«Não é importante o 'quê', é importante o 'como'»

No rescaldo de uma caminhada quase perfeita no campeonato, Edu Castro lembrou fantasmas exorcizados, estatísticas, e a capacidade de superação da equipa. E a 'alma benfiquista', os adeptos, certamente orgulhosos agora, mas também na derrota para a Champions, garantiu o técnico.

«Não é importante o 'quê', é importante o 'como'»

O Benfica conquistou este sábado o título de campeão nacional, o 25º da sua História, apenas o quinto neste século. Timoneiro de uma nau que navegou seguro, imparável, no curso do Campeonato Placard, o "melhor campeonato do Mundo", Edu Castro tomou posição, alavancado pela vitória, contra o mau agoiro.

"Hoje lembrei-me muita vez de quando ganhámos pela segunda vez a Elite Cup este ano e falaram do fantasma da Elite Cup, que não se ganha a Elite Cup e também o Campeonato. Estamos cheios de fantasmas.

Fomos superando. Que não se ganhava no Porto, ganhámos para a Taça. Que não se ganhava três vezes em Barcelos desde não sei quando. Fizemo-lo. Não é o 'quê', é o 'como'", referiu, relevando o processo, o jogo jogado. "O 'como' tem muito a ver com o que vivemos hoje com os adeptos do Benfica", relevou.

Estatística

"Este grupo de jogadores maravilhoso foi capaz de não perder um jogo na melhor liga do Mundo, quatro empates, e o resto tudo vitórias. Os números dizem tudo", destacou, apontando o dedo ao jornalismo pela "estatística constante". "Aí têm uma bonita", vincou.

O Benfica iguala o feito sem derrotas da conquista de 2014/15. Então, sem play-off, o Benfica venceu 25 partidas e empatou uma, na deslocação a Barcelos.

Para a posterioridade, ficam os números da campanha no campeonato agora finda: 34 jogos, 29 vitórias e cinco empates (um deles com vitória no prolongamento). 18 jogos em casa (dois empates) e 16 fora (três empates, e o tal ganho no prolongamento), sendo a melhor série a de 10 vitórias consecutivas nas 10 primeiras jornadas.

Foram 156 golos marcados (mais um no prolongamento), 65 golos sofridos. Um saldo de 84-28 em casa, 72-37 fora, com médias de 4.6 golos marcados e 1.9 sofridos. O Benfica marcou três e cinco golos nove vezes cada, sendo o resultado mais repetido a vitória por 3-2, que aconteceu por quatro vezes. Houve outras três vitórias por um golo, para sete vitórias tangenciais, a diferença que aconteceu mais vezes.

A maior vitória aconteceu no arranque do play-off, com um copioso 10-1 à Sanjoanense. Na recepção ao Póvoa, o Benfica também chegou à dezena de golos, mas consentiu dois.

Um percurso superlativo.

"Perguntavam-me se podemos fazer melhor no campeonato. Melhor? A sério? Podemos tentar voltar a ganhar o campeonato", afirmou o técnico, referindo que pode empatar três jogos e ganhar todos os outros. E que, se não fizerem isso, provavelmente já será apontada uma época pior.

Resiliência e orgulho

Na hora das derrotas, o grupo terá sido resiliente. "Os comentários que se ouviam mais no balneário era que não nos ia acontecer o mesmo", partilhou Edu Castro. "Hoje temos a sensação de que ganhámos dois títulos, o da fase regular e o de hoje [play-off]", explicou.

"Muitas vezes, a estatística não é assim tão importante para explicar o que acontece de verdade. O que acontece de verdade é a alma benfiquista que vemos hoje e os nossos adeptos que, sinto, estão orgulhosos da nossa equipa de Hóquei. Mas estavam orgulhosos também quando perdemos a Champions", realçou o técnico. Talvez não seja assim, que os adeptos, passionais, são "ingratos" na derrota. Mas, muitas vezes, esquecem tudo na vitória.

Quase perfeito

Esta campanha no campeonato? "Muito bom, acho que fica curto. Mas entendo que é uma forma de elogio, e não estou tão habituado aos elogios, nem antes nem agora, tenho de agradecer", destacou.

"Foi quase perfeito. Na melhor liga do mundo. Peguemos nas melhores ligas do mundo de todos os desportos e procuremos uma equipa que esteja toda a época sem perder. É acreditar num modelo de jogo, diferente. Acreditar que temos de ir com um ritmo de bola muito alto, pressionar em pista inteira, estejamos a perder ou a ganhar", explicou.

É um acreditar no processo. E ter muito talento à disposição. "São jogadores de um talento infinito e nós tentamos colocar uma organização mínima, para que o seu talento saia mais vezes possível. No campeonato, conseguimos", frisou.

O título do Benfica consagra 13 jogadores como campeões nacionais. Os capitães Pedro Henriques e Diogo Rafael conquistaram o seu quinto título, João Rodrigues venceu o quarto, Gonçalo Pinto, que ainda participou na campanha para o título de 2016, o terceiro.

Lucas Ordoñez, Nil Roca e Roberto Di Benedetto, todos campeões também em Espanha, conquistam o seu segundo título pelo Benfica. Pau Bargalló, Viti, Zé Miranda e Conti Acevedo estreiam-se.

Quem também junta desde já um título de campeão nacional da I Divisão ao seu currículo, são os jovens Diogo Duarte e Miguel Matias. Diogo e Miguel foram chamados ao jogo em Braga, da 8ª jornada, e, antes, Miguel já viajara com a equipa à Póvoa, onde somou alguns minutos.

Favoritos

No final do jogo, os adeptos pediram o bicampeonato, e Edu Castro, entre a interrogação e a afirmação, assume favoritismo. "Somos favoritos para o campeonato, porque somos os campeões", sintetizou.

Supersticioso ou crente no trabalho? "Porque não podem ser as duas coisas? Quando alguém te faz escolher, já te está a limitar", retorquiu, citando Juanma Lillo, adjunto de Guardiola e seu amigo.

Retrocedendo aos seus 16 anos, quando começou a treinar num bairro de Barcelona, confessou que não imaginava que, quase a cumprir 60 [a 25 de Julho], ia ter ganho ligas em Espanha e em Portugal. Para já, são seis títulos em sete temporadas como treinador principal do Barcelona, agora um em duas temporadas pelo Benfica.

"Estou agradecido ao Benfica, à estrutura, porque é muito fácil querer um treinador quando ganha. Muito fácil, não há mérito. O que é importantíssimo é que as pessoas acreditem em ti quando as coisas não estão a correr bem, mas valorizam outras coisas", realçou.

"Não é importante o 'quê', é importante o 'como'", reforçou em despedida.

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