins, poucas vezes não entregou. Com erros, claro. Com falhas de quem procurava o risco, de quem procurava a ruptura sem régua nem esquadro.
Foi determinante em muitas conquistas, a jogar e a fazer jogar, aquém do reconhecimento que geralmente é para quem marca golos. E, por vezes, também os marcou. Como no tal Europeu de 2016, quando uma sms com "calma, que o Maior vai entrar" foi premonitória. Mas essas são contas de outra camisola.
Com a do Benfica, foi perpetuado em homenagem no primeiro jogo desta final com quatro títulos de campeão. Uma homenagem que protagonizou de sorriso trancado, de lágrimas contidas, escondido numa expressão de frete característica que ninguém descodifica.
Agora, são cinco títulos de campeão. Mesmo que não tenha entrado no segundo jogo, e que tenha ficado de fora no terceiro.
Para o jogo que poderia ser o seu último, para o jogo que podia ser o seu último na Luz, foi preterido na convocatória por Pau Bargalló, que estivera ausente três partidas. Talvez numa absurda necessidade de vincular (mais) o catalão ao título. Sem culpa, Pau não entrou bem, sem ritmo, quase forçado a estar em pista como justificação. Mas isto não é sobre Pau que, sem dúvida - mas não assim -, dará muito ao Benfica.
No não ser importante o 'quê', e ser importante o 'como', foi feio. Muito feio.
O Maior assistiu ao jogo na tabela de fundo, atrás da rede. Nos instantes finais, os Diabos Vermelhos ergueram duas tarjas. "22 Gloriosos Anos...". "Obrigado Diogo!". A melhor homenagem, daquelas que não cabem numa camisola estampada: o reconhecimento benfiquista.
Ao apito final, que despoletou a celebração, entrou em pista sem patins. Como raramente terá acontecido. Como nunca devia acontecer. Ficou distante a observar, "interrompido" por um ou outro abraço, de colegas e adversários. Sem palavras. Contido. Sem que ninguém soubesse o que lá ia dentro.
Libertou-se no erguer do troféu. Um último grito de campeão pelo Benfica.
Obrigado pelo Hóquei, Maior. E, sem saberes, obrigado por muito mais.









Pedro Alves dos Santos
Terça-feira, 23 de Junho de 2026, 13h04
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