O renascer do Hóquei encarnado
Alexandre Gaspar
Agora de novo campeão nacional, a centenária História do Benfica nem sempre foi risonha. Como, por exemplo, nuns tristonhos anos 80. Mas as águias, que nem fénix e às ordens de Carlos Dantas, 'renasceram' para a primeira conquista europeia e cinco títulos de campeão numa década.

O espaço #DeAutor do HóqueiPT é reservado a contribuições de leitores e da exclusiva responsabilidade destes. Envia-nos o teu artigo para o nosso e-mail e consideraremos a sua publicação em função da relevância e da nossa linha editorial. O artigo será devidamente identificado, formatado e complementado com imagens.
Em 1987, quando a lista opositora liderada por João Santos ganha o despique eleitoral depara-se com uma secção autenticamente enterrada no lodo que não ganhava o campeonato desde 1981 e a Taça de Portugal desde 1982, e onde os principais destaques eram os veteranos Vitor Rosado, Fanã e Leste. Nessa época de 1986/87, o Benfica sofre o maior "correctivo" a nível europeu, com uma humilhante derrota nas Antas para a Taça dos Campeões, por impensáveis 13-1.
Isto demonstrava apenas a situação hedionda a que tinha chegado o nosso Hóquei, que tivera o seu inicio em 1983 quando quase todo o plantel sai do clube. O pretexto era a angariação de fundos e contenção de despesas para o fecho do antigo terceiro anel, uma megalomania que nos custou bem caro. O Porto dominava a seu belo prazer, o Sporting mostrava-se competitivo, e do Norte vinham ameaças muito sérias de equipas como Oliveirense, Juventude de Viana, Óquei de Barcelos e Sanjoanense, suportadas no forte tecido empresarial dessas regiões a que se juntava o investimento camarário.
O rejuvenescimento da nossa equipa começa em 87 com a chegada do promissor Rui Lopes do Paço de Arcos, clube ao qual o Benfica na época seguinte reclama quatro jogadores - Luis Ferreira, José Carlos, Paulo Baptista e João Carlos - e a equipa técnica liderada por Carlos Dantas.
Aos poucos, o Benfica vai ganhando estaleca e mecanização, insuficientes em 1988/89 e 1989/90 para ganhar o que quer que seja, embora, com as adições de Vitor Fortunato e Paulo Almeida, o nível competitivo tenha subido de maneira efectiva.
Em 1989/90, o título é perdido devido a duas estrondosas derrotas na Luz, com Porto (1-7) e Oliveirense (2-6). Nesse período, entre 1987/88 e 1989/90, a nível europeu, o Benfica joga três eliminatórias da Taça CERS com resultados no mínimo estranhos. Na Luz, goleia o Vercelli por 6-1, o Igualada por 4-0 e o Barcelona por 7-2. Fora, é sovado em Itália por 11-2 e na Catalunha por 8-3 e 10-4. Inacreditável, sobretudo na eliminatória com o Barcelona, onde baqueia no prolongamento na Luz, quando os blaugrana marcam o 7-2 que lhes dá a qualificação.
Chegamos a 1990/91, onde finalmente os títulos aparecem com a conquista da Taça de Portugal em Carregal do Sal contra o Turquel (3-1 na final) e na Taça CERS frente ao Réus, que já nos tinha tirado a Taça dos Campeões Europeus de 1969 e a Taça das Taças de 1984.
A campanha do primeiro troféu europeu do Hóquei encarnado começa de maneira fácil, com duas goleadas frente ao modesto Coutras. Nos quartos-de-final, ganhamos 10-2 na Luz á Oliveirense, mas o impensável quase que aconteceu, quando no segundo jogo somos sovados por 0-7. Nas meias-finais, despachamos o Valdagno, ganhando 5-3 em Itália e controlando na Luz com um empate a três. Chegava a final e, na primeira mão, em Espanha, perdemos por 4-6, num jogo em que o capitão Carlos Garção é barbaramente agredido, necessitando de tratamento hospitalar.
A segunda mão é inesquecível. Com o antigo pavilhão número 1 cheio até mais não, com a mística ao rubro como poucas vezes vi, o Glorioso arrasa os espanhóis com uma goleada por 10-3.
Era a consagração para uma equipa que, aos poucos, foi subindo patamares, e que sempre teve a noção de que o estrelato se atingia com trabalho, sofrimento e dedicação. Para a posteridade ficam o nome dos heróis: José Marinho, Paulo Zeferino, Paulo Almeida, Luis Ferreira, Rui Lopes, Carlos Garção, Vitor Fortunato, Rui Fernandes, Jorge Conceição e os reforços dessa época, Fernando Almeida e o regressado António Rocha que nesse jogo da Luz faz um poker.
Na época seguinte, o tão almejado título regressa ao local certo, num despique acérrimo com o Óquei de Barcelos, e numa época em que os nossos rapazes colocam um ponto final na hegemonia portista. Nessa temporada, a chegada do experiente Pedro Trindade é fundamental para a rotação do cinco base.
Com o titulo europeu na mente em 1992/93, o Benfica joga forte com a vinda (infelizmente) de um dos símbolos do rival das Antas, Tó Neves.
O ex-portista assina por três anos, mas, para nosso bem, só cá fica uma época, tendo ainda anos depois a ousadia de dizer que o Benfica era uma fábrica, e que sentia saudades do ambiente familiar do clube de onde desertara, embora seja justo reconhecer que, no final dessa época, pediu para regressar ao Norte abdicando do resto do contrato.
1992/93 é a época do quase. Apenas se conquista a Supertaça, enquanto no Campeonato, Taça e Taça dos Campeões Europeus ficámos ás portas do paraíso.
Nesse ano, a nível europeu, depois de passar o Roller Monza e o Liceo, o Benfica apanha o Igualada na final. De referir que na eliminatória com o Liceo, depois de um empate na Corunha a três, no jogo da segunda mão chegámos a estar a perder por 2-4 já na segunda parte. O carácter e alma da equipa vieram á tona, suportada no fanático apoio dos seus adeptos e a reviravolta acontece.
Só que na final, o Igualada é insuperável, goleando o Benfica nos dois jogos. Na Luz, os meus olhos puderam testemunhar pela primeira vez o quão genial era o senhor Carles Folguera. Dos que vi, foi a milhas o melhor guarda-redes.
Finda uma época horrível, e com o Verão Quente a estender as suas ramificações ás modalidades, o treinador Carlos Dantas volta á sua forma predileta, ou seja, ter um cinco base forte e estável, complementado com dois jogadores para a rotação. Para além de Tó Neves, o Benfica dispensa Jorge Conceição, Rui Fernandes, António Rocha e Pedro Trindade, apostando na promoção da equipa de juniores bi-campeã nacional, onde pontificavam João Miguel, António Ramalho e Jorge Godinho.
1993/94 é época de dobradinha. O campeonato é vencido facilmente, e, na Taça, o Porto é "passado a ferro" nas meias-finais (8-5) e o Sporting cilindrado e humilhado na final, em Ponta Delgada, por 11-3.
Em 1994/95, mais uma dobradinha, com direito a campeonato sem derrotas. Na final da Taça, em Sintra, chegámos a estar a perder por 1-5, mas os bravos da Luz vão buscar a final com uma remontada épica para 6-5. Mas o mais entusiasmante é a campanha na Taça dos Campeões, com eliminatórias épicas com Barcelona (inesquecível 8-1 na Luz, com direito a invasão de campo) e Novara, que era a selecção italiana, e que na Luz é vergado por uns deliciosos 5-1.
Na final, volta a aparecer a besta negra do Igualada. Na Luz, com o pavilhão a rebentar pelas costuras, vencemos por um tangencial 4-3. Em Espanha, a equipa está irrepreensível na primeira parte, mas, no segundo tempo, com o resultado em 2-1 para os espanhóis, o árbitro italiano decide não ver um golo de Rui Lopes. A equipa fica momentaneamente desorganizada, e os catalães marcam o 3-1 que lhes dá mais um titulo europeu.
Na época seguinte o Benfica, fica em regime de seca de títulos a despeito de uma deliciosa goleada nas Antas por 0-7. No final da temporada, Rui Lopes ruma ao Liceo e Fernando Almeida volta para o Norte do pais.
Era o prenúncio do desmantelamento da super equipa, embora com o regresso de um Zé Carlos mais maduro e confiante ainda tenha sido possível conquistar o bicampeonato em 1996/97 e 1997/98.
Depois foi o desmoronar de um trabalho metódico que tinha levado anos a ser erguido, com as saídas de Paulo Almeida e Ramalho para o Óquei de Barcelos. A chegada dos irmãos Velázquez em 1999 e de Filipe Gaidão em 2000 ainda deu para momentos de glória, embora apenas se tenha conquistado três Taças (2-0 ao Porto em 1999/00 e dupla vitória frente ao Óquei de Barcelos em 2000/01, por 4-2, e em 2001/02 por 6-1) e duas Supertaças (2001/02 contra os barcelenses e em 2002/03 com num inigualável 12-4 ao Porto na Luz).
A machadada definitiva é dada em 2003, quando se propôs o fim da modalidade. Isto levou a que quase todos os craques abandonassem a Luz e o Benfica entrasse mais uma vez num período de vacas "esqueléticas".
Para a história ficam nomes incontornáveis, que deram aos aficionados benfiquistas momentos maravilhosos.
Paulo Almeida e Rui Lopes eram os reis do contra-ataque, Vitor Fortunato implacável na marcação individual, Fernando Almeida e Zé Carlos os guardiões do templo, o explosivo António Ramalho, o goleador silencioso Ricardo Pereira, Mariano Velázquez e Filipe Gaidão, pedras basilares nos últimos lampejos dessa equipa e, para o fim, deixo duas personalidades antagónicas, mas que marcaram e de que maneira esses tempos.
Luis Ferreira, o melhor capitão que vi em mais de 30 anos de Hóquei, cerebral, goleador, e tacticamente irrepreensível. Um líder da cabeça aos pés.
Francisco Velázquez. Ou, melhor, Panchito. Chamar génio, mago, predestinado, extra-terrestre é pouco, muito pouco, para catalogar os momentos de genialidade pura que nos deu com a nossa sagrada camisola.
E claro, o homem que no banco edificou todo este trabalho e ajudou a criar a cultura vencedora desses tempos, o técnico Carlos Dantas.
O coração chora de saudade a relembrar estes tempos, e pelo esquecimento a que estes craques são votados.
Era o Grandioso Benfica.
Alexandre Gaspar
Domingo, 4 de Outubro de 2026, 12h41
Gostou deste artigo?




