Editorial

1947 como ostentação num Estado Novo (de Emergência)

Dec 04, 2020
Pedro Santos

Foto de capa: Museu Virtual do Desporto Português

Entre 9 e 13 de Dezembro está prevista a realização da Taça 1947, nova prova para os oito mais bem classificados ao cabo da primeira volta da I Divisão. Uma boa ideia. Mas não este ano. #Taça1947 #Opinião

Em 1947, quando a Europa recuperava de uma devastadora II Grande Guerra, Portugal recebeu o primeiro campeonato do Mundo e da Europa do pós-guerra num Pavilhão dos Desportos remodelado para o efeito, numa demonstração de vitalidade do Estado Novo.

A selecção portuguesa sagrar-se-ia pela primeira vez campeã, vencendo sucessivamente Bélgica (7-2), Espanha (2-1), França (7-1), Suíça (5-2), Itália (3-2) e a outrora dominante Inglaterra (3-0), sendo coroada a 23 de Maio de 1947.

Volvidos 73 anos, em plena pandemia e sem fim à vista, a Federação de Patinagem de Portugal daria, num anúncio sem pompa, o nome de “Taça 1947” a uma nova prova em homenagem a esse primeiro grande título. Uma homenagem merecida, a que o HóqueiPT já tentara dar forma com a instituição do Dia Nacional do Hóquei em Patins a 23 de Maio, em proposta apresentada à Assembleia da República.

Para lá da homenagem, a Taça 1947 é uma boa ideia. Aliás, uma excelente ideia, como os copiados modelos da Copa del Rey ou da Coppa Italia já o demonstraram além-fronteiras. Ou como o sucesso mediático da Elite Cup, mesmo em pré-época, comprovou. Seria um evento extraordinário, fosse quando fosse. Menos neste bizarro ano de 2020.

Vive-se, não um Estado Novo, mas um novo Estado. De Emergência. Que promete vigorar, pelo menos, até 7 de Janeiro. Quando as II e III Divisão e os Sub-23 estão altamente condicionados nos seus jogos e toda a formação continua em busca da possibilidade de realizar partidas, a realização da Taça 1947 é uma ostentação do “eu posso” das equipas da I Divisão. Sendo discutível que esta nova prova seja uma “competição de nível competitivo correspondente” à I Divisão, como a equiparação governamental advoga. A excepção ditada no Estado de Emergência (que aparentemente vigorará pelo menos até 7 de Janeiro, com medidas a anunciar) seria claramente para permitir a continuidade das provas mais significativas, não para novas provas, por mais bonita que a homenagem pretenda ser.

Mesmo em termos de homenagem, ou agitando a bandeira da promoção da modalidade, a Taça 1947 deixará muito a desejar. Com os “quartos” a meio da semana, a horários impróprios para que os trabalhadores, esta “homenagem” nem deverá poder ter publico. Então, em 1947, o Pavilhão dos Desportos encheu sempre que Portugal entrou em pista e o público também teve a sua parte de responsabilidade no triunfo. Agora, os adeptos são vetados à irrelevância, e a realização da nova prova certamente inspirará revolta em quem está sozinho em hospitais, não pode visitar familiares doentes ou, em muitos casos, exercer as suas actividades profissionais.

A verdade desportiva

Para a temporada mais incerta de todos os tempos, FPP e clubes decidiram-se pelo calendário mais exigente de que há memória, com introdução desta Taça 1947 e dos play-offs.

A Taça 1947 visava premiar a primeira volta das equipas da I Divisão e precipitaram-se jogos, restringiram-se adiamentos. E quantas equipas poderão chegar à data prevista de arranque da nova prova com a primeira volta completa? Apenas Riba d’Ave e Tomar.

Dos previstos 91 jogos da primeira volta, ficarão pelos menos 11 jogos por realizar. Mais de 10%. Não fossem os agora já inevitáveis adiamentos e a Juventude de Viana, actual oitavo e a poder ficar-se pelos 12 pontos, poderia ser passada por Braga, Sanjoanense, Turquel e Famalicense.

A fórmula de apuramento, já prevista antes do início do campeonato, aponta ao quociente entre pontos conquistados e jogos realizados que, ainda que sendo o mais “justo” em termos estritamente matemáticos, está longe de ser justo em termos desportivos. Fazem-se contas aos jogos disputados, aos adversários defrontados, aos adversários por defrontar, ou mesmo das condições em que se defrontaram determinados adversários. Se o objectivo era premiar a primeira volta, que primeira volta será premiada?

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